Durante mais de quatro séculos, o Templo de Diana, em Évora, foi o talho da cidade.

Em janeiro de 1384, no relato do cronista Fernão Lopes, já é o açougue, a palavra do tempo para o talho. Continuou a sê-lo até 1836, com as colunas metidas dentro de paredes grossas, rematadas por ameias, como uma torre.

Foram as paredes do talho que o salvaram.

Quem o deixou escrito foi o homem que, em 1869, propôs à Câmara deitá-las abaixo.

Evocação pintada de um trabalhador com o dedo de mármore branco que apareceu nas escavações feitas por volta de 1840 em redor do templo. A estátua a que pertencera teria mais de quatro metros, escreveu Augusto Filipe Simões, que dirigiu a Biblioteca Pública de Évora. Figura genérica de época, não retrato.
FIG. 02Evocação pintada de um trabalhador com o dedo de mármore branco que apareceu nas escavações feitas por volta de 1840 em redor do templo. A estátua a que pertencera teria mais de quatro metros, escreveu Augusto Filipe Simões, que dirigiu a Biblioteca Pública de Évora. Figura genérica de época, não retrato.

O que hoje se vê no alto de Évora foi feito por várias mãos. O templo é romano, do século I. O nome deu-lho, no fim do século XVII, um padre jesuíta, a partir de uma história com uma cerva. E a ruína, tal como se fotografa, compô-la em 1871 um cenógrafo de teatro.

Está no ponto mais alto da cidade, onde era o fórum da Ebora romana. Restam de pé catorze colunas e a base de outra, sobre um pódio com mais de três metros de altura. Os arqueólogos alemães Theodor Hauschild e Felix Teichner, que escavaram o templo e o fórum, concluíram que foi construído para o culto imperial, e chamam-lhe «um dos mais grandiosos e mais bem preservados templos romanos de toda a Península Ibérica».

No fim da Antiguidade, deitaram-no meio abaixo: o frontão, o entablamento, mais de metade das colunas. Sobre quem foi, e quando, as fontes não dizem o mesmo: umas apontam as invasões do século V, outras a demolição de templos pagãos no fim do século IV. «Quem quer que eles fossem», escreveu no século XIX Augusto Filipe Simões, diretor da Biblioteca Pública de Évora.

Evocação pintada de janeiro de 1384. Na revolta contra o alcaide que guardava o castelo de Évora em nome da rainha D. Leonor, conta o cronista Fernão Lopes, a gente da cidade subiu à Sé e ao açougue, «que som logares altos», e de lá disparou virotões para dentro do castelo. Figuras genéricas de época.
FIG. 03Evocação pintada de janeiro de 1384. Na revolta contra o alcaide que guardava o castelo de Évora em nome da rainha D. Leonor, conta o cronista Fernão Lopes, a gente da cidade subiu à Sé e ao açougue, «que som logares altos», e de lá disparou virotões para dentro do castelo. Figuras genéricas de época.

Nas escavações feitas por volta de 1840 em redor do templo apareceu um dedo de mármore branco. A estátua a que pertencera teria mais de quatro metros, escreveu Simões. Num fragmento do altar, contou também, viam-se ainda as marcas das cunhas de ferro com que fizeram saltar a inscrição. Ficaram as letras SAC.

Na Idade Média, levantaram-se essas paredes na borda do pódio, a fechar os intervalos entre as colunas, e a torre ficou ligada ao castelo. Lá dentro vendia-se carne.

Em janeiro de 1384, na crise que se seguiu à morte de D. Fernando, a gente de Évora levantou-se contra o alcaide que guardava o castelo em nome da rainha D. Leonor. Para o combater, conta o cronista Fernão Lopes, subiram «em cima da Sé, e isso mesmo do açougue, que som logares altos», e de lá dispararam muitos virotões para dentro do castelo.

Evocação pintada do episódio da cerva branca, contado por Plutarco na «Vida de Sertório»: um homem do campo apanha uma cerva acabada de nascer, toda branca, enquanto a mãe foge, e oferece-a a Sertório, que passa a dizer que o animal é um dom de Diana. Plutarco não fala de Évora; foi o jesuíta Manuel Fialho, no fim do século XVII, quem deu ao templo o nome de Diana, por causa de uma cerva. Figura genérica, não retrato.
FIG. 04Evocação pintada do episódio da cerva branca, contado por Plutarco na «Vida de Sertório»: um homem do campo apanha uma cerva acabada de nascer, toda branca, enquanto a mãe foge, e oferece-a a Sertório, que passa a dizer que o animal é um dom de Diana. Plutarco não fala de Évora; foi o jesuíta Manuel Fialho, no fim do século XVII, quem deu ao templo o nome de Diana, por causa de uma cerva. Figura genérica, não retrato.

