Era noite fechada quando, numa tenda à luz de velas de cera, os embaixadores da China e da Rússia juraram a paz. O tratado estava em latim, e um dos dois tradutores do imperador da China era um jesuíta do Minho que lhe consertava os relógios.

Os embaixadores eram o príncipe manchu Songgotu e Fiódor Golovin, do czar. O jesuíta chamava-se Tomás Pereira e tinha sido batizado em São Martinho do Vale, hoje concelho de Vila Nova de Famalicão. O outro tradutor do imperador era um jesuíta francês, Jean-François Gerbillon. Nenhuma das duas delegações falava latim em casa. Os dois jesuítas não assinaram nada: eram os intérpretes e os conselheiros da delegação do imperador. É Pereira quem conta essa noite e quase tudo o que se segue, num diário que escreveu em 1690, de volta a Pequim: uma aposta de um cavalo contra um relógio, uma légua corrida a cavalo, um pão de açúcar da Madeira que os embaixadores do imperador furtaram para mostrar aos amigos. Antes do juramento, diz o diário, discutiu-se ainda qual dos dois soberanos vinha escrito primeiro.

Evocação pintada de Tomás Pereira, jesuíta batizado em São Martinho do Vale, no Minho, depois de correr a cavalo entre os dois acampamentos e chegar «quase sem fôlego», como escreve no diário. Figura genérica, não retrato.
FIG. 02Evocação pintada de Tomás Pereira, jesuíta batizado em São Martinho do Vale, no Minho, depois de correr a cavalo entre os dois acampamentos e chegar «quase sem fôlego», como escreve no diário. Figura genérica, não retrato.

Foi em Nerchinsk, na fronteira entre a Rússia e a China, no verão de 1689. Os dois embaixadores tinham chegado com grandes séquitos de soldados. O tratado pôs fim a anos de disputas pelo rio Amur e fixou a fronteira entre a Transbaicália russa e a Manchúria. Foi o primeiro tratado entre a China e a Rússia. Num estudo sobre os jesuítas diplomatas, Claudia von Collani vai mais longe e chama-lhe o primeiro da China com um Estado europeu. Escreveram-se três textos, em latim, em manchu e em russo, e o que valia era o latino, o único com os selos dos dois impérios. A negociação durou catorze dias.

Pormenor da Carte de Tartarie de Guillaume Delisle, impressa em Paris em 1706. Junto à planície de Bargu, a legenda diz que a terra ficou indecisa no Tratado de Nipchou, isto é, de Nerchinsk. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.)
FIG. 03Pormenor da Carte de Tartarie de Guillaume Delisle, impressa em Paris em 1706. Junto à planície de Bargu, a legenda diz que a terra ficou indecisa no Tratado de Nipchou, isto é, de Nerchinsk. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.)

O tratado manteve a paz naquela fronteira durante cerca de cento e setenta anos, escreve Ning Chia, num estudo sobre as línguas do tratado. O último artigo mandava gravá-lo em pedra, na fronteira, em várias línguas, entre elas o latim. Segundo os arquivos manchus, lidos por Kicengge num estudo de 2011, não se achou pedra que servisse, e em dezembro de 1691 Songgotu mandou dizer aos russos que os marcos ficavam suspensos; já o historiador Joseph Sebes escrevera, em 1961, que se tinham erguido em 1690. Se as palavras chegaram à pedra, as fontes não se entendem quanto a isso.

Evocação pintada do imperador Kangxi, a partir de um retrato da corte Qing, ao lado de Tomás Pereira ao órgão. Numa carta de 1680, Pereira conta que o imperador pegou no seu próprio instrumento e se juntou a ele, «ombro com ombro». Pereira: figura genérica, não retrato.
FIG. 04Evocação pintada do imperador Kangxi, a partir de um retrato da corte Qing, ao lado de Tomás Pereira ao órgão. Numa carta de 1680, Pereira conta que o imperador pegou no seu próprio instrumento e se juntou a ele, «ombro com ombro». Pereira: figura genérica, não retrato.

Em 1689, Pereira vivia em Pequim havia dezasseis anos. Batizado com o nome de Santos, tomara o de Tomás ao entrar na Companhia de Jesus, em Coimbra; partira para a Índia e estava em Macau quando o imperador Kangxi o mandou chamar. Ficou ao serviço da corte até morrer, em dezembro de 1708: trinta e seis anos sob o mesmo imperador.

