Numa rocha da margem do rio Congo, a mais de cem quilómetros da foz, está gravado em português: «Aqui chegaram os navios do esclarecido rei Dom João o Segundo de Portugal».

Depois, três nomes. O primeiro é Diogo Cão.

A rocha ainda lá está.

Fotografia da inscrição de Ielala, tirada por volta de 1910 (domínio público, Wikimedia Commons). O escudo, a cruz e as letras aparecem realçados a branco para se lerem na fotografia. A frase diz «Aqui chegaram os navios do esclarecido rei Dom João o Segundo de Portugal», e seguem-se os nomes de Diogo Cão, Pêro Anes e Pêro da Costa.
FIG. 02Fotografia da inscrição de Ielala, tirada por volta de 1910 (domínio público, Wikimedia Commons). O escudo, a cruz e as letras aparecem realçados a branco para se lerem na fotografia. A frase diz «Aqui chegaram os navios do esclarecido rei Dom João o Segundo de Portugal», e seguem-se os nomes de Diogo Cão, Pêro Anes e Pêro da Costa.

Ao lado da frase, os homens de Diogo Cão abriram na pedra o escudo das armas de Portugal e uma cruz. Os outros dois nomes são Pêro Anes e Pêro da Costa, e noutras rochas ao lado ficaram mais. O sítio é perto de Matadi, na atual República Democrática do Congo.

Em que ano subiram o rio até ali, não se sabe. A prova de que o subiram é a própria rocha.

Evocação pintada de um canteiro a talhar a cabeça de um padrão em lioz, o calcário dos arredores de Lisboa. Os padrões eram talhados em Portugal e seguiam no navio; os primeiros padrões de pedra foram os de Diogo Cão. Figura genérica de época, não retrato.
FIG. 03Evocação pintada de um canteiro a talhar a cabeça de um padrão em lioz, o calcário dos arredores de Lisboa. Os padrões eram talhados em Portugal e seguiam no navio; os primeiros padrões de pedra foram os de Diogo Cão. Figura genérica de época, não retrato.

Diogo Cão levava pedra de Portugal. Até então, os capitães que iam reconhecendo a costa de África assinalavam os lugares com cruzes de madeira; D. João II mandou que passassem a levar padrões de pedra. João de Barros, que publicou a história destas viagens em 1552, descreve o padrão: da altura de dois homens, com o escudo das armas reais, «e nas costas dele um letreiro em latim e outro em português» a dizer que rei «mandara descobrir aquela terra», em que tempo e por que capitão; no topo, uma cruz de pedra embutida com chumbo.

Eram talhados de lioz, o calcário dos arredores de Lisboa. Os primeiros padrões de pedra foram os de Diogo Cão. E não eram só memória: um padrão com letreiro, escreve Barros, «bastava por posse real».

Pintura de um padrão de pedra, com o escudo das armas reais e a cruz no topo, a partir de uma fotografia de Marie-Lan Nguyen (CC BY 4.0, Wikimedia Commons) da cópia em gesso do Padrão de Santo Agostinho, feita nos anos 1930, que está no AfricaMuseum, em Tervuren. O original, que perdeu a cruz do topo, está em Lisboa, no museu da Sociedade de Geografia, e o letreiro conta o tempo duas vezes: o ano de 6681 da criação do mundo e o de 1482 do nascimento de Cristo.
FIG. 04Pintura de um padrão de pedra, com o escudo das armas reais e a cruz no topo, a partir de uma fotografia de Marie-Lan Nguyen (CC BY 4.0, Wikimedia Commons) da cópia em gesso do Padrão de Santo Agostinho, feita nos anos 1930, que está no AfricaMuseum, em Tervuren. O original, que perdeu a cruz do topo, está em Lisboa, no museu da Sociedade de Geografia, e o letreiro conta o tempo duas vezes: o ano de 6681 da criação do mundo e o de 1482 do nascimento de Cristo.

