Um tubarão-demónio, branco-rosado, com um focinho chato e comprido como uma lâmina, tirado de 603 metros de fundo ao mar de Sesimbra: o rei D. Carlos comprou-o aos pescadores de linha a 23 de julho de 1901. Segundo o Aquário Vasco da Gama, onde ainda hoje está exposto, foi o primeiro da sua espécie encontrado no Atlântico.

O rei tinha um iate posto ao serviço da ciência, mas este tubarão chegou-lhe por uma linha de pesca, lançada a mais de meio quilómetro. Ao largo da costa portuguesa, a apenas cinco milhas de terra, há vales submarinos com mais de mil metros de fundo, e é por isso que animais de grande profundidade aparecem tão perto da costa. Porque é que o rei de Portugal andava a comprar tubarões a pescadores?

Evocação pintada de um pescador de linha a segurar o focinho comprido de um tubarão pálido (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Evocação pintada de um pescador de linha a segurar o focinho comprido de um tubarão pálido (figura genérica, não retrato).

Explicou-o ele próprio, num prefácio escrito em francês em 1902. D. Carlos, rei desde 1889, ocupava-se havia muito de estudos de zoologia e tinha, desde a infância, a paixão do mar. Em agosto de 1896 decidiu consagrar o seu iate a investigações científicas na costa portuguesa, e a 1 de setembro desse ano, depois de alguns ensaios, começou os trabalhos. A razão também a deixou escrita: aquela costa tinha uma variedade excecional de profundidades, mesmo a pequena distância de terra.

Evocação pintada de um barco de Sesimbra a alar um espinhel de águas fundas, ao nascer do dia (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 03Evocação pintada de um barco de Sesimbra a alar um espinhel de águas fundas, ao nascer do dia (figuras genéricas, não retratos).

O iate chamava-se Amélia, como a rainha. Era um barco de 147 toneladas, construído em Inglaterra, e depressa se revelou pequeno. O rei comprou outro maior; ao todo foram quatro, todos com o mesmo nome. O Aquário Vasco da Gama conta doze campanhas, entre 1896 e 1907. A bordo iam oficiais de marinha, entre eles o explorador Roberto Ivens, e um naturalista, Albert Girard.

Desenho do terceiro iate «Amélia», prancha III do Bulletin des campagnes scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia» (1902). (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)
FIG. 04Desenho do terceiro iate «Amélia», prancha III do Bulletin des campagnes scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia» (1902). (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)

O rei começou pela boca do Tejo e foi alargando o trabalho para sul, até à Fossa de Albufeira, entre o Tejo e o cabo Espichel, uma depressão do fundo que chega aos 500 metros. As bordas eram tão abruptas, escreveu, que dragar ali era muito difícil, e lá perdeu várias redes de arrasto. Nessa primeira campanha, as sondagens chegaram aos 1200 metros.

Evocação pintada de uma sondagem de profundidade a bordo de um iate a vapor, nos anos 1890 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Evocação pintada de uma sondagem de profundidade a bordo de um iate a vapor, nos anos 1890 (figuras genéricas, não retratos).

Foram os resultados dos pescadores que o levaram ao fundo. Os pescadores de tubarão lançavam espinhéis até 1400 metros de fundo, e o rei, vendo o que eles traziam, passou a lançá-los também, perto do Espichel. Mais tarde escreveu que era aos espinhéis que devia a maior parte dos melhores exemplares de peixes da sua coleção.

Evocação pintada de um naturalista ao microscópio no laboratório de um iate, por volta de 1900 (figura genérica, não retrato).
FIG. 06Evocação pintada de um naturalista ao microscópio no laboratório de um iate, por volta de 1900 (figura genérica, não retrato).

Em 1897, entre o Espichel e Sines, as sondagens deram com uma fossa de dois ramos, com perto de 700 metros de fundo, a umas oito milhas da praia de Sesimbra. O rei deu-lhe o nome de Fossa de Sesimbra. No mesmo ano alugou e armou um barco de pesca da vila e pô-lo a pescar a cerca de 600 metros, com os aparelhos dos pescadores. E os pescadores traziam-lhe, de livre vontade, exemplares do que apanhavam.

Evocação pintada de um barco de pesca de Sesimbra junto ao casco de um iate, com peixes de grande profundidade para entregar (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Evocação pintada de um barco de pesca de Sesimbra junto ao casco de um iate, com peixes de grande profundidade para entregar (figuras genéricas, não retratos).

Nem tudo correu bem: as nassas, que descera em 1896 com tão pouco proveito que as abandonara, voltaram ao mar em 1899, e os resultados foram ainda menos produtivos. Dessa campanha escreveu que os pescadores se interessavam muito pelos seus trabalhos desde o começo, e que lhes comprara tipos raros que ainda não conseguira obter senão por intermédio deles. Em 1900, escreveu, fez compras muito importantes aos pescadores. O tubarão de 1901 chegou por esse caminho.