Evocação pintada da aposta que, segundo o diário de Tomás Pereira, o embaixador Songgotu lhe propôs em Nerchinsk: um bom cavalo se a paz se fizesse, um relógio de rodas se não. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 05Evocação pintada da aposta que, segundo o diário de Tomás Pereira, o embaixador Songgotu lhe propôs em Nerchinsk: um bom cavalo se a paz se fizesse, um relógio de rodas se não. Figuras genéricas, não retratos.

Tinham-no chamado pela música e pelas mãos. Tocava órgão, construía órgãos e sinos, fazia e consertava relógios, e intitulava-se «artífice». Numa carta de 1680, recorda que, ao ouvir tocar o órgão e o cravo, o imperador pegou no seu próprio instrumento e se juntou a ele, «ombro com ombro».

Evocação pintada de Tomás Pereira a correr a cavalo a légua que separava os russos dos embaixadores do imperador, que esperavam nos montes, como conta no diário. Figura genérica, não retrato.
FIG. 06Evocação pintada de Tomás Pereira a correr a cavalo a légua que separava os russos dos embaixadores do imperador, que esperavam nos montes, como conta no diário. Figura genérica, não retrato.

Em Nerchinsk, cada lado levou os seus tradutores de latim: Pereira e Gerbillon pelo imperador, Andrei Bielobocki pelo czar. Golovin, desconfiado dos jesuítas, tentou a certa altura falar aos manchus em mongol. Os intérpretes de mongol dos dois lados eram tão fracos que se voltou ao latim quase de imediato. E os dois jesuítas não se ficaram pela tradução: iam apresentando propostas, ronda após ronda.

Pintura de um pão de açúcar da Madeira entre pratos de doces. No diário, Tomás Pereira conta que os embaixadores do imperador nunca tinham visto tal coisa e que cada um furtava o que podia. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 07Pintura de um pão de açúcar da Madeira entre pratos de doces. No diário, Tomás Pereira conta que os embaixadores do imperador nunca tinham visto tal coisa e que cada um furtava o que podia. Figuras genéricas, não retratos.

Pereira regista que, enquanto se esperava por uma resposta russa, Songgotu, o mais desconfiado dos embaixadores, lhe propôs uma aposta. Se a paz se fizesse, Songgotu dava-lhe um bom cavalo; se não se fizesse, Pereira perdia um relógio de rodas. Pereira respondeu que não tinha relógio nenhum. Songgotu cortou-lhe a desculpa: pagaria quando o tivesse. Ouviram a aposta mais de cem pessoas. Se o cavalo chegou, o diário não o diz.

Evocação pintada de Fiódor Golovin, embaixador do czar, a responder a sorrir a Tomás Pereira, que lhe pedia desculpa, segundo o diário: «Comeis o pão da China, vestis seus trajes…» Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 08Evocação pintada de Fiódor Golovin, embaixador do czar, a responder a sorrir a Tomás Pereira, que lhe pedia desculpa, segundo o diário: «Comeis o pão da China, vestis seus trajes…» Figuras genéricas, não retratos.

Pereira admite que levantou a voz mais de uma vez, e que depois se explicou aos embaixadores: «Senhores, eu quem sou? Sou homem estrangeiro.»

A última página do texto latino do tratado, na cópia do Arquivo de Política Externa da Rússia: o artigo que mandava gravar o tratado em pedras na fronteira, a data «Datum apud Nipchou» e o selo Qing, em manchu e chinês. (Fac-símile; domínio público, via Wikimedia Commons.)
FIG. 09A última página do texto latino do tratado, na cópia do Arquivo de Política Externa da Rússia: o artigo que mandava gravar o tratado em pedras na fronteira, a data «Datum apud Nipchou» e o selo Qing, em manchu e chinês. (Fac-símile; domínio público, via Wikimedia Commons.)

No último dia, segundo o diário, correu a cavalo a légua que separava os russos dos embaixadores do imperador, que esperavam nos montes, e voltou, e tornou a ir, até chegar «quase sem fôlego». O texto das condições de paz, acrescenta, teve de ser copiado três vezes, pelo erro de uma só letra.

