D. João II mandou dois homens descobrir onde se acha a canela e saber do Preste João. Partiram de Santarém, em segredo, a 7 de maio de 1487.

Um deles ainda lá estava em abril de 1520.

E foi ele que traduziu para português as cartas do rei etíope para o rei de Portugal.

Sabe-se isto porque o padre Francisco Álvares, capelão da embaixada portuguesa que nesse abril desembarcou naquele reino, o confessou, lhe ouviu a vida inteira e a escreveu. O reino era a Etiópia, e Preste João era o nome que os portugueses davam ao seu rei.

Chamava-se Pêro da Covilhã e era natural da vila da Covilhã, onde hoje o hospital tem o seu nome. Tinha vivido em Castela em moço e falava bem castelhano, e foi por isso que D. João II, de quem era escudeiro da guarda, o mandou andar por Castela para saber quais eram os fidalgos que se tinham passado para lá. Depois mandou-o duas vezes à Berbéria. De todas voltou.

O dia em que as cartas do rei da Etiópia se escreveram em três línguas, a 11 de fevereiro de 1521. O frade lia-as em abissínio, Pêro da Covilhã tornava-as em português e João Escolar, escrivão da embaixada, escrevia. A corte é a de Lebna Dengel. Pintura; figuras de época, não retratos.
FIG. 02O dia em que as cartas do rei da Etiópia se escreveram em três línguas, a 11 de fevereiro de 1521. O frade lia-as em abissínio, Pêro da Covilhã tornava-as em português e João Escolar, escrivão da embaixada, escrevia. A corte é a de Lebna Dengel. Pintura; figuras de época, não retratos.

Para esta viagem deram-lhe uma carta de marear tirada de um mapa-mundo e uma carta de crédito para todas as terras e províncias do mundo. E deram-lhe dinheiro: quatrocentos cruzados para ele e para o companheiro, tirados da arca das despesas da horta de Almeirim.

O rei já tinha mandado nesta ida dois homens, que chegaram a Jerusalém e deram volta, dizendo que àquelas terras não se podia ir sem saber árabe. Pêro da Covilhã e o companheiro que lhe deram, Afonso de Paiva, de Castelo Branco, sabiam.

Passaram por Barcelona, Nápoles e Rodes, e de Rodes a Alexandria numa nau. Para passarem por mercadores compraram muito mel.

Em Alexandria adoeceram ambos de febres. O naibe de Alexandria tomou-lhes o mel todo, cuidando que morreriam. Não morreram, e pagaram-lhes o mel como eles quiseram.

Uma rua do centro histórico da Covilhã, pintada a partir de uma fotografia real de Pmvandrade (CC BY-SA 4.0). Pêro da Covilhã era natural desta vila e deixou aqui uma mulher quando partiu, em 1487. A figura na escada é genérica e de época, não é retrato de ninguém.
FIG. 03Uma rua do centro histórico da Covilhã, pintada a partir de uma fotografia real de Pmvandrade (CC BY-SA 4.0). Pêro da Covilhã era natural desta vila e deixou aqui uma mulher quando partiu, em 1487. A figura na escada é genérica e de época, não é retrato de ninguém.

Chegados ao Cairo, seguiram com mouros mogrebinos de Fez e de Tremecém que iam para Adém: por terra até ao Toro, dali por mar a Suaquém e a Adém. Em Adém era tempo de monção e os companheiros apartaram-se. Afonso de Paiva foi por terra de Etiópia; Pêro da Covilhã foi para a Índia. Ficaram que a certo tempo se juntariam ambos no Cairo.

Covilhã foi a Cananor, dali a Calecute, dali tornou a Goa e foi a Ormuz. Esteve também na costa de Sofala.

Voltou ao Cairo à procura do companheiro. Afonso de Paiva tinha morrido.

Estava para partir a caminho de Portugal quando soube que andavam à sua procura dois judeus portugueses: Rabi Abraão, de Beja, e José, de Lamego, que era sapateiro. Traziam cartas do rei com ordens novas: que fosse ver e saber do grande rei Preste João.