Fotografia de um exemplar conservado em frasco, prancha V do Bulletin des campagnes scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia» (1902). (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)
FIG. 08Fotografia de um exemplar conservado em frasco, prancha V do Bulletin des campagnes scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia» (1902). (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)

Não estudou só o fundo. Em 1898 levou as campanhas ao Algarve e mandou um questionário aos armadores das armações de atum. Segundo Jardim e colegas, investigadores da Universidade de Lisboa, o zoólogo francês Louis Roule escreveu em 1924 que no trabalho do rei se estabelecia pela primeira vez a relação entre as migrações do atum e a temperatura da água.

Evocação pintada de uma galeria com frascos de exemplares marinhos sob luz de gás (figuras genéricas; não representa um museu real).
FIG. 09Evocação pintada de uma galeria com frascos de exemplares marinhos sob luz de gás (figuras genéricas; não representa um museu real).

Em 1904 publicou um estudo sobre os tubarões apanhados na costa portuguesa entre 1896 e 1903: trinta e duas espécies, costeiras e de grande profundidade, com o fundo onde viviam, o que tinham no estômago, para que serviam e os nomes vulgares em português e em francês. O texto corre nas duas línguas, em páginas fronteiras. Três dessas páginas são do tubarão de Sesimbra. As medidas vêm ao milímetro, 1,11 metros de comprimento total; a cor ficou anotada, branco ligeiramente amarelado e rosado, com a borda das barbatanas escura. E o rei escreveu: «A especie nova que descrevo». Deu-lhe o nome de Odontaspis nasutus.

A espécie já tinha sido descrita em 1898, a partir de um exemplar apanhado no Japão, perto de Yokohama, com o nome Mitsukurina owstoni. É esse o nome que vale. O do rei aparece hoje nas listas como sinónimo. O exemplar de Sesimbra é o primeiro registo conhecido da espécie na costa portuguesa e, segundo o Aquário, o primeiro no Atlântico.

Depois de o rei ser morto a tiro em Lisboa, em 1908, a coleção que ele juntava para um museu oceanográfico foi entregue, em fevereiro de 1910, à Liga Naval Portuguesa; em 1935, os herdeiros cederam-na ao Aquário Vasco da Gama, no Dafundo. Pelo caminho, entre 1908 e 1935, perderam-se muitos exemplares, escrevem os investigadores que a catalogaram em 2018: o que lá está é só uma pequena parte do que ele recolheu.

Só nos peixes, são 675 registos de 236 espécies, todos das águas portuguesas, apanhados entre 1892 e 1907. Para pelo menos 184 dessas espécies, é o registo mais antigo que se conhece nas nossas águas. O do tubarão-demónio tem dia e lugar: 23 de julho de 1901, ao mar de Sesimbra.

Fontes12 referências
  • D. Carlos de Bragança, Bulletin des campagnes scientifiques accomplies sur le yacht «Amelia», vol. I (Lisboa, Imprimerie Nationale, 1902), Biblioteca Nacional Digital: bndigital.bnportugal.gov.pt
  • D. Carlos de Bragança, Resultados das investigações scientificas feitas a bordo do yacht «Amelia» e sob a direcção de D. Carlos de Bragança (A pesca do atum no Algarve em 1898, 1899; Ichthyologia II. Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a 1903, 1904), Biblioteca Nacional Digital: bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Maria Estela Jardim, Isabel Marília Peres, Pedro Barcia Ré e Fernanda Madalena Costa, «A prática oceanográfica e a coleção iconográfica do rei dom Carlos I», História, Ciências, Saúde. Manguinhos 21, n.º 3 (2014), pp. 883-909: scielo.br
  • Ana Serra Silva, Maria Pitta Groz, Paula Leandro, Carlos A. Assis e Rui Figueira, «Ichthyological collection of the Museu Oceanográfico D. Carlos I», ZooKeys 752 (2018), pp. 137-148: doi.org
  • Leonard J. V. Compagno, FAO Species Catalogue, vol. 4, Sharks of the World, parte 1 (Roma, FAO, 1984), Mitsukurina owstoni: ibiologia.unam.mx
  • Aquário Vasco da Gama, «Um raro e estranho tubarão»: cultura.marinha.pt
  • Aquário Vasco da Gama, «A coleção do Rei»: cultura.marinha.pt
  • Aquário Vasco da Gama, «Museu»: cultura.marinha.pt
  • Aquário Vasco da Gama, «Coleção Oceanográfica do Museu D. Carlos I»: cultura.marinha.pt
  • Marinha Portuguesa, «Aquário Vasco da Gama lança Plataforma Digital Interativa dedicada ao Rei D. Carlos I»: marinha.pt
  • Marinha Portuguesa, «Aquário Vasco da Gama abre ao público galeria renovada»: marinha.pt
  • Maria Manuela da Câmara Falcão, «D. Carlos I e a Oceanografia» (dcarlos100anos.pt), cópia no Arquivo.pt: arquivo.pt