Ao fim da tarde de 17 de abril de 1963, uma carga de explosivos abriu uma fenda na rocha, numa pedreira de mármore alentejana. Dois homens entraram por ela com um petromax. Os olhos tardaram a habituar-se. O que estalou debaixo dos pés eram esqueletos.

Eram o encarregado da pedreira, Valentim Fernandes, e o ajudante, Olímpio Graxinha. Estavam sozinhos naquele momento, por razões de segurança, e a cena chegou até nós porque o arqueólogo António Carlos Silva, que estudou a gruta e escreveu um livro sobre ela, foi recolhê-la e contá-la. A pedreira ficava na Herdade da Sala, freguesia de Santiago do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora.

Do outro lado daquela fenda estava a única gruta conhecida em Portugal com arte rupestre paleolítica no seu interior. E ninguém tinha entrado lá desde o final da pré-história.

Guarde essa segunda parte, porque é dela que depende tudo o que vem a seguir. Em junho de 2026, as paredes daquela gruta deram uma coisa que quase nunca resulta: ADN humano antigo. Isso levanta a pergunta óbvia, e é a ela que este texto vai responder: como é que alguém pode dizer que ADN encontrado numa parede é antigo, e não de um visitante do mês passado?

A notícia que chegou a Lisboa pelo jornal da manhã

No dia seguinte à explosão, a 18 de abril, muita gente da aldeia foi ver o buraco. «O eco vai até longe», conta António Carlos Silva. «Causou algum espanto local.»

E é aqui que a história faz uma coisa que hoje seria impossível. Nesse dia, terá ido também o sapateiro da aldeia, como os outros. E o sapateiro telefonou ao Diário de Notícias e deu a notícia. Saiu na edição de 19.

Vale a pena reparar em quem tem nome nesta história e quem não tem. O encarregado da pedreira tem. O ajudante tem. O diretor do museu tem, o assistente que veio de Lisboa tem, o repórter que assinou a primeira página de 1964 tem. O homem que fez o telefonema que pôs tudo isto em marcha é, em todas as fontes que lemos, «o sapateiro da aldeia».

Manuel Heleno era, na altura, o diretor do museu nacional de arqueologia, então denominado Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcellos, e era também catedrático na Faculdade de Letras. Leu o jornal da manhã no gabinete, em Lisboa. Segundo António Carlos Silva, terá percebido logo do que provavelmente se tratava: uma necrópole neolítica. E porquê? Porque, explica o mesmo arqueólogo, no Alentejo aquilo não era vulgar, mas em toda a Estremadura as grutas eram abundantes e conhecidas desde o século XIX, e o que normalmente as distinguia era terem sido usadas como necrópoles no Neolítico.

Heleno chamou o seu assistente, Manuel Farinha dos Santos. Farinha dos Santos teve de arranjar uma viatura, pediu apoio a um arqueólogo amador dinamarquês que vivia em Portugal havia anos e que costumava dar esse tipo de ajuda, e chegou ao Escoural pela uma da tarde, ainda no dia 19. Antes de partir, contactou a GNR local para fazer a proteção da gruta.

Dois dias entre a carga e o arqueólogo. E o caminho que a informação percorreu foi este: um encarregado de pedreira, um sapateiro, um telefonema, um jornal, um diretor de museu a ler o jornal da manhã no gabinete.

A 25 de outubro de 1963, seis meses depois da explosão, o Estado classificou a estação como Monumento Nacional.

Há cerca de cinquenta mil anos, grupos de neandertais usaram a gruta como abrigo temporário e como base de apoio à caça de grandes mamíferos. Não foram os únicos: a análise dos ossos de coelho desse nível não encontrou uma única marca de consumo humano, mas encontrou vestígios abundantes de pequenos carnívoros, sobretudo linces. Isso pode indicar, escrevem os autores, uma alternância entre neandertais e carnívoros no uso da gruta. Ilustração.
FIG. 02Há cerca de cinquenta mil anos, grupos de neandertais usaram a gruta como abrigo temporário e como base de apoio à caça de grandes mamíferos. Não foram os únicos: a análise dos ossos de coelho desse nível não encontrou uma única marca de consumo humano, mas encontrou vestígios abundantes de pequenos carnívoros, sobretudo linces. Isso pode indicar, escrevem os autores, uma alternância entre neandertais e carnívoros no uso da gruta. Ilustração.

O que estava lá dentro, por ordem de chegada

A gruta é uma cavidade natural aberta em mármores cristalinos do Alentejo Central. É o único sistema cársico conhecido no Alentejo interior, o que é meio caminho andado para explicar tudo o que se segue: numa região sem grutas, aquela era a gruta.

