A arquidiocese de Braga tinha mais de mil paróquias, espalhadas por serras e vales.

O arcebispo foi vê-las. Uma a uma. E quando chegou ao fim, voltou ao princípio.

Andou nisto mais de vinte anos, até perto dos setenta. Dividiu o território em três comarcas e organizou o percurso de maneira a passar por todas as freguesias aproximadamente de três em três anos: um ciclo completo, e a seguir outro, e a seguir outro.

A visitação diocesana: mais de mil paróquias, espalhadas pelas serras do Minho, percorridas uma a uma e recomeçadas de três em três anos.
FIG. 02A visitação diocesana: mais de mil paróquias, espalhadas pelas serras do Minho, percorridas uma a uma e recomeçadas de três em três anos.

Mil paróquias, no século XVI, significam caminhos de terra, rios sem ponte, invernos e uma povoação de cada vez.

Não mandou vê-las. Foi.

O terceiro e último período do Concílio de Trento, onde entregou por escrito mais de duzentas propostas de reforma.
FIG. 03O terceiro e último período do Concílio de Trento, onde entregou por escrito mais de duzentas propostas de reforma.

Quem foi São Bartolomeu dos Mártires

Chamava-se Bartolomeu Fernandes, nasceu em Lisboa em 1514 e entrou para os dominicanos em 1528, aos catorze anos; desde então assinou Frei Bartolomeu dos Mártires. Em 1559 foi consagrado arcebispo de Braga. Dois anos depois, partiu para o outro lado da Europa.

O arcebispo de Braga no Concílio de Trento

Saiu de Braga a 24 de março de 1561 e só chegou a Trento a 18 de maio: quase dois meses de caminho para ir à assembleia. O Concílio ia no terceiro e último período, e terminaria em 1563. Sentou-se numa assembleia que discutia, em latim e ao mais alto nível, como se havia de reformar a Igreja inteira. Podia ter falado e ido embora. Em vez disso entregou uma lista escrita, ponto por ponto: mais de duzentas propostas de reforma, as Petições. E uma delas não olhava para baixo, para as paróquias do fim do mundo. Olhava para cima.

As *Petições*: a lista manuscrita onde pedia, entre muito mais, que os cardeais tivessem um rendimento fixo e igual do património de São Pedro e que residissem em Roma.
FIG. 04As *Petições*: a lista manuscrita onde pedia, entre muito mais, que os cardeais tivessem um rendimento fixo e igual do património de São Pedro e que residissem em Roma.

Sobre os cardeais, pedia três coisas. Que cada um tivesse um rendimento fixo e igual, retirado do património de São Pedro. Que residissem em Roma, isto é, no lugar onde tinham o ofício. E que se escolhessem, para o cargo, os melhores de cada nação, em vez de se perpetuar o nepotismo.

A frase sobre os cardeais: o que está documentado

Há uma frase célebre que se cola sempre a este episódio: a de que os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisavam de uma ilustríssima e reverendíssima reforma. A frase chega-nos pelo seu biógrafo, Frei Luís de Sousa, numa vida publicada em 1619, quase trinta anos depois da sua morte. No estudo moderno das Petições, feito documento a documento, não aparece entre as suas intervenções. O que aparece é mais seco e, à sua maneira, mais pesado: um homem a escrever, por extenso, quanto devia ganhar um cardeal e onde devia dormir.

Onde não havia quem pregasse, mandou que o pároco lesse: o catecismo em português, impresso em Lisboa em 1566. Quem lê aqui é um pároco, não o arcebispo.
FIG. 05Onde não havia quem pregasse, mandou que o pároco lesse: o catecismo em português, impresso em Lisboa em 1566. Quem lê aqui é um pároco, não o arcebispo.

Mil paróquias visitadas uma a uma

Depois voltou para Braga.

Ele próprio pôs no papel a razão daquele itinerário: entre os cuidados de um bispo, escreveu, a visita tem o lugar principal, e é como que a alma do governo episcopal.

A igreja do convento de Santa Cruz, hoje igreja de São Domingos, em Viana do Castelo, que ele fundara em 1560 e para onde se retirou. Morreu aqui a 16 de julho de 1590.
FIG. 06A igreja do convento de Santa Cruz, hoje igreja de São Domingos, em Viana do Castelo, que ele fundara em 1560 e para onde se retirou. Morreu aqui a 16 de julho de 1590.

Restava o problema das paróquias onde não podia estar. Numa diocese daquele tamanho havia lugares sem pregação, simplesmente porque não havia quem pregasse. A solução foi um livro: escreveu um catecismo em português, o Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais, impresso em Lisboa em 1566, com a matéria de um lado e, do outro, práticas para serem lidas em voz alta aos domingos e dias de festa. Por provisão de 3 de novembro de 1564, mandou que os párocos e capelães o lessem.

Onde não houvesse quem soubesse falar, alguém abriria o livro e leria.

Deixou perto de trinta títulos. Um deles, o Stimulus Pastorum, é um tratado sobre aquilo que um bispo deve ao cargo que ocupa. Ele tinha pedido, por escrito, que os cardeais residissem no lugar onde tinham o ofício. Residiu no lugar onde tinha o seu. A exigência que não conseguiu impor em Roma aplicou-a, sem alarido, à única diocese que governava.

Ao fim de mais de vinte anos à frente da arquidiocese, e já perto dos setenta, pediu para deixar o cargo. Foi-lhe concedido. Retirou-se para o convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo, que ele próprio fundara em 1560, e foi lá que morreu, a 16 de julho de 1590, com setenta e seis anos.

A canonização em 2019

O resto pertence aos processos: beatificado em 2001, foi inscrito no catálogo dos santos em julho de 2019, por canonização equipolente, uma via que dispensa a comprovação de um milagre. A canonização foi celebrada na Sé de Braga em novembro desse ano.

Das reformas que escreveu em Trento, nenhuma dependia dele. Os rendimentos, as residências, a escolha dos melhores de cada nação: ficou tudo em latim, numa lista. A única parte que estava ao alcance da mão era a distância entre duas aldeias do Minho. Foi essa que percorreu, e voltou a percorrer, durante mais de vinte anos.