Chaves foi a votos, a 13 de setembro de 2020, para decidir se os carros podiam voltar a passar numa ponte com mais de mil e novecentos anos.

Muito antes dessa votação, a ponte já tinha texto seu. A meio do tabuleiro ergue-se uma coluna com uma inscrição em latim, e a inscrição diz quem a pagou.

Evocação pintada de um banho nas termas medicinais de Aquae Flaviae: um homem idoso desce à água quente, amparado por um ajudante.
FIG. 02Evocação pintada de um banho nas termas medicinais de Aquae Flaviae: um homem idoso desce à água quente, amparado por um ajudante.

A ponte foi construída no tempo do imperador Trajano, no começo do século II. O nome e os títulos do imperador abrem a inscrição e ali servem de data. Depois vem esta frase: «AQVIFLAVIENSES PONTEM LAPIDEVM DE SVO F. C.» As duas letras do fim abreviam faciendum curaverunt, «mandaram fazer».

Evocação pintada da dragagem do Tâmega, junto à ponte, no começo dos anos oitenta, quando uma escavadora trouxe do rio a coluna dos dez povos.
FIG. 03Evocação pintada da dragagem do Tâmega, junto à ponte, no começo dos anos oitenta, quando uma escavadora trouxe do rio a coluna dos dez povos.

Os aquiflavienses, os moradores de Aquae Flaviae, a cidade romana que está debaixo de Chaves, mandaram fazer esta ponte de pedra «de suo». À sua custa.

Pintura da ponte romana de Chaves e das duas colunas sobre o tabuleiro, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0).
FIG. 04Pintura da ponte romana de Chaves e das duas colunas sobre o tabuleiro, a partir de uma fotografia real de Joseolgon (CC BY-SA 4.0).

A coluna com esta inscrição que hoje se vê na ponte é uma cópia. A original perdeu-se; o texto chegou até nós pela cópia e pelos livros que o transcreveram. A ponte, essa, nunca foi preciso desenterrar. Passa-se hoje a pé, sobre doze arcos à vista.

Planta da Praça de Chaves, provavelmente do começo do século XVIII: a ponte atravessa o Tâmega entre a vila e a margem sul (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 05Planta da Praça de Chaves, provavelmente do começo do século XVIII: a ponte atravessa o Tâmega entre a vila e a margem sul (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

É só para peões desde 2008: foi nesse ano que a Câmara de Chaves a fechou aos carros. Durante umas obras detetaram-se fragilidades na estrutura, sobretudo junto à margem direita, e o Ministério da Cultura aconselhou o fecho. A decisão não foi pacífica. Doze anos depois, a Câmara propôs o referendo, a Assembleia Municipal aprovou-o e o Tribunal Constitucional validou-o. A pergunta no boletim era esta: «Concorda com a reabertura da ponte romana de Chaves ao trânsito de veículos automóveis ligeiros, num único sentido?» Foi o primeiro ato eleitoral realizado em Portugal durante a pandemia de covid-19. Dos que foram votar, mais de oito em cada dez disseram que não. Votaram 12% dos inscritos, menos do que o necessário para o resultado ser vinculativo, e a ponte continuou só para peões.

A inscrição da ponte na Segunda parte da Monarchia Lusytana, de Frei Bernardo de Brito (1609), num exemplar de uma edição posterior: «de seu proprio dinheiro mandàrão fazer aquella ponte» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 06A inscrição da ponte na Segunda parte da Monarchia Lusytana, de Frei Bernardo de Brito (1609), num exemplar de uma edição posterior: «de seu proprio dinheiro mandàrão fazer aquella ponte» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

O resto de Aquae Flaviae vai reaparecendo aos pedaços, a quem procura outra coisa. No começo deste século, numa sondagem para um parque de estacionamento no centro da cidade, apareceram lajes de granito e água quente: eram as termas medicinais romanas, duas piscinas grandes e várias pequenas, que um sismo tinha fechado no século IV. Segundo o arqueólogo municipal, Rui Lopes, o sistema hidráulico que as enchia ainda funciona. A Câmara levou o parque para outro sítio; em 2021 abriu ali um museu, com entrada gratuita.

Evocação pintada de Frei Bernardo de Brito a copiar inscrições para a Monarchia Lusytana; figura de costas, não retrato.
FIG. 07Evocação pintada de Frei Bernardo de Brito a copiar inscrições para a Monarchia Lusytana; figura de costas, não retrato.

No começo dos anos oitenta, uma escavadora que dragava o leito do Tâmega trouxe do rio outra coluna romana de granito, esta com os nomes de dez povos. A marca dos ganchos da máquina ainda lá está, na parte de baixo.

Evocação pintada do referendo de 13 de setembro de 2020 sobre o regresso dos carros à ponte, o primeiro ato eleitoral em Portugal durante a pandemia.
FIG. 08Evocação pintada do referendo de 13 de setembro de 2020 sobre o regresso dos carros à ponte, o primeiro ato eleitoral em Portugal durante a pandemia.