Entre 1482 e 1486, em viagens cujo número e cujas datas os historiadores ainda discutem, Diogo Cão pôs quatro. A costa que percorreu, do Cabo de Santa Catarina ao Cabo da Cruz, tem mais de dois mil quilómetros.

O primeiro ficou na foz de um grande rio, para lá do Cabo de Santa Catarina, a última terra a que se tinha chegado no tempo de D. Afonso V. O padrão chamava-se São Jorge. Por causa dele, o rio chamou-se durante muito tempo rio do Padrão; depois, Congo, pelo reino por onde corria. No Congo, chamavam-lhe Zaire. Barros escreve que, no tempo das chuvas, entrava tão forte pelo mar que a vinte léguas da costa ainda se achava a sua água doce.

Evocação pintada de um homem do Congo a bordo, na foz do rio. Segundo João de Barros, como os homens que Diogo Cão mandara ao rei do Congo não voltavam, levou para o navio quatro dos que subiam a bordo e disse aos outros, por acenos, que os traria de volta ao fim de quinze luas; os seus homens ficavam em terra, como garantia. Figura genérica de época, não retrato.
FIG. 05Evocação pintada de um homem do Congo a bordo, na foz do rio. Segundo João de Barros, como os homens que Diogo Cão mandara ao rei do Congo não voltavam, levou para o navio quatro dos que subiam a bordo e disse aos outros, por acenos, que os traria de volta ao fim de quinze luas; os seus homens ficavam em terra, como garantia. Figura genérica de época, não retrato.

Na foz, conta Barros, Diogo Cão mandou alguns dos seus homens terra dentro, com um presente para o rei do Congo. Passou o dobro do prazo combinado e os homens não voltaram. Então levou para o navio quatro homens do Congo, dos que subiam a bordo, e disse aos outros, por acenos, que ia mostrá-los ao rei de Portugal e que os traria de volta ao fim de quinze luas. Os que mandara terra dentro ficavam lá, como garantia.

Pelo caminho, escreve ainda Barros, fez «saltos» em terra e tomou pessoas para as ensinar e fazer delas «línguas», como mandava o regimento que levava, e depois as levar de volta.

Evocação pintada do regresso. Numa viagem posterior, Diogo Cão trouxe os quatro homens de volta, vivos, e trocou-os pelos portugueses que tinham ficado no Congo. É a mesma figura da pintura anterior, genérica, não retrato.
FIG. 06Evocação pintada do regresso. Numa viagem posterior, Diogo Cão trouxe os quatro homens de volta, vivos, e trocou-os pelos portugueses que tinham ficado no Congo. É a mesma figura da pintura anterior, genérica, não retrato.

Desceu a costa e assentou o segundo padrão, o de Santo Agostinho, que deu o nome ao cabo, hoje Cabo de Santa Maria, no litoral de Angola.

É esse que está em Lisboa, no museu da Sociedade de Geografia. Tem mais de dois metros de altura e pesa cerca de trezentos quilos. O letreiro diz que o rei D. João II «mandou descobrir esta terra e pôr estes padrões por Diogo Cão, escudeiro da sua casa», e conta o tempo duas vezes: o ano de 6681 da criação do mundo e o de 1482 do nascimento de Cristo.

Evocação pintada de homens da armada a erguer um padrão de pedra num cabo da costa, sobre o mar. Mais a sul, Diogo Cão assentou dois padrões, no Cabo Negro e, na costa da atual Namíbia, no Cabo da Cruz; o do Cabo da Cruz mede três metros e meio e pesa mais de uma tonelada. Figuras genéricas de época.
FIG. 07Evocação pintada de homens da armada a erguer um padrão de pedra num cabo da costa, sobre o mar. Mais a sul, Diogo Cão assentou dois padrões, no Cabo Negro e, na costa da atual Namíbia, no Cabo da Cruz; o do Cabo da Cruz mede três metros e meio e pesa mais de uma tonelada. Figuras genéricas de época.

