Chaves foi a votos, a 13 de setembro de 2020, para decidir se os carros podiam voltar a passar numa ponte com mais de mil e novecentos anos.
Muito antes dessa votação, a ponte já tinha texto seu. A meio do tabuleiro ergue-se uma coluna com uma inscrição em latim, e a inscrição diz quem a pagou.

A ponte foi construída no tempo do imperador Trajano, no começo do século II. O nome e os títulos do imperador abrem a inscrição e ali servem de data. Depois vem esta frase: «AQVIFLAVIENSES PONTEM LAPIDEVM DE SVO F. C.» As duas letras do fim abreviam faciendum curaverunt, «mandaram fazer».

Os aquiflavienses, os moradores de Aquae Flaviae, a cidade romana que está debaixo de Chaves, mandaram fazer esta ponte de pedra «de suo». À sua custa.

A coluna com esta inscrição que hoje se vê na ponte é uma cópia. A original perdeu-se; o texto chegou até nós pela cópia e pelos livros que o transcreveram. A ponte, essa, nunca foi preciso desenterrar. Passa-se hoje a pé, sobre doze arcos à vista.

É só para peões desde 2008: foi nesse ano que a Câmara de Chaves a fechou aos carros. Durante umas obras detetaram-se fragilidades na estrutura, sobretudo junto à margem direita, e o Ministério da Cultura aconselhou o fecho. A decisão não foi pacífica. Doze anos depois, a Câmara propôs o referendo, a Assembleia Municipal aprovou-o e o Tribunal Constitucional validou-o. A pergunta no boletim era esta: «Concorda com a reabertura da ponte romana de Chaves ao trânsito de veículos automóveis ligeiros, num único sentido?» Foi o primeiro ato eleitoral realizado em Portugal durante a pandemia de covid-19. Dos que foram votar, mais de oito em cada dez disseram que não. Votaram 12% dos inscritos, menos do que o necessário para o resultado ser vinculativo, e a ponte continuou só para peões.

O resto de Aquae Flaviae vai reaparecendo aos pedaços, a quem procura outra coisa. No começo deste século, numa sondagem para um parque de estacionamento no centro da cidade, apareceram lajes de granito e água quente: eram as termas medicinais romanas, duas piscinas grandes e várias pequenas, que um sismo tinha fechado no século IV. Segundo o arqueólogo municipal, Rui Lopes, o sistema hidráulico que as enchia ainda funciona. A Câmara levou o parque para outro sítio; em 2021 abriu ali um museu, com entrada gratuita.

No começo dos anos oitenta, uma escavadora que dragava o leito do Tâmega trouxe do rio outra coluna romana de granito, esta com os nomes de dez povos. A marca dos ganchos da máquina ainda lá está, na parte de baixo.

É mais antiga do que a ponte, do ano 79 depois de Cristo: uma dedicatória ao imperador Vespasiano e ao filho, Tito, aos altos funcionários da província e à Legião VII Gemina. Segue-se uma lista, «civitates X»: dez povos. Os aquiflavienses abrem-na e são os únicos com nome latino; os outros nove, povos vizinhos, guardam o nome indígena. Logo a seguir aos nomes de Vespasiano e de Tito, no alto da pedra, há um terceiro, raspado. O museu que hoje a guarda lê ali o de Domiciano, um imperador cujo nome foi apagado das inscrições depois de morrer. Na ponte há também uma cópia desta coluna, ao lado da outra.

Muito antes de o rio a devolver, a inscrição dos dez povos já andava nos livros. Em 1609, Frei Bernardo de Brito copiou as duas inscrições para a Monarchia Lusytana. Traduziu a da ponte: os moradores de Chaves, «de seu proprio dinheiro», mandaram fazer aquela ponte. Na dos dez povos, leu que as dez cidades «concorrerão no edificio desta ponte».

Essa é a leitura de Brito. A pedra não o diz. A inscrição dos dez povos parece ter ficado por acabar, e o motivo não se conservou. Já se pensou numa obra pública, na concessão do direito latino àqueles povos, na própria ponte. Não há consenso. Dez povos puseram o nome numa coluna, e o porquê não chegou até nós.
A coluna que o rio devolveu está hoje no Museu da Região Flaviense. Tem as duas marcas: em cima, o nome raspado onde o museu lê Domiciano; em baixo, a dos ganchos que a tiraram do Tâmega.
Fontes17 referências
- Antonio Rodríguez Colmenero et al., Miliarios e outras inscricións viarias romanas do Noroeste hispánico, Santiago de Compostela, Consello da Cultura Galega, 2004, n.º 85. traianvs.net
- Diana Fonseca Sorribas, «El municipium romano de Aquae Flaviae y su problemática», Antesteria 1 (2012), pp. 519 a 528. ucm.es
- Carmen Cardelle de Hartmann, Philologische Studien zur Chronik des Hydatius von Chaves, Estugarda, 1994. epub.ub.uni-muenchen.de
- Frei Bernardo de Brito, Segunda parte da Monarchia Lusytana (1.ª ed. 1609), exemplar de 1690, pp. 67 e 76, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
- Museu da Região Flaviense, «Padrão dos Povos», peça do mês, janeiro de 2010. museudaregiaoflaviense.blogspot.com
- Património Cultural, «Ponte romana e as duas colunas comemorativas nela colocadas, do tempo dos imperadores Vespasiano e Trajano». imovel.patrimoniocultural.gov.pt
- Museu das Termas Romanas de Chaves, «A História» e «O Achado». museutermasromanaschaves.pt · museutermasromanaschaves.pt
- «Museu das Termas Romanas abre para contar 2000 anos de história em Chaves», RTP/Lusa, dezembro de 2021. rtp.pt
- «Chaves mostra balneário onde os romanos tratavam doenças e feridas», TSF, 21 de dezembro de 2021. tsf.pt
- «Chaves: Escavações no Balneário Romano», Notícias de Arqueologia, 27 de março de 2008. noticiasdearqueologia.blogs.sapo.pt
- «Ponte Romana apenas para peões», A Voz de Trás-os-Montes, 21 de agosto de 2008. avozdetrasosmontes.pt
- «Chaves decide em referendo a reabertura ao trânsito da ponte romana», TVI/Lusa, 13 de setembro de 2020. tvi.iol.pt
- «Ponte romana de Chaves vai manter-se pedonal», Jornal de Notícias, 14 de setembro de 2020. jn.pt
- «Referendo que manteve ponte romana de Chaves pedonal "corrigiu erro democrático"», Público, 14 de setembro de 2020. publico.pt
- «Chaves dividida entre norte e sul do Tâmega em referendo pela passagem de trânsito na ponte romana», Observador, 10 de setembro de 2020. observador.pt
- «Coluna da Ponte Romana de Chaves», Vitrúvio entre o Nadir e o Zénite, 3 de maio de 2016 (com a tradução de Ribeiro de Carvalho, Chaves Antiga, 1929). vitruvius.blogs.sapo.pt
- Wikipédia: «Padrão dos Povos», «Monarquia Lusitana», «Hydatius». pt.wikipedia.org · pt.wikipedia.org · en.wikipedia.org