Desenvolve-se por vários níveis, em dezenas de salas, galerias e corredores, parcialmente obstruídos por espessas concreções. O mapeamento tridimensional deu-lhe cerca de 350 metros.

Há cerca de cinquenta mil anos, no Paleolítico Médio, grupos de caçadores-recoletores neandertais usaram-na como abrigo temporário e como base de apoio para a caça de grandes mamíferos.

Sobre essa fase há um trabalho de 2024, assinado por Lucía Cobo-Sánchez, Anna Rufà e João Cascalheira, que faz uma coisa fina: analisa os ossos de coelho. Os coelhos aparecem por todo o lado nos sítios do Plistocénico ibérico, e a questão é sempre a mesma. Quem os matou? Foram comidos por pessoas, ou trazidos para ali por predadores?

A resposta, no Escoural, foi inequívoca num sentido e nada óbvia no outro. Nenhuma marca de consumo humano. Em contrapartida, atividade abundante de pequenos carnívoros terrestres, sobretudo linces. Os autores escrevem que isso pode indicar uma sucessão de ocupações alternadas, de neandertais e de carnívoros, e que a atividade neandertal estaria provavelmente relacionada com outra coisa que não comer coelho. Não sabemos com quê. O que os ossos de coelho sugerem é que aquela gruta terá mudado de dono mais do que uma vez, e que os outros donos eram linces.

Muito mais tarde, já com humanos modernos, alguém pintou e gravou aquelas paredes.

Quantos anos tem a arte do Escoural

Aqui é preciso ser honesto, porque a resposta simples não existe.

A arte é do Paleolítico Superior. Sobre isso não há discussão. Sobre o resto há, e as fontes que consultámos dão intervalos que não se sobrepõem bem:

- os Roteiros Arqueológicos do Alentejo, da Universidade de Évora, situam a segunda ocupação da gruta entre 35 000 e 8 000 a.C.; - uma ficha de divulgação de património atribui à arte «balizas cronológicas situadas grosso modo entre os 25 000 e os 12 000 anos a.C.»; - o arqueólogo Carlos Carpetudo, da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, disse ao Diário de Notícias em 2022, com prudência: «Arte com pelo menos dez mil anos»; - e um artigo científico de 2021 sobre a conservação das paredes escreve que as obras datam de «up to 50 000 B.P.», número que corresponde à ocupação do Paleolítico Médio e não à arte. Não o usámos em lado nenhum.

Ilustração sobre a maneira como uma incisão destas se apresenta a quem entra numa gruta, e NÃO a reprodução de um painel concreto do Escoural. O Escoural é, até hoje, a única gruta conhecida em Portugal com arte rupestre paleolítica no seu interior: cavalos e bovídeos gravados e pintados nas paredes, e ainda sinais geométricos de leitura bem mais difícil. É arte do Paleolítico Superior, com mais de dez mil anos, e identificá-la exige esforço — sem guia, é praticamente impossível encontrar as figuras.
FIG. 03Ilustração sobre a maneira como uma incisão destas se apresenta a quem entra numa gruta, e NÃO a reprodução de um painel concreto do Escoural. O Escoural é, até hoje, a única gruta conhecida em Portugal com arte rupestre paleolítica no seu interior: cavalos e bovídeos gravados e pintados nas paredes, e ainda sinais geométricos de leitura bem mais difícil. É arte do Paleolítico Superior, com mais de dez mil anos, e identificá-la exige esforço — sem guia, é praticamente impossível encontrar as figuras.

Perante isto, a regra da casa é não escolher. Escrevemos o que é verdadeiro sob todas as leituras: arte do Paleolítico Superior, com mais de dez mil anos. Quem lhe quiser pôr um número está a escolher uma fonte, e não somos nós que a escolhemos por si.

O que se vê lá dentro, isso é consensual. Dois grandes conjuntos: motivos de animais, com destaque para cavalos e bovídeos, e sinais geométricos abstratos, de interpretação bem mais complexa. O cavalo de um dos núcleos de gravuras é a imagem de marca do sítio. Identificar as figuras, diz quem lá entra, exige esforço, e sem guia é praticamente impossível.

O arqueólogo António Martinho Baptista, que trabalhou nos dois sítios, escreveu um capítulo em que faz a ligação entre a arte do Escoural e as gravuras do vale do Côa, e a conclusão é direta: os criadores rupestres em ambos os contextos «eram afinal os mesmos». A ponte entre o Alentejo e o Douro não é nossa, é dele. (Já aqui contámos a história das gravuras do Côa e do tempo que o país levou a acreditar no que estava desenhado naquelas pedras.)