No século XVI, o humanista André de Resende foi o primeiro a apontar a origem romana de Évora, e quis lá pôr Sertório, o romano que combateu Roma na Hispânia. A única prova da passagem de Sertório pela cidade era uma lápide com o seu nome. Fê-la o próprio Resende, que forjou várias inscrições romanas para dar à cidade uma antiguidade ilustre. Nem tudo o que só ele atesta é falso, avisa José d'Encarnação, que as estudou.

Mas nem Resende nem os autores que vieram depois dele lhe chamaram templo. Isso só aparece no fim do século XVII, na «Évora Ilustrada», do padre jesuíta Manuel Fialho. Fialho fez do templo obra de Sertório e deu-o a Diana por causa de uma cerva: um lusitano chamado Hispano oferecera-a a Sertório, que a amansou e a fez passar por enviada da deusa.

A história vem de Plutarco. Na «Vida de Sertório», um homem do campo chamado Spanus apanha uma cerva acabada de nascer, toda branca, e oferece-a a Sertório, que passa a dizer que o animal é um dom de Diana e lhe revela coisas escondidas. Plutarco não fala de Évora.

O templo ainda metido nas paredes medievais, com as ameias, o campanário e uma porta em arco quebrado entre as colunas. Gravura do «Archivo Pittoresco», anos sessenta do século XIX (domínio público, Wikimedia Commons).
FIG. 05O templo ainda metido nas paredes medievais, com as ameias, o campanário e uma porta em arco quebrado entre as colunas. Gravura do «Archivo Pittoresco», anos sessenta do século XIX (domínio público, Wikimedia Commons).

A obra de Fialho ficou manuscrita. Chegou ao prelo em 1728, em Roma, no resumo que dela fez Francisco da Fonseca. E no Templo de Diana continuou a vender-se carne.

Em 1836, o governador civil do distrito, António José de Ávila, mandou acabar com o açougue, fechar as portas e entregar as chaves à Câmara. O nome ficou. Em 1863, as ruas ao lado já se chamavam Oriental e Ocidental de Diana, e o jardim em frente, Passeio de Diana.

Nesse ano já tinha desabado parte do telhado, e as paredes medievais tinham grandes fendas. Em 1869, Simões expôs à Câmara, num relatório impresso, as duas saídas que via: consertar as paredes, ou deitá-las abaixo e deixar só o que fosse romano. Propôs a segunda. Consertá-las, escreveu, custaria mais e «perpetuaria um barbarismo».

Evocação pintada de 17 de junho de 1870. Segundo o relato de quem assistiu, encostaram-se escadas ao edifício, subiram o presidente da Câmara e o arquiteto e cenógrafo Giuseppe Cinatti, e a primeira coisa a cair foi uma ameia. As paredes medievais saíram em 1871. A arquitetura segue a gravura do «Archivo Pittoresco»; as figuras são genéricas, não retratos.
FIG. 06Evocação pintada de 17 de junho de 1870. Segundo o relato de quem assistiu, encostaram-se escadas ao edifício, subiram o presidente da Câmara e o arquiteto e cenógrafo Giuseppe Cinatti, e a primeira coisa a cair foi uma ameia. As paredes medievais saíram em 1871. A arquitetura segue a gravura do «Archivo Pittoresco»; as figuras são genéricas, não retratos.

Em Évora havia três opiniões. Uns achavam que as ruínas eram uma velharia sem proveito, que se devia deixar cair. Outros queriam guardar também as paredes medievais. E havia os que queriam o templo sem elas.

A Câmara, presidida por Manuel de Paula da Rocha Viana, consultou vários homens tidos por competentes, entre eles o abade de Castro e o visconde de Juromenha, e as respostas foram a favor da demolição. Alexandre Herculano foi a Évora e deu parecer favorável de viva voz. Décadas antes, Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, o antecessor de Simões na Biblioteca, quisera restaurar o templo guardando parte das paredes. Não o conseguiu.

Simões pedira também parecer a Giuseppe Cinatti. Nascido em Siena, arquiteto e cenógrafo de teatro radicado em Lisboa, Cinatti trabalhava em Évora desde 1858 e desenhara o Passeio Público da cidade, com as suas «ruínas fingidas», montadas à volta de uma torre do século XIV e com janelas do século XVI retiradas de um palácio. Examinou o templo e concluiu «que se deveria demolir tudo o que não fosse romano».