De volta a Lisboa, o escudeiro foi feito cavaleiro da casa do rei. As armas que o rei lhe deu têm, em campo verde, duas colunas de prata, cada uma rematada por uma cruz, sobre dois montes.

Numa viagem posterior, segundo Barros, Diogo Cão trouxe os quatro de volta, vivos, e trocou-os pelos portugueses que tinham ficado. Seguiu para sul e assentou mais dois padrões, no Cabo Negro e no Cabo da Cruz. O do Cabo da Cruz, na costa da atual Namíbia, mede três metros e meio e pesa mais de uma tonelada.

Pintura da coluna que está hoje no Cabo da Cruz, na costa da Namíbia, a partir de uma fotografia de Martin Cígler (CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons); a pintura derivada segue a mesma licença. É a reprodução que o imperador Guilherme II mandou pôr no lugar do padrão de Diogo Cão, com a cabeça copiada da portuguesa e, no fuste, uma inscrição em alemão que a pintura não mostra. O original foi levado para a Alemanha em 1893 e voltou à Namíbia em 2019, a pedido da Namíbia.
FIG. 08Pintura da coluna que está hoje no Cabo da Cruz, na costa da Namíbia, a partir de uma fotografia de Martin Cígler (CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons); a pintura derivada segue a mesma licença. É a reprodução que o imperador Guilherme II mandou pôr no lugar do padrão de Diogo Cão, com a cabeça copiada da portuguesa e, no fuste, uma inscrição em alemão que a pintura não mostra. O original foi levado para a Alemanha em 1893 e voltou à Namíbia em 2019, a pedido da Namíbia.

Poucos anos depois, em Florença, um cartógrafo alemão, Henricus Martellus, registou num mapa a última viagem de Diogo Cão. Uma legenda em latim diz que a armada do rei de Portugal, de que ele era capitão, chegou até ao monte a que chamam Negro, onde ele ergueu uma coluna com uma cruz, e seguiu até à Serra Parda. Acaba em três palavras: «et hic moritur». E aqui morre.

Uns leram nelas a morte de Diogo Cão na zona da Serra Parda. Outros, seguindo Américo da Costa Ramalho, que a frase queria dizer que era lá que a serra acabava. Num mapa do cartógrafo veneziano Pietro Coppo, de 1520, lê-se «reversus est in regno»: voltou ao reino. Não se sabe quando nem onde Diogo Cão morreu.

Em 1487, o rei mandou Bartolomeu Dias continuar o reconhecimento da costa, e em dezembro a armada dele já estava na Serra Parda, o limite das viagens de Diogo Cão. No mesmo ano, o rei mandou Pêro da Covilhã por terra, a partir de Santarém, como já aqui contámos.

Os padrões não ficaram onde Diogo Cão os pôs. O de Santo Agostinho foi trocado no cabo por outro marco em 1892 e trazido para Lisboa; o que resta de outros dois está lá também, na Sociedade de Geografia, numa sala chamada Sala dos Padrões. O do Cabo da Cruz foi levado para a Alemanha em 1893 e voltou à Namíbia em 2019, a pedido do governo namibiano. No cabo, em 1986, tinha sido posta uma réplica.

Pouco acima de Matadi, o porto de mar do Congo, a rocha continua na margem esquerda, junto aos rápidos de Ielala, com o escudo, a cruz, os nomes e a frase que começa por «Aqui chegaram os navios».

É ali, nos rápidos, que o Congo deixa de ser navegável.