O despacho de Santarém, a 7 de maio de 1487. Levaram uma carta de marear tirada de um mapa-mundo, uma carta de crédito para todas as terras e províncias do mundo, e quatrocentos cruzados tirados da arca das despesas da horta de Almeirim. Ao fundo, D. Manuel, que ainda era duque e que Álvares registou como presente. Pintura; figuras de época, não retratos.
FIG. 04O despacho de Santarém, a 7 de maio de 1487. Levaram uma carta de marear tirada de um mapa-mundo, uma carta de crédito para todas as terras e províncias do mundo, e quatrocentos cruzados tirados da arca das despesas da horta de Almeirim. Ao fundo, D. Manuel, que ainda era duque e que Álvares registou como presente. Pintura; figuras de época, não retratos.

Escreveu ali o seu relatório. Que tinha descoberto a canela e a pimenta na cidade de Calecute; que o cravo vinha de fora, mas que tudo ali se acharia; e que para aquilo se poderia bem navegar pela costa e mares da Guiné, vindo demandar Sofala.

Entregou o papel ao sapateiro de Lamego, que voltava para trás.

Ele foi para a frente. Levou o rabi a Adém e a Ormuz e deixou-o lá; tornou atrás e viu Judá, Meca, Almedina e o monte Sinai. Embarcou outra vez no Toro, saiu do estreito em Zeila e dali caminhou por terra até ao reino cristão da Etiópia, por volta de 1493, na reconstituição do Conde de Ficalho.

Chegou à corte e deu as suas cartas ao rei Eskender, que então reinava. O rei recebeu-as com muito prazer e alegria e disse que o mandaria à sua terra com muita honra.

A entrega do relatório, no Cairo. Pêro da Covilhã escreveu ao rei que tinha achado a canela e a pimenta na cidade de Calecute e que para aquilo se poderia bem navegar pela costa e mares da Guiné; o papel seguiu com o sapateiro de Lamego, que voltava para trás. Pintura; figuras de época, não retratos.
FIG. 05A entrega do relatório, no Cairo. Pêro da Covilhã escreveu ao rei que tinha achado a canela e a pimenta na cidade de Calecute e que para aquilo se poderia bem navegar pela costa e mares da Guiné; o papel seguiu com o sapateiro de Lamego, que voltava para trás. Pintura; figuras de época, não retratos.

Nesse tempo Eskender morreu, atravessado pelas setas de gente revoltada que o não conheceu no escuro da noite. Reinou o irmão, Naod, que também o recebeu com muita graça; pedindo ele licença, não lha quis dar. Morreu Naod e reinou o filho, Lebna Dengel. Pedindo ele licença outra vez, também não lha deu: dizia que ele não viera no seu tempo, e que os seus antecessores lhe tinham dado terras e senhorios para que os regesse e desfrutasse, e que a licença não lha podia dar. E assim ficou.

Não era um caso isolado. Álvares regista que sempre fora costume daqueles reinos não deixarem ir os forasteiros que a eles vinham, e nomeia outros: um veneziano a quem ali chamavam Macoreo, e um Tomás Gradani, havia quinze anos na terra. A razão que davam era esta: quem nos vem buscar tem necessidade de nós, e não é razão que se vão nem que os deixemos ir.

Casou na Etiópia e teve ali filhos e filhas. Governou terras. A rainha Eleni mandou-o mostrar como se havia de fazer um altar numa igreja que ela mandara construir: fizeram-no de madeira, cobriram-no todo de ouro, e a pedra de ara era de ouro maciço.

Sabia todas as línguas que se podem falar, escreve Álvares, de cristãos, de mouros e de gentios.

Um pátio de especiarias na costa do Malabar. Foi a Cananor, dali a Calecute, dali tornou a Goa e foi a Ormuz; esteve também na costa de Sofala. Pintura; figuras de época, não retratos.
FIG. 06Um pátio de especiarias na costa do Malabar. Foi a Cananor, dali a Calecute, dali tornou a Goa e foi a Ormuz; esteve também na costa de Sofala. Pintura; figuras de época, não retratos.

E escreve uma coisa que é dele para ele. Covilhã era seu filho espiritual, e disse-lhe, em confissão e fora dela, que havia trinta e três anos que não se confessava, porque naquela terra não se guarda o segredo da confissão. Ia à igreja e ali dizia a Deus os seus pecados.

A 11 de fevereiro de 1521 escreviam-se, na corte do Preste, as cartas para o rei de Portugal. Fizeram-se em três línguas: abissínio, árabe e português. O frade lia-as em abissínio, Pêro da Covilhã tornava-as em português, e João Escolar, escrivão da embaixada, escrevia.

O homem que fora mandado em busca de notícias estava a traduzir as notícias que outros iam levar.

