Ao fim da tarde de 17 de abril de 1963, uma carga de explosivos abriu uma fenda na rocha, numa pedreira de mármore alentejana. Dois homens entraram por ela com um petromax. Os olhos tardaram a habituar-se. O que estalou debaixo dos pés eram esqueletos.
Eram o encarregado da pedreira, Valentim Fernandes, e o ajudante, Olímpio Graxinha. Estavam sozinhos, por razões de segurança, e a cena chegou até nós porque o arqueólogo António Carlos Silva a foi recolher e contar. A pedreira ficava na Herdade da Sala, em Santiago do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo.
No dia seguinte, meia aldeia foi ver. E foi o sapateiro do Escoural quem telefonou ao Diário de Notícias; a notícia saiu na edição de 19. Os dois homens da pedreira têm nome nas fontes; o sapateiro, esse, não tem.

Do outro lado daquela fenda estava a única gruta conhecida em Portugal com arte rupestre paleolítica no seu interior. E ninguém tinha entrado lá desde o final da pré-história.
Guarde essa segunda parte. Vai ser precisa lá para o fim.

Porque em junho de 2026 uma equipa internacional publicou na revista Nature Communications uma coisa que quase nunca resulta: ADN humano antigo tirado da parede de uma gruta. O trabalho nasceu do projeto First-Art, e a equipa portuguesa é do Instituto Terra e Memória, em Mação, e do Instituto Politécnico de Tomar. E é o Escoural que está no centro do resultado.
Primeiro, o que aquela gruta guardava, por ordem de chegada.

Há cerca de cinquenta mil anos, grupos de neandertais usaram-na como abrigo temporário e como base para caçar grandes mamíferos. Não foram os únicos: um estudo de 2024 sobre os ossos de coelho desse nível não encontrou uma única marca de consumo humano, mas encontrou vestígios abundantes de pequenos carnívoros, sobretudo linces. Isso pode indicar, escrevem os autores, que a gruta foi mudando de dono, entre neandertais e carnívoros.
Muito mais tarde, já com humanos modernos, alguém pintou e gravou aquelas paredes. É arte do Paleolítico Superior, com mais de dez mil anos: cavalos e bovídeos traçados na rocha, uns bem visíveis, outros que, sem guia, é praticamente impossível encontrar, e ainda sinais geométricos de leitura bem mais difícil. O arqueólogo António Martinho Baptista, que estudou os dois sítios, escreveu que os criadores rupestres do Escoural e do vale do Côa eram afinal os mesmos. Já aqui contámos a história das gravuras do Côa.

E depois, no Neolítico, a gruta passou a cemitério. Lá dentro estavam os restos de pelo menos cento e nove pessoas: quarenta e dois indivíduos imaturos, sessenta e sete maturos.
Convém perceber o que aquelas cento e nove valem. A região entre Montemor-o-Novo e Évora é, escrevem os investigadores, a mais rica do país em arquitetura megalítica: é a terra do Cromeleque dos Almendres e da Anta Grande do Zambujeiro. Mas os solos são graníticos e ácidos, e a acidez destruiu os restos humanos na maior parte desses monumentos. Sobrou a gruta, que é de mármore. É por isso que os investigadores tratam o Escoural como a melhor hipótese de conhecer biologicamente os construtores dos megálitos da região: as antas ficaram com a arquitetura, a gruta ficou com as pessoas.

Em 2023, uma equipa analisou os péptidos do esmalte de trinta e seis caninos daquelas pessoas. A razão de sexos deu 0,5 para 1, masculino para feminino, quando a razão natural de uma população humana anda entre 0,95 e 1,02 para 1. Duas mulheres por cada homem. Os autores escrevem que a diferença se deverá, provavelmente, a fatores culturais. Não dizem quais, e ninguém sabe. O que o número diz é que ali se enterrava segundo um critério, e que o critério não era toda a gente.
E depois a gruta fechou-se.

Foi no final da pré-história, e não se sabe se o fecho foi natural, se intencional. É assim mesmo que o escreve quem estuda a gruta. Por cima, no topo do cerro, instalou-se um povoado fortificado calcolítico, sobre gravuras neolíticas ao ar livre: as pessoas continuaram na colina depois de a gruta se ter fechado. Cá fora, a vida seguiu. Lá dentro, nada. Durante milénios, nada.
Chegamos a junho de 2026.

A equipa recolheu cinquenta e quatro amostras em vinte e quatro painéis de arte rupestre, distribuídos por onze grutas da Península Ibérica. De vinte e quatro painéis pintados, um deu resultado. Um só, e é o Painel 11 do Escoural. A conclusão que os autores tiram do seu próprio trabalho é sóbria: as superfícies pigmentadas raramente retêm ADN suficiente para ser detetado ao fim de milhares de anos.
Ao todo, contando também com amostras de parede nua, cinco amostras deram ADN humano antigo autêntico. Dessas cinco, três são do Escoural.
E duas dessas três, a do painel pintado e uma das de parede nua, traziam ADN humano e nenhum ADN animal detetável. Isso é mais estranho do que parece. Nos sedimentos de uma gruta, o ADN humano aparece quase sempre misturado com o de outros mamíferos, porque as outras espécies deixam muito mais rasto no ambiente do que nós. Se aquele material tivesse chegado à parede pelo chão, teria trazido o chão com ele. Não trouxe. É a ausência que faz a prova: os autores leem-na como o indício de que a origem mais provável daquele material foi o contacto humano direto com a pedra. Um toque, um roçar, a deposição de fluidos do corpo.
Falta dizer o que eles não podem dizer, e dizem-no também: não conseguem ligar aquele ADN a quem fez a arte. Sem uma datação precisa do pigmento e do material genético, escrevem, a deposição de um e de outro pode estar separada por milhares ou por dezenas de milhares de anos.
Conseguem, isso sim, dizer que é antigo. E é aqui que volta a segunda parte.
Para fixar uma idade mínima àquele ADN, os autores não foram ao laboratório: foram à história do sítio. Entre o fecho, no final da pré-história, e a carga de 1963, ninguém entrou naquela gruta. Não há visitantes recentes para contaminar aquela parede, porque não houve visitantes. É esse o argumento, escrito com todas as letras, para dizer que o ADN das paredes do Escoural tem pelo menos quatro a cinco mil anos. A carga que abriu a gruta é o que torna possível datar aquele ADN.
«Passamos da arqueologia dos objetos para uma arqueologia dos gestos e dos seus significados», resumiu à Lusa a arqueóloga Sara Garcês. «Estes indivíduos deixavam marcas que iam muito além do desenho: deixavam a sua própria biologia impressa na pedra.»
Duas das amostras do Escoural saíram de parede sem pintura, ao lado de um painel, num troço de rocha onde não há nada para ver. Alguém encostou ali o corpo à pedra, pelo menos quatro ou cinco mil anos antes de dois homens voltarem a entrar com um petromax na mão. Daquele bocado de rocha sem nada para ver ficou-nos uma pessoa.
Fontes15 referências
Bibliografia científica (toda em acesso aberto)
- Alba BOSSOMS MESA, Elena ESSEL, Louisa JÁUREGUI et al., «Investigating ancient human DNA preservation on cave walls and in rock art», Nature Communications, 2026. O artigo em que a história assenta: metodologia, resultados, discussão e limitações.
- Raquel GRANJA, Ana Cristina ARAÚJO, Federico LUGLI, Sara SILVESTRINI, Ana Maria SILVA e David GONÇALVES, «Unbalanced sex-ratio in the Neolithic individuals from the Escoural Cave (Montemor-o-Novo, Portugal) revealed by peptide analysis», Scientific Reports, vol. 13, 2023. A razão de sexos, as hipoplasias do esmalte, o número mínimo de indivíduos e a explicação de por que razão esta gruta é excecional no Alentejo interior.
- Lucía COBO-SÁNCHEZ, Anna RUFÀ e João CASCALHEIRA, «Alternating carnivore and Neanderthal activities at Escoural Cave: insights from the taphonomic and machine learning analysis of leporid remains», Frontiers in Environmental Archaeology, 2024. Os coelhos, os linces e a alternância.
- Ana Teresa CALDEIRA, Nick SCHIAVON, Guilhem MAURAN et al., «On the Biodiversity and Biodeteriogenic Activity of Microbial Communities Present in the Hypogenic Environment of the Escoural Cave, Alentejo, Portugal», Coatings, vol. 11, 2021. A degradação das figuras e o programa de monitorização.
- Guillermo ALZATE-CASALLAS, Ana GOMES, Nolan FERAR et al., «Close to sunlight or deep underground? New data to reconstruct site formation processes at the Middle Paleolithic Escoural cave (southern Portugal)», Quaternary Science Reviews, 2025. Citado apenas através do artigo da Nature Communications, que dele retira a datação de urânio-tório usada como termo de comparação.
- Ana Cristina ARAÚJO, César NEVES, Rita PEYROTEO-STJERNA et al., «Funerary activity in the Escoural Cave, Portugal. Did it all start in the Early Neolithic?», 2025. Citado como prova de que a cronologia do uso funerário está em discussão aberta, razão pela qual não a fixámos.
Institucional e imprensa
- Museu Nacional de Arqueologia, «Gruta do Escoural, 60 Anos»: a data da descoberta, Manuel Heleno e o envio de Manuel Farinha dos Santos.
- Roteiros Arqueológicos do Alentejo, Universidade de Évora, ficha da Gruta do Escoural: as três ocupações, a data da classificação como Monumento Nacional e as condições de visita.
- Cultura Portugal, Ministério da Cultura, ficha da Gruta do Escoural.
- Decreto n.º 45327, de 25 de outubro de 1963, que classifica a estação arqueológica da Herdade da Sala.
- Diário de Notícias, 24 de setembro de 2022, reportagem de Leonídio Ferreira, com os arqueólogos António Carlos Silva, Carlos Carpetudo e Rui Mataloto no local. A fonte narrativa mais completa sobre 1963, e a origem de quase todas as citações.
- Diário de Notícias, primeira página de 20 de julho de 1964, reportagem de João Salvado, citada pelo próprio jornal em 2022: «pela primeira vez em Portugal descobriram-se pinturas rupestres».
- PÚBLICO, 9 de junho de 2025, texto de Lucinda Canelas e fotografia de Daniel Rocha.
- Agência Lusa, 24 e 25 de junho de 2026, com as declarações de Sara Garcês, publicadas pelo Observador, pela RTP e por outros.
- Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, julho de 2026, sobre o cofinanciamento do projeto First-Art.