Cento e nove pessoas

Depois, no Neolítico, a gruta passou a cemitério. Comunidades de agricultores e pastores começaram a depositar ali os seus mortos.

Lá dentro estavam os restos de pelo menos cento e nove indivíduos: quarenta e dois imaturos, sessenta e sete maturos. A expressão técnica é «número mínimo de indivíduos», e o «mínimo» não é modéstia: quando os ossos estão misturados, partidos e espalhados, como estavam, o que se consegue apurar é um limite inferior, nunca o total.

Convém perceber o que aquelas cento e nove pessoas valem, porque é aqui que esta gruta deixa de ser uma curiosidade local.

A região entre Montemor-o-Novo e Évora é, escrevem os investigadores, a mais rica do país em arquitetura megalítica. É a terra do Cromeleque dos Almendres, da Anta Grande do Zambujeiro, da Anta-Capela de São Brissos, do Cromeleque da Portela de Mogos. Centenas de monumentos. E, escrevem os investigadores, a maior parte deles não conservou restos humanos, porque os solos graníticos da região são ácidos e a acidez desfez os ossos. Acrescente-se que boa parte daqueles monumentos foi escavada no século XIX e no princípio do século XX com métodos que, notam os mesmos autores, não eram os mais adequados, sobretudo no que toca à recolha e ao registo dos materiais.

Ou seja: temos a região mais rica do país em arquitetura megalítica e quase nenhum dos seus construtores. Sobrou a gruta, que é de mármore e não de granito. (Não é a primeira vez que a pedra portuguesa fica com gente que a terra não reteve: também o crânio humano da Aroeira saiu de um sistema cársico, o do Almonda, e já aqui contámos essa história.)

Por causa das afinidades culturais entre a necrópole da gruta e os monumentos à volta, os investigadores admitem que as mesmas pessoas usaram uma e construíram os outros, e concluem, com a reserva que a frase merece, que o Escoural parece ser a melhor hipótese de chegar a um conhecimento biocultural mais completo daqueles construtores de megálitos, que de outro modo continuam por conhecer. As antas ficaram com a arquitetura. A gruta ficou com as pessoas.

E as pessoas foram interrogadas. Em 2023, uma equipa coordenada por Raquel Granja, com Ana Cristina Araújo, Ana Maria Silva, David Gonçalves e outros, publicou na Scientific Reports um trabalho que se serve de uma técnica relativamente nova: a análise de péptidos da amelogenina no esmalte dos dentes, que permite estimar o sexo mesmo em crianças e mesmo em coleções desordenadas, e que os seus autores descrevem como fiável, rápida, barata e minimamente destrutiva, ao contrário da análise de ADN antigo.

Já no Neolítico, comunidades de agricultores e pastores começaram a depositar ali os seus mortos. Lá dentro estavam os restos de pelo menos cento e nove pessoas: quarenta e dois indivíduos imaturos e sessenta e sete maturos. «Número mínimo de indivíduos» é o termo técnico, e o mínimo não é modéstia — com os ossos misturados, partidos e espalhados, o que se apura é um limite inferior. Cena ilustrativa, não o registo de um enterramento em particular.
FIG. 04Já no Neolítico, comunidades de agricultores e pastores começaram a depositar ali os seus mortos. Lá dentro estavam os restos de pelo menos cento e nove pessoas: quarenta e dois indivíduos imaturos e sessenta e sete maturos. «Número mínimo de indivíduos» é o termo técnico, e o mínimo não é modéstia — com os ossos misturados, partidos e espalhados, o que se apura é um limite inferior. Cena ilustrativa, não o registo de um enterramento em particular.

Analisaram trinta e seis caninos definitivos esquerdos. E o resultado foi:

0,5 para 1, masculino para feminino. Duas mulheres por cada homem.

A razão natural de sexos de uma população humana anda entre 0,95 e 1,02 para 1. Os autores escrevem que a diferença se deverá, provavelmente, a fatores culturais. Não dizem quais. Ninguém sabe quais. O que aquele número diz é que quem foi enterrado naquela gruta foi enterrado segundo um critério, e que o critério não era «toda a gente».

Os mesmos dentes trouxeram outra coisa. Uma frequência alta de hipoplasias lineares do esmalte: interrupções visíveis na formação do esmalte, que ficam gravadas no dente e nunca mais se apagam, porque a coroa de um dente não se remodela. Não havia diferenças significativas entre sexos. E a idade média de início dessas interrupções foi por volta dos três anos, possivelmente ligada, escrevem os autores, ao processo de desmame.