Evocação pintada de um acampamento Qing num prado junto ao rio. Os dois embaixadores chegaram a Nerchinsk com grandes séquitos de soldados. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 10Evocação pintada de um acampamento Qing num prado junto ao rio. Os dois embaixadores chegaram a Nerchinsk com grandes séquitos de soldados. Figuras genéricas, não retratos.

Passava já das seis da tarde, anota Pereira, quando as delegações entraram na tenda. Leu-se uma cópia em voz alta enquanto se conferia a outra, e depois ao contrário. Assinaram, selaram e juraram à luz das velas. Vieram pratos de doces e, entre eles, escreve Pereira, «um pão de açúcar da Ilha da Madeira alvíssimo», coisa que os embaixadores do imperador nunca tinham visto. Cada um furtava o que podia, para mostrar aos amigos que tinham ficado no acampamento. O vinho acharam-no forte demais.

No dia seguinte, Golovin convidou os dois jesuítas à sua tenda, e Pereira pediu-lhe desculpa pelas vezes em que se irritara na presença dele. Golovin respondeu-lhe a sorrir, nas palavras que Pereira passou para o diário: «Comeis o pão da China, vestis seus trajes, deveis vestir também novo homem e obrar conforme.»

No relato de Pereira, antes das assinaturas, já dentro da tenda, discutiu-se ainda a ordem dos nomes. Os embaixadores do imperador queriam levar para Pequim a cópia latina feita em nome deles, com o imperador da China escrito primeiro. Alguém do lado deles, que o diário não nomeia, resolveu a discussão: ir o imperador escrito em primeiro lugar para o reino do czar era honra ainda maior; e, ainda que na cópia que eles levassem viesse primeiro o czar, «na nossa China quem não sabe que o nosso é o maior?»

Cada embaixada levou para casa a cópia em que vinha primeiro o outro soberano.

Fontes12 referências
  • Joseph Sebes, S.J., The Jesuits and the Sino-Russian Treaty of Nerchinsk (1689). The Diary of Thomas Pereira, S.J., Roma, Institutum Historicum S.I., 1961 (edição crítica do diário de Tomás Pereira, com o texto português original). Em archive.org (CC BY-NC-SA 4.0): archive.org
  • Claudia von Collani, «Jesuits as Diplomats in the Service of Chinese Emperors in Early Modern Times», Comillas Journal of International Relations 29 (2024). revistas.comillas.edu
  • Ning Chia, «Language Translation and the Treaty of Nerchinsk: Linguistic Aspects of Seventeenth-Century Qing-Russian Diplomacy», Journal of the European Association for Chinese Studies 6.2 (2025). doi.org
  • Qingfan Jiang, «Thomas Pereira's Lülü Zuanyao: A Jesuit Music Theory Textbook for the Chinese Emperor», Yale Journal of Music & Religion 10.2 (2024). doi.org
  • Cristina Costa Gomes e Isabel Murta Pina, «Making Clocks and Musical Instruments: Tomás Pereira as an Artisan at the Court of Kangxi», Revista de Cultura 51 (2016). icm.gov.mo
  • Wang Bing, «The Inscriptions on Tomás Pereira's Tombstone and the 'Edict of Toleration' from the Emperor Kangxi», Review of Culture 32 (2009). edocs.icm.gov.mo
  • Kicengge (Chengzhi), «A ilusão do marco de fronteira do Tratado de Nerchinsk: o mapa manchu da bacia do Amur» (em chinês), The National Palace Museum Research Quarterly 29.1 (2011). npm.gov.tw
  • Tianshu Liu, There is a border in the North: Revisiting the eastern section of Sino-Russian border and the making of modern China, tese de doutoramento, Universidade de Manchester, 2024. pure.manchester.ac.uk
  • «Tomás Pereira», Dicionário de Orientalistas de Língua Portuguesa, Biblioteca Nacional de Portugal. orientalistasdelinguaportuguesa.bnportugal.gov.pt
  • «"利瑪竇和外國傳教士墓地"恢復重建三十六年 (1979-2015)», Revista de Cultura. icm.gov.mo
  • «Embaixada de Portugal na China organiza segunda edição dos Prémios Tomás Pereira», Diário do Povo, edição portuguesa, 2 de novembro de 2016. portuguese.people.com.cn
  • Guillaume Delisle, Carte de Tartarie, Paris, 1706, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt