O rei D. João I levou Nuno Álvares Pereira, o seu condestável, a tribunal por causa da maré. Em setembro de 1403, o procurador régio alegava que eram do rei os esteiros de Corroios, Amora e Arrentela, a terra que o Tejo cobre na preia-mar. Era ali que o condestável mandava fazer moinhos.

Desse pleito ficou um moinho. Há mais de seiscentos anos que existe um no fundo do esteiro de Corroios, no Seixal. O de hoje é branco, de telhado vermelho, com a caldeira atrás e o sapal à volta, e tem lá dentro oito pares de mós. A Câmara do Seixal, que o comprou ainda a trabalhar, escreve que se mantém em condições de funcionamento.

Nuno Álvares Pereira, o condestável, num medalhão da Genealogia de D. Manuel Pereira, 3.º conde da Feira, iluminada por António de Holanda e João Menelau em 1534 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, via Wikimedia Commons, domínio público).
FIG. 02Nuno Álvares Pereira, o condestável, num medalhão da Genealogia de D. Manuel Pereira, 3.º conde da Feira, iluminada por António de Holanda e João Menelau em 1534 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, via Wikimedia Commons, domínio público).

Porquê tanto empenho num lodaçal? Porque ali a maré trabalhava de graça.

Pormenor da Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, levantada sob a direção de Filipe Folque (1856–1866): no esteiro de Corroios, a carta escreve «Castello» e «Rouxinol»; ao lado, Amora, Arrentela e o Seixal (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 03Pormenor da Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, levantada sob a direção de Filipe Folque (1856–1866): no esteiro de Corroios, a carta escreve «Castello» e «Rouxinol»; ao lado, Amora, Arrentela e o Seixal (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Um moinho de maré é um edifício atravessado por canais, com uma lagoa atrás, a caldeira, fechada por um dique e por uma comporta. Quando a maré sobe, a água abre sozinha a comporta e enche a caldeira. Quando começa a vazar, a força da corrente fecha a mesma comporta, e a água fica presa. A caldeira de Corroios chegou a ter quase cinco hectares.

Evocação pintada do Moinho de Maré de Corroios ao anoitecer, com um moleiro a levar um saco para a porta (figura genérica). A partir de uma fotografia real de AndreBP 22EPI (CC BY-SA 4.0).
FIG. 04Evocação pintada do Moinho de Maré de Corroios ao anoitecer, com um moleiro a levar um saco para a porta (figura genérica). A partir de uma fotografia real de AndreBP 22EPI (CC BY-SA 4.0).

Na baixa-mar, o moleiro abre os pejadouros. A água da caldeira corre com força pelos canais por baixo do edifício, faz girar os rodízios horizontais e, por engrenagens, as mós. Cada maré dava cerca de quatro horas de moagem, duas vezes por dia. Como as marés mudam de hora, o moleiro trabalhava muitas vezes a horas pouco comuns, de dia ou pela noite dentro.

O sapal de Corroios na preia-mar, a terra que o Tejo cobre e onde se fizeram os moinhos. Fotografia de Jaimepereira48 (2023, CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.
FIG. 05O sapal de Corroios na preia-mar, a terra que o Tejo cobre e onde se fizeram os moinhos. Fotografia de Jaimepereira48 (2023, CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.

O pleito ficou registado num diploma de 29 de setembro de 1403, que o historiador José Augusto Oliveira transcreveu. Álvaro Mendes, procurador do rei, dizia que os esteiros eram da Coroa; Pedro Afonso, procurador do condestável, lembrava que Nuno Álvares recebera Almada e o seu termo em doação, com todos os direitos e proveitos que o rei ali tinha. Mas os rios eram direitos reais e não passavam por inerência para o senhor da terra. E as obras já andavam: o condestável, diz o documento, «per sy e per outros se trabalhaua de fazer e mandar fazer» azenhas naqueles esteiros.

O moinho na maré cheia, com a água à volta do edifício. Fotografia de singra13 (2007, CC BY-SA 3.0), Wikimedia Commons.
FIG. 06O moinho na maré cheia, com a água à volta do edifício. Fotografia de singra13 (2007, CC BY-SA 3.0), Wikimedia Commons.

O rei e o condestável não chegaram a ouvir sentença. Fizeram um acordo, uma «trasauçom e amjgavil composiçom», e o documento dá a razão: o «proueito comunal» da obra. Os esteiros ficaram aforados a Nuno Álvares para sempre, a ele e aos herdeiros, por menos de metade do «justo preço», diz o próprio documento. A renda era de um sexteiro de trigo por ano e por cada roda de mós. À cabeça das cláusulas ficou a garantia de que as azenhas podiam passar para o mosteiro do Carmo.

Um tegão sobre um par de mós do Moinho de Maré de Corroios, com farinha na caixa: é dele que o grão cai para o olho da mó. Fotografia de Jaimepereira48 (2023, CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.
FIG. 08Um tegão sobre um par de mós do Moinho de Maré de Corroios, com farinha na caixa: é dele que o grão cai para o olho da mó. Fotografia de Jaimepereira48 (2023, CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.

A decisão não foi tomada a dois. D. João I associou-lhe a rainha, D. Filipa de Lencastre, e os infantes Duarte, Pedro e Henrique. Assinaram como testemunhas, entre outros, o arcebispo de Lisboa e o doutor João das Regras.