Há ainda um resultado que interessa sobretudo a quem faz este trabalho, e que vale a pena registar porque é raro ver alguém pôr o seu próprio método à prova em público. A equipa comparou a estimativa de sexo feita pela medida do dente com a estimativa feita pelos péptidos, que é a boa. A medição do dente acertou em 80% dos casos. E errou num sentido só: muitos homens foram erradamente classificados como mulheres.

A gruta fecha-se

E depois a gruta fechou-se.

Foi no final da pré-história, e não se sabe se o fecho foi natural, se intencional. As duas fontes que temos dizem-no por escrito, sem rodeios: «não se sabendo, contudo, se de forma intencional ou natural», escreve a Universidade de Évora; «ainda não sabemos exatamente por que razão», diz Carlos Carpetudo, «não sabemos se terá sido uma razão natural, se terá sido intencional».

Sobre a época, também há divergência. O estudo internacional de 2026 escreve que o sítio esteve acessível apenas até ao Calcolítico; as fontes portuguesas falam do final do Neolítico, ou do Neolítico Médio, há cerca de cinco mil anos. Escrevemos «no final da pré-história», que é verdadeiro sob as duas leituras.

O que se sabe é que as pessoas não foram embora do sítio. Por cima, no topo do cerro onde fica a entrada, instalou-se um povoado fortificado calcolítico, assente sobre gravuras neolíticas ao ar livre, e ainda hoje lá está uma pequena muralha a prová-lo. O arqueólogo Rui Mataloto, que ali trabalhou, resume o essencial: «O monumento não é só a gruta, é também o espaço por cima da gruta.»

A entrada natural, essa, ficava no extremo oposto ao acesso que hoje se usa. Foi entretanto desobstruída, mas está no fundo de um fosso e não é visitável. Era junto a ela, e através dela, que tudo acontecia.

Em 2023, uma equipa analisou os péptidos do esmalte de trinta e seis caninos definitivos daquelas pessoas. Os mesmos dentes mostraram uma frequência alta de hipoplasias lineares do esmalte: interrupções visíveis na formação do esmalte, que ficam gravadas no dente e nunca mais se apagam. A idade média de início foi por volta dos três anos, possivelmente relacionada, escrevem os autores, com o processo de desmame. Ilustração.
FIG. 05Em 2023, uma equipa analisou os péptidos do esmalte de trinta e seis caninos definitivos daquelas pessoas. Os mesmos dentes mostraram uma frequência alta de hipoplasias lineares do esmalte: interrupções visíveis na formação do esmalte, que ficam gravadas no dente e nunca mais se apagam. A idade média de início foi por volta dos três anos, possivelmente relacionada, escrevem os autores, com o processo de desmame. Ilustração.

Depois disso, nada. Durante milénios, nada.

Junho de 2026: cinquenta e quatro amostras, um painel

Uma equipa internacional, com cientistas de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Reino Unido e China, publicou na Nature Communications um trabalho que ataca uma pergunta que a arqueologia andava a fazer havia muito e a que ainda não tinha conseguido responder: será que a arte rupestre guarda ADN de quem a fez?

A intuição é boa. Se um motivo foi soprado sobre a parede, com a boca ou com um osso oco a servir de aerógrafo, levou saliva com ele. E a saliva é uma fonte riquíssima de ADN. O único caso publicado antes deste, há quase três décadas, tinha recuperado ADN de ungulado em pinturas do Texas, atribuído aos aglutinantes orgânicos do pigmento, e não foi possível replicá-lo em estudos posteriores.

Foram recolhidas cinquenta e quatro amostras em vinte e quatro painéis de arte rupestre, distribuídos por onze grutas da Península Ibérica. Traços lineares, pontos, triângulos, manchas, discos soprados, grandes claviformes, mãos em negativo. Quase tudo feito com ocre vermelho. Recolheram também amostras de parede sem pigmento, ao lado, para servirem de controlo, e ainda a diáfise de um osso de ave da gruta de Altamira, revestida de ocre por dentro, que terá servido de aerógrafo.

O resultado é este, e vale a pena lê-lo devagar, porque é o contrário de um anúncio triunfal:

De vinte e quatro painéis pintados, um deu resultado. Um só: uma crosta de calcite pigmentada do Painel 11 da Gruta do Escoural. O osso-aerógrafo de Altamira não deu nada. A conclusão que os autores tiram do seu próprio trabalho é sóbria: as superfícies pigmentadas «raramente retêm ADN suficiente para ser detetado ao fim de milhares de anos». (O artigo está em inglês; as citações que dele se fazem neste texto são tradução nossa.)

Ao todo, contando as amostras de parede não pigmentada, cinco amostras deram ADN humano antigo autêntico. Duas na gruta de Covarón, nas Astúrias. E três no Escoural: a crosta pigmentada do Painel 11 e duas amostras de parede nua recolhidas junto ao Painel 64.

Como é que se sabe que aquilo é antigo

Duas perguntas diferentes andam aqui misturadas, e é preciso separá-las: como é que se sabe que aquele ADN é antigo, e como é que se sabe que veio de uma pessoa a tocar na parede, e não do chão.

À primeira responde a química. O ADN antigo degrada-se de uma maneira característica: as citosinas nas pontas das moléculas convertem-se em timinas, e a frequência dessa conversão é uma assinatura que o ADN moderno não tem. As amostras do Escoural têm-na, e têm-na com significância estatística mesmo depois de se descontar a contaminação por ADN humano atual, que nestas coisas é habitualmente alta.

Duas das amostras do Escoural traziam ADN humano antigo e nenhum ADN animal detetável. É a ausência que faz a prova: se aquele material tivesse chegado à parede pelo chão, teria trazido o chão com ele. Os autores leem-na como o indício de que a origem mais provável foi o contacto humano direto com a pedra — um toque, um roçar, a deposição de fluidos do corpo. Os mesmos autores escrevem que não conseguem ligar esse ADN a quem fez a arte. Ilustração, sobre parede sem pintura.
FIG. 06Duas das amostras do Escoural traziam ADN humano antigo e nenhum ADN animal detetável. É a ausência que faz a prova: se aquele material tivesse chegado à parede pelo chão, teria trazido o chão com ele. Os autores leem-na como o indício de que a origem mais provável foi o contacto humano direto com a pedra — um toque, um roçar, a deposição de fluidos do corpo. Os mesmos autores escrevem que não conseguem ligar esse ADN a quem fez a arte. Ilustração, sobre parede sem pintura.

A segunda é mais bonita, e é o raciocínio mais fino do artigo.

Nos sedimentos de uma gruta, quando aparece ADN humano, aparece quase sempre misturado com ADN de outros mamíferos. A razão é simples e um pouco humilhante: os outros animais deixam muito mais rasto genético no ambiente do que nós. É assim em todos os estudos de sedimentos que o procuraram. É assim também nas estalagmites, que incorporam ADN ambiental enquanto crescem, e onde aparece fauna e não aparecem pessoas.

Ora, duas das amostras do Escoural, a crosta pigmentada do Painel 11 e uma das amostras de parede nua, continham ADN humano e nenhum ADN animal detetável. Nenhum. Numa gruta onde os ossos de animais não faltam.

É a ausência que faz a prova. Se aquele ADN tivesse chegado à parede pelo chão, teria trazido o chão com ele. Não trouxe. Os autores concluem que a explicação mais provável é contacto humano direto com a parede: alguém que tocou, que se encostou, que roçou, ou que ali deixou fluidos do corpo.

(As outras três amostras positivas, incluindo uma do Escoural, tinham ADN humano e animal, e essas os autores leem como deposição indireta, provavelmente por transferência de sedimento: gente que tocou no chão e depois na parede enquanto se movia pela gruta, ou água a percolar.)

Falta a idade. E a idade vem de onde não se esperaria: não de um laboratório, mas do historial do sítio.

A comparação das taxas de desaminação com um conjunto de 185 amostras de ADN antigo já publicadas dá uma idade mínima de milhares de anos para a generalidade das amostras do estudo, «embora continue compatível com idades muito maiores». Foi essa baliza, obtida por química e aplicada às amostras dos dois países, que deu o título ao despacho noticioso que circulou em Portugal. É a mais fraca das duas, e não é a que se aplica ao Escoural.

Porque para o Escoural os autores acrescentam uma segunda baliza, e escrevem-na assim (traduzimos): o historial do sítio fornece outra baliza para a idade mínima do ADN humano recuperado das paredes do Escoural, indicando que tem pelo menos quatro a cinco mil anos. O sítio esteve acessível apenas até ao Calcolítico, tendo permanecido selado depois disso e só voltando a ser aberto em 1963, em resultado de trabalhos de pedreira.

É esta a frase. A carga explosiva de 17 de abril de 1963 é o que torna a datação possível. Não por ter revelado a gruta, mas por fixar a data exata em que aquele isolamento acabou. Entre o fecho, no final da pré-história, e aquela tarde, ninguém passou por ali para deixar ADN. Aquela gruta é um dos raros sítios arqueológicos onde é possível dizer, com precisão de um dia, quando é que alguém voltou a entrar.

O que os autores não podem dizer

E agora a parte que os títulos não dão, e que os autores escrevem com todas as letras.

Em junho de 2026, uma equipa internacional publicou na revista Nature Communications a análise de cinquenta e quatro amostras recolhidas em vinte e quatro painéis de arte rupestre de onze grutas da Península Ibérica. Cinco amostras de parede deram ADN humano antigo autêntico, e três delas são do Escoural. O trabalho nasceu do projeto First-Art, e a equipa portuguesa é do Instituto Terra e Memória, em Mação, e do Instituto Politécnico de Tomar. Ilustração: a figura é genérica e não representa nenhum investigador em particular.
FIG. 07Em junho de 2026, uma equipa internacional publicou na revista Nature Communications a análise de cinquenta e quatro amostras recolhidas em vinte e quatro painéis de arte rupestre de onze grutas da Península Ibérica. Cinco amostras de parede deram ADN humano antigo autêntico, e três delas são do Escoural. O trabalho nasceu do projeto First-Art, e a equipa portuguesa é do Instituto Terra e Memória, em Mação, e do Instituto Politécnico de Tomar. Ilustração: a figura é genérica e não representa nenhum investigador em particular.

Não conseguem ligar aquele ADN a quem fez a arte. Em princípio, escrevem, o ADN recuperado da arte rupestre do Escoural poderia estar associado, direta ou indiretamente, ao indivíduo ou indivíduos envolvidos na sua criação, por exemplo através da preparação ou da aplicação do pigmento. Mas, na ausência de datações precisas para a deposição do pigmento e para a deposição do ADN, «continua a ser possível que a deposição de um e de outro tenha ocorrido com milhares ou dezenas de milhares de anos de intervalo».

E acrescentam o argumento que os desfavorece: o facto de terem detetado ADN humano, e nenhum ADN animal, numa amostra sem pigmento mostra que o contacto humano sem qualquer relação com a produção artística também deposita ADN antigo nas paredes de uma gruta.

Para se estabelecer a ligação, dizem, seria preciso mostrar que o ADN das zonas pintadas difere consistentemente do das zonas não pintadas: na quantidade, na probabilidade de recuperação, ou nas afinidades genéticas com populações do passado. Tentaram fazê-lo: voltaram àquela crosta do Painel 11 e à crosta pigmentada contígua, até perfazerem dezassete subamostras analisadas daquele painel, e embeberam um fragmento em resina para poderem furar separadamente as partes pigmentadas e as não pigmentadas. Não recuperaram mais nenhum ADN humano antigo. Sugerem os autores que o sinal inicial estaria confinado a uma pequena área, e não distribuído pela crosta.

Há um último pormenor, e é preciso dá-lo com as reservas com que vem. Uma das amostras do Escoural, a de parede nua e sem fauna, tem uma razão de cobertura entre cromossomas sexuais e autossomas compatível com uma origem predominantemente masculina. «Predominantemente» e «compatível com» são palavras dos autores e ficam onde estão. A amostra da arte, essa, não deu dados suficientes sequer para determinar o sexo.

Uma arqueologia dos gestos

O trabalho nasceu do projeto First-Art, coordenado por Hipólito Collado, investigador do Instituto Terra e Memória e do Centro de Geociências, cofinanciado pelo programa de cooperação transfronteiriça entre Portugal e Espanha, e alargado à análise genética em colaboração com o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. A equipa portuguesa é do Instituto Terra e Memória, em Mação, e do Instituto Politécnico de Tomar, e integra os investigadores Sara Garcês, Luiz Oosterbeek, Hugo Gomes, Pierluigi Rosina e Virginia Lattao.

«Foi uma enorme felicidade e também uma surpresa perceber que esta descoberta aconteceu precisamente na Gruta do Escoural», disse Sara Garcês à Lusa. «Com esta descoberta, sabemos hoje que a Gruta do Escoural, que talvez não seja tão conhecida do público geral quando comparada com muitas grutas em Espanha, esconde verdadeiros tesouros que continuam a espantar a comunidade científica internacional.»

E depois a frase que resume melhor do que qualquer outra o que mudou:

> «Passamos da arqueologia dos objetos para uma arqueologia dos gestos e dos seus significados. (…) Estes indivíduos deixavam marcas que iam muito além do desenho: deixavam a sua própria biologia impressa na pedra.»

Os autores fazem notar que a consequência maior disto talvez nem seja para a arte rupestre. Se as paredes de uma gruta guardam ADN, então é possível estudar quem ocupou grutas sem arte e sem escavar o chão: que populações lá estiveram, até que profundidade se meteram, se as atividades se concentravam nalguns pontos, se envolviam pessoas de um sexo em particular.

