Conta-se em Monção que, com a vila cercada e a fome já dentro das muralhas, uma mulher mandou cozer a última farinha que havia e atirou os pães, ainda quentes, ao exército inimigo lá fora.
Não se conhece documento que o prove. O brasão da vila mostra-o há mais de trezentos anos.

A lenda de Deu-la-Deu Martins
Era o tempo das guerras de D. Fernando com Henrique de Castela, na segunda metade do século XIV. A tradição diz que o capitão-mor da vila, Vasco Gomes de Abreu, andava fora, ao serviço do rei, e que o adiantado da Galiza, Pedro Rodrigues Sarmento, aproveitou a ausência para cercar Monção com um exército poderoso. A vila aguentou. Aguentou até a farinha acabar. Foi então que Deu-la-Deu Martins, mulher do capitão-mor, mandou juntar o que restava nos celeiros, cozer os últimos pães, e subiu com eles à muralha. A frase que a tradição lhe põe na boca fixou-se assim: «A vós, que não podendo conquistar-nos pela força das armas, nos haveis querido render pela fome, nós, mais humanos e porque, graças a Deus, nos achamos bem providos, vendo que não estais fartos, vos enviamos esse socorro e vos daremos mais, se pedirdes!»

Os sitiantes também tinham fome. Olharam para aquele desperdício de pão fresco, acreditaram na fartura, levantaram o cerco e foram-se embora. Ninguém morre nesta história: o exército vai para casa, e é tudo. Já vimos aqui o Minho acabar uma guerra num torneio, no vale do Vez. Esta acabou com pão quente.

O que aconteceu naquela muralha, se aconteceu, não se pode verificar. O que se pode verificar é o que Monção fez com a história. Desenhou-a. Escreveu-lhe a frase à volta. Fê-la oficial. E é esse rasto, o rasto do desenho, que se consegue seguir, papel a papel, até hoje.

O brasão de Monção: um rasto de papel desde 1675
Em 1706, quando o padre António Carvalho da Costa chegou a Monção na sua Corografia Portugueza, a história já lá estava inteira. O cerco, a falta de mantimentos, uma nobre senhora chamada Deu la Deu Martins que se resolveu, «como outra Judith», a livrar a terra dos inimigos. Os pães lançados da muralha, o cerco levantado. E as armas da vila: uma mulher sobre os muros, com dois pães, e a frase à volta. A Corografia acrescenta dois pormenores: que dela descendiam «os melhores daquela ribeira», e que os moradores, em gratidão, lhe levantaram estátua. Ninguém sabe hoje onde essa estátua parou, nem se chegou a existir. Segundo o município, o desenho é ainda mais velho: o brasão com a mulher dos pães figura no Livro dos Brasões das Cidades e Vilas, datado de 1675. Quando a lenda entrou nos livros, já estava nas armas.

O século XIX pegou nela e fez dela uma instituição. Em 1860, Inácio de Vilhena Barbosa publicou a versão que ainda hoje se conta, palavra por palavra, com o discurso da muralha já fixado. E registou mais: a câmara mandara pintar o retrato dela na própria bandeira. E contam os autores oitocentistas que, durante muito tempo, a lista dos vereadores de cada ano era aberta e lida junto da sepultura dela, na Igreja Matriz. A vila não se limitava a contar a história. Tomava posse diante dela. Em 1869, diz a Câmara, o brasão foi colocado no centro da base da estátua do chafariz, no Largo do Loreto. E quando José Augusto Vieira publicou O Minho Pittoresco, em 1886, a praça já tinha o nome dela. Mostrava-se a casa «onde a tradição diz ter habitado», em ruína, com uma janela desenhada do natural por João de Almeida. E o túmulo, numa capela da Matriz. Praça, casa, campa, bandeira: a heroína tinha tudo.

O que os documentos não dizem
Falta-lhe uma coisa: um documento do seu século.
O sitiante existiu. A crónica de Fernão Lopes trata Pedro Rodrigues Sarmento pelo cargo, adiantado da Galiza, conta as suas campanhas no Minho e senta-o à mesa das negociações de paz entre os dois reis. A guerra existiu, e a crónica narra-a ano a ano. Mas nunca escreve o nome de Monção. E pesquisámos trinta e nove obras de recolhas de tradições populares, com a Revista Lusitana inteira lá dentro: o nome dela aparece uma vez, numa nota de filologia; o pão atirado da muralha, contado pelo povo, nunca. O rasto que se encontra é outro: brasões, corografias, papéis de câmara. E os papéis que lhe dão marido dão-lhe um marido incómodo: segundo os nobiliários, Vasco Gomes de Abreu tomou o partido de D. Leonor Teles na crise de 1383-85, teve os bens confiscados por cartas régias de D. João I e terá acabado a vida em Castela. A versão impressa mais antiga que encontrámos não tem esse problema: nem sequer lhe dá marido.
A Danaide, o chafariz e a estátua de Cutileiro
Talvez por isso a vila nunca tenha deixado de lhe procurar um corpo. A estátua do chafariz oitocentista, a que toda a gente chama Deu-la-Deu, está catalogada na Infopédia como «Chafariz de Danaíde»: segundo a imprensa local, a base tem gravada a palavra «Danaide», o nome de uma figura da mitologia grega. Mais abaixo, no mesmo pilar, está o brasão. Esse, sim, é ela. Sempre foi. Em 2008, a vila inaugurou finalmente uma estátua sua, de João Cutileiro, que a deixou debruçada sobre o rio Minho, no miradouro dos Néris, virada para a margem de onde a lenda diz que veio o exército.
Deuladeu: o nome que já era a divisa
E em 1933 a Revista Lusitana explicou uma coisa que muda a maneira como se olha para o brasão. Deuladeu não é alcunha, nem invenção de contador de histórias: é um nome de batismo medieval verdadeiro, da mesma família do latino Deusdedit. Quer dizer «Deus a deu». O nome da heroína e a divisa das armas são a mesma frase.
Em 1972, a tradição foi a despacho. Parecer da Comissão de Heráldica e Genealogia, portaria de 17 de junho, publicação no Diário do Governo: o Estado fixou, em linguagem de lei, «uma figura de mulher nascente, de carnação, vestida de ouro (…) suportando nas mãos dois pães de ouro», e à volta, em maiúsculas, «DEUS O DEU DEUS O HÁ DADO». Hoje a praça de Monção é dela, a escola da vila é dela, e a Adega de Monção pôs-lhe o nome num dos seus alvarinhos. E a página da Câmara que conta a sua história arquiva-a, com toda a honestidade, na secção «Lendas, Mitos e Histórias». Vem selada, como os papéis da vila, com a mulher dos dois pães.
O pão não se prova. Assina-se.