Evocação pintada das obras nos esteiros de Corroios: em setembro de 1403, diz o documento, já se trabalhava nas azenhas do condestável (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 09Evocação pintada das obras nos esteiros de Corroios: em setembro de 1403, diz o documento, já se trabalhava nas azenhas do condestável (figuras genéricas, não retratos).

Discutia-se, afinal, quem mandava num rio. A Coroa afirmou que mandava ela e, no mesmo papel, cobrou pouco.

Evocação pintada do acordo de 1403, a que D. João I associou a rainha, D. Filipa de Lencastre, e os infantes Duarte, Pedro e Henrique (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 10Evocação pintada do acordo de 1403, a que D. João I associou a rainha, D. Filipa de Lencastre, e os infantes Duarte, Pedro e Henrique (figuras genéricas, não retratos).

O condestável, que pensara em vários moinhos, só em parte fez o que planeara, e não tardou a dar as azenhas de Corroios aos frades carmelitas. Em 31 de agosto de 1405, outra carta régia já falava de «hũa casa de acenhas no steiro de corroyos», e livrava o Carmo do foro.

Evocação pintada de um forno régio do biscoito das armadas, como os de Vale de Zebro, junto ao Barreiro. Alguns moinhos do Seixal moíam para estes fornos (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 11Evocação pintada de um forno régio do biscoito das armadas, como os de Vale de Zebro, junto ao Barreiro. Alguns moinhos do Seixal moíam para estes fornos (figuras genéricas, não retratos).

E Corroios não estava só. Entre os séculos XIII e XVIII construíram-se no estuário do Tejo pelo menos 45 moinhos de maré, de Alverca a Alcochete, mais de uma dúzia deles no Seixal. O Ecomuseu do Seixal chama a este conjunto uma das maiores concentrações conhecidas no mundo. A técnica era velha: havia moinhos destes na Europa desde o século VII. No Tejo, a novidade foi o número.

O Moinho de Maré de Corroios no seu esteiro, em 2024. Fotografia de AndreBP 22EPI (CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.
FIG. 12O Moinho de Maré de Corroios no seu esteiro, em 2024. Fotografia de AndreBP 22EPI (CC BY-SA 4.0), Wikimedia Commons.

O surto tinha uma razão. A historiadora Ana Silveira liga-o às expedições marítimas, às praças do Norte de África e ao biscoito que as armadas levavam a bordo, cozido nos fornos régios da Porta da Cruz, em Lisboa, e de Vale de Zebro, junto ao Barreiro. Alguns moinhos do Seixal moíam para esses fornos. Parte da farinha que foi para o mar saiu de casas como esta.

Corroios começou com três pares de mós e chegou a oito. O terramoto de 1755, segundo o Ecomuseu, causou-lhe grandes estragos. Quando as ordens religiosas foram extintas, em 1834, passou para o Estado, e em 1836 arrematou-o João Luís Lourenço, proprietário local. Entre 1907 e 1930, um dos pares de mós passou a descascar arroz.

Por volta de 1933, António de Almeida tomou o moinho de renda e trouxe a família para viver lá dentro. Quando as moagens industriais deixaram outros moinhos ao abandono, os Almeida mantiveram o de Corroios a trabalhar. A Câmara comprou-o assim, a moer, e contratou o último moleiro, Guilherme de Almeida, para o manter em funcionamento. O inventário do património chama-lhe o moinho mais antigo que subsiste na região.

Em 1403, a Coroa e o condestável acertaram, por escrito e com testemunhas, de quem eram os esteiros de Corroios. Pela maré, ninguém assinou. Foi ela, durante séculos, quem mandou no moinho: abria a comporta sozinha, enchia a caldeira e decidia a que horas o moleiro moía, muitas vezes pela noite dentro.

Fontes11 referências
  • José Augusto C. F. Oliveira, «Nuno Álvares Pereira, senhor de Almada», Medievalista, 35, 2024 (com a transcrição do diploma de 29 de setembro de 1403 e da carta de 31 de agosto de 1405).
  • Ana Silveira, «Alcântara: um moinho de maré medieval no termo de Lisboa (séculos XIII a XVIII)», Cadernos do Arquivo Municipal, 2.ª série, 7, 2017.
  • Chancelarias portuguesas. D. João I, vol. II, t. 3, doc. 1510, e vol. III, t. 1, doc. 327 (Centro de Estudos Históricos, Universidade Nova de Lisboa).
  • SIPA, Direção-Geral do Património Cultural: «Moinho de Maré de Corroios», IPA.00032849.
  • Câmara Municipal do Seixal e Ecomuseu Municipal do Seixal: página e folheto do Núcleo do Moinho de Maré de Corroios; «600 Anos de Moagem no Moinho de Maré de Corroios»; página do núcleo de 2008 (Arquivo.pt).
  • Carlos Xavier Pita, O Moinho de Maré de Corroios. Ilustração do Património Industrial e Ambiental, relatório de mestrado, Universidade de Évora, 2013.
  • Ecomuseu Municipal do Seixal, painel da exposição com o testemunho de Guilherme Almeida (entrevista de 1998).
  • Junta de Freguesia de Corroios, «Moinho de Maré».
  • Rede de Património Cultural da Região de Setúbal, «Moinho de Maré de Corroios».
  • Jornal de Notícias, 15 de julho de 2009; NiT, 2020 e 2025; Antena 1 / Andarilho, 2019.
  • DGPC, Mosteiro da Batalha (nota histórico-artística de Pedro Redol, 2017).