Dante, no tratado Monarchia, cita Séneca: a lei é «o vínculo da sociedade humana». Só que o livro de onde tirou a frase não era de Séneca. Escreveu-o São Martinho de Dume, bispo de Braga, para um rei suevo, e a Europa leu-o durante séculos com o nome do filósofo romano.
Numa casa de Castelfranco Veneto, em Itália, corre um friso pintado nos primeiros anos do século XVI e atribuído a Giorgione. Entre instrumentos e objetos das artes, há sentenças em latim. Uma delas vem do mesmo livro: «Si prudens esse cupis, in futura prospectum intende.» Se queres ser prudente, olha para o que há de vir.

O livro chama-se Formula vitae honestae, a regra de uma vida honesta, e abria com uma carta: «Martinus humilis episcopus», Martinho, humilde bispo, ao rei Miro. Foi escrito entre 570 e 579, os anos em que Miro reinou. Foi copiado, traduzido, impresso e citado como se fosse de Séneca. Sobrevivem centenas de manuscritos: perto de setecentos, segundo István Bejczy e Michele Colombo, dois dos estudiosos que os contaram. De edições impressas, Laura Ranero regista mais de cem.

Como é que um livro perde o autor? E houve quem desse por isso?

Martinho nasceu na Panónia, foi ao Oriente visitar os lugares santos e chegou à Galécia por mar. Gregório de Tours, que escrevia na Gália no tempo de Martinho, conta a chegada como um milagre. Os enviados do rei suevo tinham ido a Tours buscar relíquias de São Martinho: pesaram um pano de seda, deixaram-no sobre o túmulo do santo e, de manhã, diz Gregório, pesava mais. E Martinho, o da Panónia, desembarcou no mesmo dia que as relíquias. Do homem, Gregório diz que «não era segundo de ninguém» no saber do seu tempo. Martinho compôs o próprio epitáfio. Nele, chama-se servo do outro Martinho, o de Tours: igual no nome, não no mérito.

Em meados da década de 550 era bispo de Dume, um mosteiro junto de Braga; em 572 já assinava como bispo da própria cidade e presidia a um concílio de doze bispos. Da igreja de Dume, escavada a partir de 1987, conhece-se hoje a planta: uma cruz com cerca de trinta e três metros de comprido. As ruínas podem visitar-se.

É dele também um sermão para os camponeses da Galécia, o De correctione rusticorum, e é a esse sermão que diversos autores foram buscar a ideia de que teria dado aos dias da semana os nomes portugueses. O que o sermão diz é outra coisa. Condena quem chama aos dias «de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus e de Saturno», nomes daqueles que, escreve, «não fizeram dia nenhum». Não diz como lhes chamar. A ideia de que a segunda-feira é obra dele aparece impressa pelo menos desde 1938, e então como hipótese; muito antes, em 1767, um compêndio de ortografia impresso em Lisboa atribuía o costume ao papa Silvestre. Contar os dias por férias, do latim feria, de onde vem a nossa «feira», já era uso da Igreja: Santo Agostinho pedia-o, e em Chaves o bispo Hidácio datava os eclipses da sua crónica por férias cerca de um século antes de Martinho.

O livro das virtudes, esse, é de Martinho. Trata de quatro: a prudência, a magnanimidade, a continência e a justiça. A partir do século XII, os copistas deixaram cair a carta a Miro, e era nela que estavam o nome do autor, o título e o rei. Sem ela, o livro passou a correr anónimo, com um título que só dizia o assunto: Das quatro virtudes. O nome que se lhe juntou foi o de Séneca. Já no século X, o catálogo da biblioteca de Santo Emerano, em Ratisbona, registava como «livro de Séneca» sobre as quatro virtudes um manuscrito que não trazia nome de autor.

Percebe-se porque pegou. Martinho lia Séneca e ia buscar-lhe ideias. Um outro escrito seu, sobre a ira, abre quase palavra por palavra como o de Séneca, e sem o nomear. Terá a Formula resumido alguma obra de Séneca que se perdeu? Laura Ranero, que a editou, diz que não se pode provar nem desmentir.