A gruta hoje

A gruta continua a ser escavada. A equipa da Universidade do Algarve, com João Cascalheira, trabalha hoje ao ar livre, num terreno que já esteve dentro da gruta: o teto abateu algures nos últimos vinte mil anos.

É isto o que resta de uma pequena pedreira de mármore da Herdade da Sala, no cerro por cima da gruta: blocos soltos com as marcas das brocas ainda a descer pelas faces cortadas, hoje tomados pelo mato. Segundo a descrição do autor da fotografia, é esta a pedreira cuja explosão abriu inesperadamente a Gruta do Escoural, a 17 de abril de 1963. A estação foi classificada como Monumento Nacional a 25 de outubro do mesmo ano, seis meses depois. Pintura a partir de uma fotografia real do local — fotografia de referência de José Miguel Soares, 2013, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
FIG. 08É isto o que resta de uma pequena pedreira de mármore da Herdade da Sala, no cerro por cima da gruta: blocos soltos com as marcas das brocas ainda a descer pelas faces cortadas, hoje tomados pelo mato. Segundo a descrição do autor da fotografia, é esta a pedreira cuja explosão abriu inesperadamente a Gruta do Escoural, a 17 de abril de 1963. A estação foi classificada como Monumento Nacional a 25 de outubro do mesmo ano, seis meses depois. Pintura a partir de uma fotografia real do local — fotografia de referência de José Miguel Soares, 2013, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

As figuras estão a alterar-se. Um programa de monitorização de longa duração, conduzido a partir da Universidade de Évora, tem vindo a estudar as comunidades microbianas que colonizam a rocha e a maneira como as condições ambientais e essa colonização degradam as representações. É por isso, e pela fragilidade do equilíbrio microclimático, que as visitas são condicionadas: grupos de dez pessoas no máximo, cerca de quarenta minutos, e só com marcação prévia no Centro Interpretativo, na vila de Santiago do Escoural.

Fica ainda uma coisa por dizer. A herdade onde tudo isto se passa chama-se Herdade da Sala. E «sala», no Alentejo, quer dizer gruta. António Carlos Silva levanta a hipótese de o topónimo guardar, por transmissão oral, a memória da própria cavidade, e desarma-a ele próprio na frase seguinte, notando que ali nas imediações há minas do século XIX, e outras ainda mais antigas, e que a «sala» pode muito bem ser uma galeria de mina e não a gruta. Um topónimo que quer dizer gruta, numa herdade onde havia uma gruta que ninguém sabia que existia, e um arqueólogo a lembrar que ali também se abriram minas.

Uma porta aberta sem querer

Tudo o que este texto conta começou numa tarde de trabalho numa pedreira.

O que a pedreira fez foi abrir uma porta que estava fechada havia milénios, e fê-lo sem saber. Foi assim que se chegou a quase tudo o que hoje sabemos daquele sítio: por acidente, e depois com muito trabalho.

Duas das amostras do Escoural saíram de parede sem pintura, ao lado de um painel, num troço de rocha onde não há nada para ver. Alguém encostou ali o corpo à pedra, pelo menos quatro ou cinco mil anos antes de dois homens voltarem a entrar com um petromax na mão. Daquele bocado de rocha sem nada para ver ficou-nos uma pessoa.

Fontes

Bibliografia científica (toda em acesso aberto)

- Alba BOSSOMS MESA, Elena ESSEL, Louisa JÁUREGUI et al., «Investigating ancient human DNA preservation on cave walls and in rock art», Nature Communications, 2026. O artigo em que este texto assenta, lido na íntegra: metodologia, resultados, discussão e limitações. - Raquel GRANJA, Ana Cristina ARAÚJO, Federico LUGLI, Sara SILVESTRINI, Ana Maria SILVA e David GONÇALVES, «Unbalanced sex-ratio in the Neolithic individuals from the Escoural Cave (Montemor-o-Novo, Portugal) revealed by peptide analysis», Scientific Reports, vol. 13, 2023. A razão de sexos, as hipoplasias do esmalte, o número mínimo de indivíduos e a explicação de por que razão esta gruta é excecional no Alentejo interior. - Lucía COBO-SÁNCHEZ, Anna RUFÀ e João CASCALHEIRA, «Alternating carnivore and Neanderthal activities at Escoural Cave: insights from the taphonomic and machine learning analysis of leporid remains», Frontiers in Environmental Archaeology, 2024. Os coelhos, os linces e a alternância. - Ana Teresa CALDEIRA, Nick SCHIAVON, Guilhem MAURAN et al., «On the Biodiversity and Biodeteriogenic Activity of Microbial Communities Present in the Hypogenic Environment of the Escoural Cave, Alentejo, Portugal», Coatings, vol. 11, 2021. A degradação das figuras e o programa de monitorização. - Guillermo ALZATE-CASALLAS, Ana GOMES, Nolan FERAR et al., «Close to sunlight or deep underground? New data to reconstruct site formation processes at the Middle Paleolithic Escoural cave (southern Portugal)», Quaternary Science Reviews, 2025. Citado apenas através do artigo da Nature Communications, que dele retira a datação de urânio-tório usada como termo de comparação; não conseguimos aceder ao texto integral. - Ana Cristina ARAÚJO, César NEVES, Rita PEYROTEO-STJERNA et al., «Funerary activity in the Escoural Cave, Portugal. Did it all start in the Early Neolithic?», 2025. Citado como prova de que a cronologia do uso funerário está em discussão aberta, razão pela qual não a fixámos.

