O livro mais antigo que se conhece impresso em Portugal não está escrito em português. Está em hebraico, acabou-se de imprimir em Faro no verão de 1487, e o único exemplar que sobra está em Londres, na British Library.
É um Pentateuco, a Torá: os cinco livros de Moisés. Com ele começa a imprensa em Portugal, e começa assim, em Faro e em hebraico, antes de qualquer livro em português que se conheça. O mais antigo livro em português que chegou até nós só sairia de um prelo de Chaves em agosto de 1489, mais de dois anos depois.

O livro tem cento e dez folhas, a duas colunas de trinta e duas linhas, em letra quadrada hebraica. Leva as vogais marcadas. E os tipos, tudo indica, foram feitos ali mesmo, em Faro: letras hebraicas com traços sem paralelo exato nas oficinas ibéricas ou italianas da época.

O exemplar de Londres, com a cota C.49.c.1, foi impresso em pergaminho.

Como foi lá parar? Segundo o estudo de Shlomo Pereira, as notas de posse escritas no próprio livro contam-no: passou por mãos judaicas em Itália e esteve em Mântua no século XVI. No século XIX, ainda segundo Pereira, pertencia ao bibliófilo Giuseppe Almanzi, de Pádua, e foi da coleção dele que o British Museum o comprou, na década de 1860.

Quem o fez está, em parte, no fim do livro. Os impressores fechavam os livros com uma nota, o cólofon, e o de Faro diz, na tradução do historiador Manuel Cadafaz de Matos: «Acabou-se aqui em Faro, a 9 do mês de Tamuz, no ano Feliz do justo, que gozará o fruto das suas obras! [Isaías 3, 10], por ordem do nobre e alto Dom Samuel Gacon. Que o seu Criador e Redentor o proteja.»

O ano não vem em algarismos. Está escondido no versículo de Isaías: segundo Pereira, as letras da palavra com que o versículo abre no original hebraico, «imru», «dizei», somadas, dão 247, e com os milhares subentendidos fica o ano 5247 do calendário judaico. O 9 de Tamuz desse ano caiu a 30 de junho de 1487.

Por ordem de Dom Samuel Gacon. O cólofon diz quem mandou imprimir o livro; o nome de quem o imprimiu de facto não está lá. A Encyclopaedia Judaica regista o impressor de Faro como desconhecido e Gacon como patrono. Houve quem visse em Gacon o mecenas e noutro homem o tipógrafo; outros estudiosos creem que o mecenas e o impressor eram o mesmo homem. A questão continua aberta.

De Samuel Gacon, escreve Cadafaz de Matos, não se conhece a data de nascimento. Também não se sabe de onde veio. Sabe-se que em 1487 vivia em Faro e mandou imprimir este livro, e quase nada mais.

Em Lisboa, no verão de 1489, Eliezer Toledano acabou de imprimir o comentário de Moisés ben Nahman, Nachmanides, à Torá, outra vez em hebraico. Semanas depois, a 8 de agosto, saía em Chaves o Tratado de Confissom. O exemplar que a Biblioteca Nacional hoje guarda só foi identificado em 1965, pelo bibliógrafo José V. de Pina Martins, que lhe chamou, com cuidado, «o primeiro livro, até hoje conhecido, impresso na nossa língua».
Em Leiria, a oficina de Dom Samuel d'Ortas e dos três filhos imprimiu livros em hebraico entre 1492 e 1496, e em 1496 as tábuas astronómicas de Zacuto, o Almanach perpetuum. A partir desses números, escreveu o historiador Luís de Albuquerque, calcularam-se as tábuas do Sol do guia náutico de Évora, um dos primeiros livros impressos com regimentos para pilotos.
A 5 de dezembro de 1496, D. Manuel assinou o édito que mandava sair dos seus reinos, até ao fim de outubro de 1497, os judeus que não se convertessem; em 1497 seguiram-se conversões forçadas, e a imprensa hebraica em Portugal acabou.
Faro, Lisboa, Leiria: entre 1487 e 1496, três oficinas de impressão hebraica e uns quinze livros em menos de dez anos. Os dois livros mais antigos com data impressos em Portugal, o de Faro e o de Lisboa, são hebraicos. O hebraico já se imprimia antes em Roma e noutras cidades de Itália, e em Guadalajara; mas foi nesta língua que a imprensa portuguesa deu os primeiros passos.
Do mesmo prelo de Faro saíram também tratados do Talmude. Do tratado Gitin há folhas em bibliotecas de Israel, dos Países Baixos, do Reino Unido e dos Estados Unidos, e uma em Lisboa, na Biblioteca Nacional: a duas colunas, o texto em letra grande e o comentário em letra mais pequena.
O Pentateuco voltou a Faro em cópia. Em 1991, o Governo Civil de Faro publicou um fac-símile feito a partir do exemplar de Londres, e em 2017, nos 530 anos, foi apresentada em Faro uma nova edição fac-similada.
Em Londres, a última página do livro com que a imprensa começou em Portugal não diz quem puxou o prelo. Diz onde: «Acabou-se aqui em Faro».
Fontes16 referências
- Shlomo Pereira, «From Faro to Mantua to London: The Odyssey of Portugal's First Printed Book. The Faro Pentateuch of 1487», Sephardic Horizons, vol. 16, n.os 1-2.
- Shlomo Pereira, «The Faro Talmud: Colophon Ambiguities and the Transmission of Sephardic Traditions in the Early Diaspora», Sephardic Horizons, vol. 16, n.os 1-2.
- Manuel Cadafaz de Matos, «Três momentos para o estudo dos primórdios da imprensa bíblica (judaica e cristã) em Portugal: o período de 1487-1495», dossier «Edições bíblicas em Portugal», Repositório Científico da Universidade Lusófona.
- Gesamtkatalog der Wiegendrucke, M30631.
- Universal Short Title Catalogue, edição 760516.
- Encyclopaedia Judaica, «Incunabula» (Jewish Virtual Library).
- José V. de Pina Martins, «De como identifiquei o Tratado de Confissom», Revista ICALP, n.º 15 (transcrição no blogue Arquivo Histórico da Madeira).
- Projecto Vercial (UTAD), Dicionário dos Primeiros Livros Impressos em Língua Portuguesa, «Tratado de Confissom».
- Biblioteca Nacional de Portugal: Tratado de confisom (Chaves, 1489); Perush ha-Torah, comentário de Nachmanides (Lisboa, 1489); folha do tratado Gitin do Talmude impresso em Faro (Biblioteca Nacional Digital, domínio público).
- Kestenbaum & Co., catálogo do leilão 26, lote 55, Targum Onkelos.
- Luís de Albuquerque, «Almanach perpetuum», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (FCSH, Universidade Nova de Lisboa).
- Público, «O caso da biblioteca que o conde inglês roubou ao bispo do Algarve».
- Peter Booker, «The Earl of Essex and the Bishop's Library», Algarve History Association.
- Postal do Algarve, «Pentateuco reeditado assinala 530 anos de imprensa em Portugal».
- RTP Ensina, «O Pentateuco, primeiro livro impresso em Portugal» e «A expulsão dos judeus de Portugal».
- Wikipedia, «História de Faro» e «Judeus em Portugal»; União de Freguesias de Faro, «Resenha histórica».