E o livro andou. Entre o século XIII e o XVI, traduziram-no para italiano, francês, castelhano, neerlandês, alemão, inglês e polaco. Imprimiu-se pela primeira vez em Veneza, por volta de 1470.
Houve quem desse pela troca. Petrarca escreveu, numa das suas cartas, que toda a gente lia com avidez aquele livrinho e o metia entre os de Séneca, louvando Séneca naquilo que Séneca nunca viu. E disse de quem era: de «um certo Martinho, bispo», para «um certo rei Miro». Foi, ao que se sabe, o primeiro a dizê-lo. Em geral, ninguém lhe fez caso. Erasmo, ao editar Séneca, escreveu em 1529 que o livro, «sem controvérsia», não era de Séneca: cheirava a cristianismo. Não disse de quem era.
Só no século XVI os impressores lhe devolveram o nome de Martinho, e nem todos. Em Londres, a 21 de julho de 1546, William Middleton imprimiu a tradução de Robert Whittington com este título: «A frutefull worke of Lucius Anneus Seneca», uma obra proveitosa de Lúcio Aneu Séneca. O texto começa sem a carta a Miro. No fim, o cólofon ainda dá ao livro o nome que Martinho lhe pôs: Formula honestae vitae.
Volte-se a Dante. A frase que atribuiu a Séneca, a lei como vínculo da sociedade humana, está no livro de Martinho; e é, para o estudioso Sławomir Wyszomirski, a passagem menos senequiana do tratado, e a mais cristã. Nessa linha, o Séneca que Dante citava era o bispo de Braga.
Na carta a Miro, a página que os copistas deixaram cair, Martinho explicava para quem escrevia. Não escrevera o livro especialmente para o rei, a quem reconhecia sabedoria natural, mas para os que o serviam. E não ensinava as coisas árduas, que só poucos servos de Deus cumprem, mas o que também os leigos de vida reta podiam cumprir. O livro chegou a Dante, a uma parede em Castelfranco, ao homem que o pôs em inglês. Chegou sem a carta, e fez o que a carta dizia.
Fontes34 referências
- Martinho de Dume, Formula vitae honestae, ed. Laura Ranero Riestra, trad. Xosé Antonio López Silva, em Como levar unha vida honesta, Consello da Cultura Galega, 2023. gredos.usal.es
- Laura Ranero Riestra, «A Formula vitae honestae», no mesmo volume. gredos.usal.es
- Laura Ranero Riestra, «Una aproximación a la recepción impresa del De quattuor uirtutibus de Pseudo Séneca». gredos.usal.es
- Laura Ranero Riestra, «El camino hacia el modelo textual del Libro de las cuatro virtudes de Alfonso de Cartagena», RELat 21 (2021). dialnet.unirioja.es
- Sławomir Wyszomirski, «Formula vitae honestae Marcina z Bragi i "zaginione" pismo Seneki De quattuor virtutibus», Symbolae Philologorum Posnaniensium XXII/2 (2012). repozytorium.amu.edu.pl
- István P. Bejczy, «De Formula vitae honestae in het Middelnederlands», Ons Geestelijk Erf 78 (2004). hdl.handle.net
- Michele Colombo, I volgarizzamenti toscani della Formula vitae honestae di Martino di Braga, tese de doutoramento, Siena e Salamanca. gredos.usal.es
- Dante, Monarchia II.v.3, ed. Prue Shaw, Società Dantesca Italiana. danteonline.it
- Paget Toynbee, A Dictionary of Proper Names and Notable Matters in the Works of Dante, «Quatuor Virtutibus Cardinalibus, De». dante.princeton.edu
- A frutefull worke of Lucius Anneus Seneca…, Londres, William Middleton, 1546, trad. Robert Whittington (EEBO-TCP A07098). raw.githubusercontent.com
- Glasgow Incunabula Project, M20. gla.ac.uk
- Gregório de Tours, Historia Francorum V.37. thelatinlibrary.com
- Gregório de Tours, De virtutibus sancti Martini I.11. la.wikisource.org
- Isidoro de Sevilha, De viris illustribus. la.wikisource.org)
- C. W. Barlow, Martini Episcopi Bracarensis Opera Omnia (1950): testemunhos, poemas e De ira, na Bibliotheca Augustana. www2.hs-augsburg.de
- Concílios de Braga I e II. thelatinlibrary.com · thelatinlibrary.com
- Martinho de Dume, De correctione rusticorum. la.wikisource.org
- The Cult of Saints in Late Antiquity, E02847, Universidade de Oxford. csla.history.ox.ac.uk
- Luís Fontes, A basílica sueva de Dume e o túmulo dito de São Martinho, Braga, 2006. hdl.handle.net
- Luís Fontes, «A Igreja Sueva de São Martinho de Dume», Revista de História da Arte 6 (2008). hdl.handle.net
- Luís Fontes, «São Martinho de Dume: Arqueologia, arquiteturas e paisagens», Urbs Regia 3 (2018). dialnet.unirioja.es
- Mário Jorge Barroca, «Braga (São Jerónimo de Real): Cenotáfio de São Martinho de Dume», Enciclopédia do Românico em Portugal, 2023. repositorio-aberto.up.pt
- Arquidiocese de Braga, «A trasladação de S. Martinho de Dume», 27 de outubro de 2025, e «Padroeiros». arquidiocese-braga.pt · arquidiocese-braga.pt
- Núcleo Museológico de São Martinho de Dume, Visit Braga. visitbraga.travel
- Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos 93. augustinus.it
- Hidácio, Chronicon. thelatinlibrary.com
- Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), vol. I, Lisboa, 2000, pp. 233 a 235. archive.org
- Bellino, Archeologia christã, 1900. archive.org
- João Pedro Ribeiro, Dissertações chronologicas e criticas, tomo II, Lisboa, 1811. archive.org
- José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. III, Lisboa, 1913. archive.org
- Stephen McKenna, Paganism and Pagan Survivals in Spain up to the Fall of the Visigothic Kingdom, Washington, 1938. archive.org
- Luís do Monte Carmelo, Compendio de orthografia, Lisboa, 1767, p. 492, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
- G. de Vasconcellos-Abreu, Noções elementares de geographia geral, 1888, p. 131, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
- Instituto da Lingua Galega, «Trastes vellos ao faiado», Lingua Viva, 2026, e Dicionario de Dicionarios do Galego Medieval. ilg.usc.gal · ilg.usc.gal