Institucional e imprensa

- Museu Nacional de Arqueologia, «Gruta do Escoural, 60 Anos»: a data da descoberta, Manuel Heleno e o envio de Manuel Farinha dos Santos. - Roteiros Arqueológicos do Alentejo, Universidade de Évora, ficha da Gruta do Escoural: as três ocupações, a data da classificação como Monumento Nacional e as condições de visita. - Cultura Portugal, Ministério da Cultura, ficha da Gruta do Escoural. - Decreto n.º 45327, de 25 de outubro de 1963, que classifica a estação arqueológica da Herdade da Sala. - Diário de Notícias, 24 de setembro de 2022, reportagem de Leonídio Ferreira, com os arqueólogos António Carlos Silva, Carlos Carpetudo e Rui Mataloto no local. A fonte narrativa mais completa que encontrámos sobre 1963, e a origem de quase todas as citações deste texto. - Diário de Notícias, primeira página de 20 de julho de 1964, reportagem de João Salvado, citada pelo próprio jornal em 2022: «pela primeira vez em Portugal descobriram-se pinturas rupestres». - PÚBLICO, 9 de junho de 2025, texto de Lucinda Canelas e fotografia de Daniel Rocha. - Agência Lusa, 24 e 25 de junho de 2026, com as declarações de Sara Garcês, publicadas pelo Observador, pela RTP e por outros. - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, julho de 2026, sobre o cofinanciamento do projeto First-Art.

Notas de honestidade

- Não escrevemos que o ADN é de quem fez a arte, porque os autores dizem que não o podem afirmar. É a leitura para que os títulos puxam e é exatamente aquela que o artigo recusa. Ver a secção «O que os autores não podem dizer». - Não usámos a idade que deu o título às notícias em Portugal. É a mais fraca das duas balizas do próprio artigo, obtida por química e aplicada a todas as amostras dos dois países. Para o Escoural os autores dão uma segunda baliza, a partir do historial do sítio, e é essa que usámos: pelo menos quatro a cinco mil anos. - Não demos um número para a idade da arte. As fontes que lemos dão quatro intervalos diferentes, um dos quais confunde a arte com a ocupação. Escrevemos «Paleolítico Superior» e «mais de dez mil anos», que é verdadeiro em qualquer das leituras. - Não dissemos quando exatamente a gruta se fechou, nem porquê. As fontes divergem entre o Calcolítico e o final do Neolítico, e todas as que lemos dizem que se desconhece se o fecho foi natural ou intencional. - O apelido do segundo trabalhador aparece grafado de duas maneiras. O PÚBLICO escreve «Olímpio Graxinha»; o Diário de Notícias escreve «Olímpio Graixinha», e dá o primeiro nome completo como «Valentim Domingos Fernandes». Adotámos a grafia do PÚBLICO, por ser a mais recente, e registamos aqui a divergência. - A cena da entrada com o petromax e dos esqueletos a estalar tem uma fonte só: o relato do arqueólogo António Carlos Silva ao Diário de Notícias. Por isso a atribuímos a ele no corpo do texto, logo a seguir, em vez de a contarmos como facto apurado por nós. - As cento e nove pessoas são um número mínimo, não uma contagem. Com ossos misturados e partidos, o que se apura é um limite inferior. - Um nome que circula associado a esta gruta e que não usámos: uma página de divulgação atribui o reconhecimento científico do sítio a um arqueólogo francês célebre que, na verdade, tinha morrido dois anos antes da descoberta. Não o mencionámos por isso.