Gaspar Correia escreve que ele estivera em Calecute, em Cananor e em Goa dez anos antes de D. Vasco descobrir a Índia. E Ficalho, que é quem mais o defende, escreve que estes factos não amesquinham a empresa de Vasco da Gama, a quem sempre ficará a glória de ter atado os dois fios.

A despedida, a duas jornadas de caminho. Gaspar Correia conta que Pêro da Covilhã não quis vir com os portugueses, porque era já muito velho e vivia muito descansado nas muitas terras que tinha, e que mandou um filho, homem de vinte e três anos, com cem onças de ouro para o gasto do caminho. Pintura; figuras de época, não retratos.
FIG. 07A despedida, a duas jornadas de caminho. Gaspar Correia conta que Pêro da Covilhã não quis vir com os portugueses, porque era já muito velho e vivia muito descansado nas muitas terras que tinha, e que mandou um filho, homem de vinte e três anos, com cem onças de ouro para o gasto do caminho. Pintura; figuras de época, não retratos.

Da carta que ele mandou do Cairo pelo sapateiro não se sabe que fim levou. O Conde de Ficalho, em 1898, conclui que chegou. Teresa Lacerda, em 2009, escreve que provavelmente nunca chegou ao destinatário, e nota que a armada de Vasco da Gama não saiu de Lisboa com informações ajustadas aos ventos de monção. Nenhuma das duas leituras foi desmentida desde então.

Gaspar Correia conta o resto. A duas jornadas de caminho, Pêro da Covilhã despediu-se de D. Rodrigo de Lima e não quis vir com os portugueses: era já muito velho e vivia muito descansado nas muitas terras que tinha. Depois de 1524 não há notícia dele: nenhuma fonte dá o dia nem o lugar em que morreu.

Mandou um filho, homem de vinte e três anos, e com ele um recado: que o apresentassem ao rei; que pedissem por ele que o fizessem honrado, em satisfação dos serviços do pai; e que o rei o deixasse tornar, para contar ao Preste as coisas que visse em Portugal, para que a mãe e os parentes houvessem prazer. Deu a D. Rodrigo cem onças de ouro para o gasto do rapaz.

E deixou ainda uma instrução. Se a mulher que ficara na Covilhã tivesse tido algum filho ou alguma filha, dessem-lhe vinte onças de ouro.

O rapaz adoeceu e morreu no caminho, na última cidade das terras do Preste, onde a embaixada passou o inverno. Correia escreve que D. Rodrigo de Lima mandou todo aquele ouro de volta ao pai.

As vinte onças que iam para a Covilhã chegaram à última cidade das terras do Preste, e voltaram para trás.

Fontes6 referências
  • ÁLVARES, Francisco, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, Lisboa, Imprensa Nacional, 1889, edição conforme a de 1540. O relato do capelão da embaixada de D. Rodrigo de Lima, que conheceu Pêro da Covilhã e foi seu confessor; o capítulo cento e três é a biografia que Covilhã lhe contou. Lido no Internet Archive.
  • ÁLVARES, Francisco, Narrative of the Portuguese Embassy to Abyssinia during the years 1520-1527, tradução e edição de Lord Stanley of Alderley, Hakluyt Society, Londres, 1881. A mesma obra em tradução inglesa, com notas.
  • CORREIA, Gaspar, Lendas da Índia, tomos I e III, Academia Real das Ciências de Lisboa. O tomo III dá a passagem da embaixada de D. Rodrigo de Lima pelas terras do Preste, o filho enviado a Portugal e as vinte onças de ouro. O relato da viagem de 1487, no tomo I, é reconhecidamente inexato.
  • FICALHO, Conde de, Viagens de Pedro da Covilhan, Lisboa, 1898. A monografia de referência: a cronologia da viagem, a rejeição da cronologia tradicionalmente admitida, a discussão sobre o destino da carta e o que se sabe dos últimos anos.
  • LACERDA, Teresa, «Pêro da Covilhã (1450/55-?)», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, NOVA FCSH / UAc, 2009.
  • SIMMONS, Adam, e GARNIER, Sébastien, «The Letters of the Ethiopian Ambassador Mateus and his Embassy to Lisbon: When Prester John Actually Ruled Ethiopia, 1509-1520», Aethiopica 26 (2023), pp. 92-139, Hiob-Ludolf-Zentrum für Äthiopistik, Universidade de Hamburgo.