É mais antiga do que a ponte, do ano 79 depois de Cristo: uma dedicatória ao imperador Vespasiano e ao filho, Tito, aos altos funcionários da província e à Legião VII Gemina. Segue-se uma lista, «civitates X»: dez povos. Os aquiflavienses abrem-na e são os únicos com nome latino; os outros nove, povos vizinhos, guardam o nome indígena. Logo a seguir aos nomes de Vespasiano e de Tito, no alto da pedra, há um terceiro, raspado. O museu que hoje a guarda lê ali o de Domiciano, um imperador cujo nome foi apagado das inscrições depois de morrer. Na ponte há também uma cópia desta coluna, ao lado da outra.

Evocação pintada da coluna dos dez povos no Museu da Região Flaviense: em cima, o nome raspado; em baixo, a marca dos ganchos que a tiraram do rio.
FIG. 09Evocação pintada da coluna dos dez povos no Museu da Região Flaviense: em cima, o nome raspado; em baixo, a marca dos ganchos que a tiraram do rio.

Muito antes de o rio a devolver, a inscrição dos dez povos já andava nos livros. Em 1609, Frei Bernardo de Brito copiou as duas inscrições para a Monarchia Lusytana. Traduziu a da ponte: os moradores de Chaves, «de seu proprio dinheiro», mandaram fazer aquela ponte. Na dos dez povos, leu que as dez cidades «concorrerão no edificio desta ponte».

Uma mulher e um burro carregado de feno na ponte, em Chaves. Fotografia de Donald Judge, 1972 (CC BY 2.0).
FIG. 10Uma mulher e um burro carregado de feno na ponte, em Chaves. Fotografia de Donald Judge, 1972 (CC BY 2.0).

Essa é a leitura de Brito. A pedra não o diz. A inscrição dos dez povos parece ter ficado por acabar, e o motivo não se conservou. Já se pensou numa obra pública, na concessão do direito latino àqueles povos, na própria ponte. Não há consenso. Dez povos puseram o nome numa coluna, e o porquê não chegou até nós.

A coluna que o rio devolveu está hoje no Museu da Região Flaviense. Tem as duas marcas: em cima, o nome raspado onde o museu lê Domiciano; em baixo, a dos ganchos que a tiraram do Tâmega.

Fontes17 referências
  • Antonio Rodríguez Colmenero et al., Miliarios e outras inscricións viarias romanas do Noroeste hispánico, Santiago de Compostela, Consello da Cultura Galega, 2004, n.º 85. traianvs.net
  • Diana Fonseca Sorribas, «El municipium romano de Aquae Flaviae y su problemática», Antesteria 1 (2012), pp. 519 a 528. ucm.es
  • Carmen Cardelle de Hartmann, Philologische Studien zur Chronik des Hydatius von Chaves, Estugarda, 1994. epub.ub.uni-muenchen.de
  • Frei Bernardo de Brito, Segunda parte da Monarchia Lusytana (1.ª ed. 1609), exemplar de 1690, pp. 67 e 76, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Museu da Região Flaviense, «Padrão dos Povos», peça do mês, janeiro de 2010. museudaregiaoflaviense.blogspot.com
  • Património Cultural, «Ponte romana e as duas colunas comemorativas nela colocadas, do tempo dos imperadores Vespasiano e Trajano». imovel.patrimoniocultural.gov.pt
  • Museu das Termas Romanas de Chaves, «A História» e «O Achado». museutermasromanaschaves.pt · museutermasromanaschaves.pt
  • «Museu das Termas Romanas abre para contar 2000 anos de história em Chaves», RTP/Lusa, dezembro de 2021. rtp.pt
  • «Chaves mostra balneário onde os romanos tratavam doenças e feridas», TSF, 21 de dezembro de 2021. tsf.pt
  • «Chaves: Escavações no Balneário Romano», Notícias de Arqueologia, 27 de março de 2008. noticiasdearqueologia.blogs.sapo.pt
  • «Ponte Romana apenas para peões», A Voz de Trás-os-Montes, 21 de agosto de 2008. avozdetrasosmontes.pt
  • «Chaves decide em referendo a reabertura ao trânsito da ponte romana», TVI/Lusa, 13 de setembro de 2020. tvi.iol.pt
  • «Ponte romana de Chaves vai manter-se pedonal», Jornal de Notícias, 14 de setembro de 2020. jn.pt
  • «Referendo que manteve ponte romana de Chaves pedonal "corrigiu erro democrático"», Público, 14 de setembro de 2020. publico.pt
  • «Chaves dividida entre norte e sul do Tâmega em referendo pela passagem de trânsito na ponte romana», Observador, 10 de setembro de 2020. observador.pt
  • «Coluna da Ponte Romana de Chaves», Vitrúvio entre o Nadir e o Zénite, 3 de maio de 2016 (com a tradução de Ribeiro de Carvalho, Chaves Antiga, 1929). vitruvius.blogs.sapo.pt
  • Wikipédia: «Padrão dos Povos», «Monarquia Lusitana», «Hydatius». pt.wikipedia.org · pt.wikipedia.org · en.wikipedia.org