Fontes16 referências
  • João de Barros, «Da Ásia», Década I, livro III, capítulo III (1552), na edição de Lisboa de 1778 digitalizada pela Biblioteca Nacional de Portugal, e numa transcrição moderna em ortografia atualizada, de onde vêm as citações mais longas. O padrão de pedra, a sua descrição e a sua função de posse, o rio do Padrão, os quatro homens do Congo, as duzentas léguas, Caçuta e a embaixada. purl.pt
  • Antonio Sánchez, «Emblemas del imperio colonial portugués: ideas para una historia cultural de los padrões», Scripta Nova, Universidade de Barcelona, volume XIX, número 512, 2015. A passagem da madeira à pedra, a pedra lioz, as transcrições de Barros e de Rui de Pina, os quatro padrões de Diogo Cão, as rochas de Ielala e o poema de Pessoa. revistes.ub.edu
  • Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa, ficha do Padrão de Santo Agostinho: material, medidas, peso e chegada a Lisboa; e a página da Sociedade de Geografia sobre as suas instalações e a Sala dos Padrões. museu.socgeografialisboa.pt socgeografialisboa.pt
  • Deutsches Historisches Museum, «The Stone Cross from Cape Cross», comunicado de 17 de maio de 2019. O padrão do Cabo da Cruz, de 1486 a 2019. dhm.de
  • Raquel Prazeres, «Diogo Cão», e Teresa Lacerda, «Rochedos de Ielala», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH. As teses de Damião Peres e de Carmen Radulet, e a transcrição dos três rochedos. eve.fcsh.unl.pt eve.fcsh.unl.pt
  • António Gonçalves, «Cão, Diogo», e Luísa Gama, «Dias, Bartolomeu», em Navegações Portuguesas; Augusto O. Quirino de Sousa, «Martellus, Henricus», em Cartografia e Cartógrafos; Instituto Camões. A legenda de Martellus e as suas leituras, o mapa de Pietro Coppo, a viagem de Bartolomeu Dias. cvc.instituto-camoes.pt cvc.instituto-camoes.pt cvc.instituto-camoes.pt
  • J. Semedo de Matos, «A Marinha Joanina (7): Diogo Cão», Revista da Armada, maio de 1999. A inscrição de Santo Agostinho, o ano da criação do mundo, a hipótese das três viagens. marinha.pt
  • Kate Lowe, «"Representing" Africa: ambassadors and princes from Christian Africa to Renaissance Italy and Portugal, 1402-1608», Transactions of the Royal Historical Society, volume 17, 2007. Ielala e o Congo cristão e letrado. doi.org
  • Ernst Gerhard Jacob, «A descoberta da África sudoeste pelos portugueses», Revista de História, São Paulo, 1964. O padrão do Cabo da Cruz levado para a Alemanha, a legenda de Martellus. doi.org
  • «As inscrições de Ielala», Diogo-Cão, revista ilustrada de assuntos históricos, Luanda, 1932, número 5, com a transcrição de José Emílio dos Santos (1926) e as leituras de Afonso de Dornelas e de Quirino da Fonseca; Hemeroteca Digital de Lisboa. hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
  • Encyclopaedia Britannica, 11.ª edição, 1911, «Cam (Cão), Diogo», de C. R. Beazley. As latitudes, as mercês de abril de 1484, as datas das inscrições. en.wikisource.org
  • Fotografia da inscrição de Ielala, tirada por volta de 1910, domínio público, Wikimedia Commons; e fotografia de 1963 no Arquivo Histórico da Marinha, «Pedras com inscrições de Diogo Cão em Yalala». commons.wikimedia.org arquivohistorico.marinha.pt
  • Livro do Armeiro-Mor, as armas de Diogo Cão, domínio público, Wikimedia Commons. commons.wikimedia.org
  • Público, «Alemanha vai devolver padrão português à Namíbia», 17 de maio de 2019; Xinhua, 14 de agosto de 2019, sobre a chegada do padrão à Namíbia. publico.pt xinhuanet.com
  • Infopédia, Porto Editora, «Diogo Cão», no Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Wikipédia, «Matadi» e «Yellala Falls»: a posição de Matadi e dos rápidos, e o último ponto navegável do rio. en.wikipedia.org en.wikipedia.org