O templo depois de 1871, já sem as paredes medievais, numa gravura publicada em «O Occidente» a 21 de agosto de 1890, desenhada por Luciano Freire e José Augusto de Oliveira a partir de uma fotografia de M. Nicolau da Costa (domínio público; Hemeroteca Municipal de Lisboa, via Wikimedia Commons).
FIG. 07O templo depois de 1871, já sem as paredes medievais, numa gravura publicada em «O Occidente» a 21 de agosto de 1890, desenhada por Luciano Freire e José Augusto de Oliveira a partir de uma fotografia de M. Nicolau da Costa (domínio público; Hemeroteca Municipal de Lisboa, via Wikimedia Commons).

Conta quem lá estava que a 17 de junho de 1870 se encostaram escadas ao edifício. Subiram o presidente da Câmara e Cinatti. O presidente deu ao artista um martelo de demolição, e a primeira coisa a cair foi uma ameia.

A Câmara mandou tirar as paredes em 1871, com Cinatti a dirigir a obra, e não se reconstruiu nada. Ao ver as colunas recortadas no céu, muitos mudaram de opinião, escreveu Simões. Outros não. Em 1872, a vereação seguinte ainda lamentava, num documento oficial, as obras que tinham «desmantelado o templo de Diana».

Sem as paredes, o templo ficou exposto ao vento, à água e aos sismos. Em 2017 caiu de um dos capitéis uma pedra de quase vinte quilos, e fez-se a primeira intervenção de conservação desde o século XIX. No ano seguinte, um técnico da Direção Regional de Cultura dizia que o templo «será muito mais resistente do que à partida se poderia supor».

Pintura do templo romano de Évora, do século I, a partir de uma fotografia de Benoît Prieur (CC0, Wikimedia Commons). Desde que as paredes medievais saíram, em 1871, as colunas recortam-se no céu. Duas delas perderam os capitéis.
FIG. 08Pintura do templo romano de Évora, do século I, a partir de uma fotografia de Benoît Prieur (CC0, Wikimedia Commons). Desde que as paredes medievais saíram, em 1871, as colunas recortam-se no céu. Duas delas perderam os capitéis.

O mesmo Simões escreveu que à reconstrução medieval, «posto que incongruente, se deve o ter-se conservado a parte restante do templo».

A monografia de Hauschild e Teichner, de 2017, escreve que as obras do século XIX removeram os muros «de forma exemplar» e «sem reconstruir a estrutura original». Um estudo de 2007 diz que o templo foi «recriado enquanto ruína».

O templo é do século I. O céu entre as colunas é de 1871.

Fontes10 referências
  • Augusto Filippe Simões, «O templo romano de Evora», em Escriptos diversos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1888. Descrição do monumento, a atribuição a Diana, o açougue em Fernão Lopes, a proposta de 1869, a consulta e a obra de 1871. archive.org
  • Fernão Lopes, Crónica de D. João I, parte I, capítulo XLIV, edição da Imprensa Nacional. A tomada do castelo de Évora em janeiro de 1384. imprensanacional.pt
  • Plutarco, Vida de Sertório, 11, na tradução inglesa de Bernadotte Perrin (Loeb Classical Library), LacusCurtius. A cerva branca. penelope.uchicago.edu
  • María Cátedra, «La reconstrucción de una ciudad: la restauración del Templo de Diana de Évora», Revista de Antropología Social, 20, 2011, pp. 309-328. O relato de António Francisco Barata, Fialho e Fonseca, o texto de 1836, as posições de Rivara, Simões e Herculano, a classificação de 1880. doi.org
  • Daniel V. Oliveira e outros, «Seismic analysis of the Roman Temple of Évora, Portugal», 15.ª World Conference on Earthquake Engineering, Lisboa, 2012, Universidade do Minho. As colunas, o pódio, os materiais, os canais de água e a porta da torre. repositorium.uminho.pt
  • Joana Cunha Leal, «Giuseppe Cinatti: pequeno roteiro de grandes obras», 2017. A vida de Cinatti, as ruínas fingidas do Passeio Público, o restauro de 1871. doi.org
  • José d'Encarnação, «Da invenção de inscrições romanas, ontem e hoje», Revista Portuguesa de Arqueologia, 12 (1), 2009, pp. 127-138. André de Resende e as inscrições forjadas. dialnet.unirioja.es
  • Câmara Municipal de Évora, «Templo Romano», página de arqueologia, no Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Público, «Afinal, o templo de Diana era dedicado ao imperador Augusto», 26 de junho de 2018. As conclusões da monografia de Theodor Hauschild e Felix Teichner, Der römische Tempel in Évora (Instituto Arqueológico Alemão, 2017), e a intervenção de 2017. publico.pt
  • RTP, com a Lusa, «Obras revelam construção "notável" do Templo Romano de Évora», 26 de junho de 2018; Observador, com a Lusa, «Templo Romano de Évora em risco de queda de pedras», 14 de agosto de 2017. rtp.pt observador.pt