Descobrimentos · episódio 1
Em Ceuta, no dia em que os portugueses tomaram a cidade, as ruas ficaram cobertas de especiarias. Tão cobertas, escreveu o cronista Zurara, como o chão ficava de junco nos dias das grandes festas.

Conta ele que muitos dos primeiros homens da armada a entrar nas lojas dos mercadores da rua direita davam com as lâminas nos sacos das especiarias e rasgavam-nos todos, de modo que tudo ia parar ao chão. A multidão passava por cima. E, «com o fervor do sol, que era grande», as especiarias pisadas davam «depois de si mui grande odor». O mel e o azeite das jarras desfeitas corriam pela rua como a água nas caleiras quando chove.

Depois, conta ainda Zurara, veio o arrependimento. A cobiça do que se tinha perdido pôs os mesmos homens a andar pelas ruas a apanhar do chão pedaços de canela e grãos de pimenta. Durante os treze dias em que o rei ali ficou, as ruas nunca estiveram sem essa gente humilde, e era tanta que mal se conseguia passar.

Era 21 de agosto de 1415, e a cidade caiu num só dia de combate. D. João I tinha saído de Lisboa no fim de julho com os filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Levava perto de duas centenas de navios e uns vinte mil homens, segundo a estimativa do historiador João Gouveia Monteiro. O destino foi segredo até Lagos: só aí, já em viagem, os homens da armada souberam para onde iam.

E o que fazia tanta canela numa cidade do outro lado do Estreito?

Ceuta era uma cidade de passagem. Tinha mais de sete séculos de vida no mundo islâmico e estava no ponto onde se cruzavam duas grandes rotas do Norte de África: a que subia da África subsariana, com ouro, escravos e corantes, e a que vinha do Egito com os produtos do Oriente, a seda e as especiarias. O historiador Vitorino Magalhães Godinho situa em Fez e em Ceuta, entre outras cidades, os mercadores que atravessavam o Sara com as caravanas do ouro. Junto ao porto, conta Zurara, havia umas casas a que chamavam a aduana: ali se descarregavam as mercadorias vindas de fora, e ali pousavam genoveses.

O saque começou logo nas primeiras horas. Os homens da armada espalharam-se pelas ruas e mataram muitos habitantes; os que sobreviveram, e com eles o grosso da população, saíram pela porta de Fez e não voltaram. Quantos morreram, Zurara não sabia. Uns diziam cinco mil, outros dez mil, outros dois mil, e ele recusou escolher: «não queremos determinadamente escrever nenhum deles». Deu também a razão: num dia assim, quem vence tem mais cuidado em apanhar os despojos do que em contar os mortos.

E escrevia tarde. A crónica é de cerca de 1450, trinta e cinco anos depois, e o próprio Zurara admite que, quando se pôs a escrevê-la, a maior parte dos que lá tinham estado já tinha morrido.
Houve outro livro sobre as mesmas ruas, escrito do outro lado. Um homem de Ceuta, Muhammad ibn al-Qasim al-Ansari, acabou-o sete anos depois da conquista, a 23 de fevereiro de 1422. É uma descrição da sua cidade, capítulo a capítulo: os cemitérios, as mesquitas, as bibliotecas, as ruas, os banhos, os mercados, as lojas, as estalagens de mercadores, as fontes, os moinhos, as portas, os portos. O historiador Virgilio Martínez Enamorado, que a estudou, tem-na pela descrição urbana mais completa de todo o Ocidente islâmico medieval. Al-Ansari fechou-a pedindo a Deus que a cidade voltasse a ser como antes. O manuscrito é único, e está hoje em Rabat.
A riqueza de Ceuta, afinal, estava no caminho que lá ia dar, e o caminho não vinha agarrado às muralhas. As caravanas deixaram de acabar ali, escrevem os historiadores, e a praça passou a depender do que lhe mandava o reino.
Os historiadores ainda discutem porque foi D. João I a Ceuta: o ouro, o cereal de Marrocos, a cruzada, uma nobreza sem guerra depois da paz com Castela, o domínio do Estreito, a pirataria. Gouveia Monteiro lembra o que a cidade deixou: houve uma Casa de Ceuta em Lisboa antes de haver uma Casa da Índia, e uma carreira de Ceuta antes da carreira da Índia. Houve, escreve, uma geração inteira a ir e vir pelo Estreito para manter uma praça contestada do outro lado do mar. Chama-lhe uma escola.
Setenta e dois anos depois de Ceuta, em 1487, D. João II mandou dois homens saber do Preste João e descobrir onde se achava a canela, e as outras especiarias que chegavam a Veneza por terras muçulmanas. Um deles era Pêro da Covilhã, o espião de D. João II, cuja viagem já contámos.
Do Cairo, escreveu ao rei que tinha descoberto a canela e a pimenta numa cidade chamada Calecute.
Fontes10 referências
- Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta por el-Rei D. João I, ed. Francisco Maria Esteves Pereira, Lisboa, Academia das Ciências, 1915 (caps. LXXVII, LXXXII e LXXXVII). Internet Archive: archive.org
- João Gouveia Monteiro, «A Campanha Militar de Ceuta (1415) Revisitada», Revista de História da Sociedade e da Cultura, 17, 2017. doi.org
- Edite Martins Alberto, «A conquista de Ceuta: contexto e preparativos», em Expedição a Ceuta, 2015. run.unl.pt
- Vitorino Magalhães Godinho, «O "Mediterrâneo" saariano e as caravanas do ouro (III)», Revista de História, São Paulo, 1956. doi.org
- Francesco Guidi Bruscoli, «Ceuta, the Portuguese and Venice in 1415: a tale of secrets, rumours and an epic enterprise», Ricerche Storiche, XLIX, 2019. flore.unifi.it
- Patrimonio Cultural de Ceuta, «Medina Sebta (709-1415)», com o texto de Virgilio Martínez Enamorado sobre o Ijtisar al-Ajbar de al-Ansari. patrimonioculturalceuta.es
- Público, «O dia em que Portugal deu o salto para o mundo», 21 de agosto de 2015. publico.pt
- Diário de Notícias, «Ceuta foi a única cidade do Império Português que não reconheceu João IV como rei em 1640», 2026. dn.pt
- Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, 1540 (ed. 1889). archive.org
- Teresa Lacerda, «Pêro da Covilhã», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, 2009. eve.fcsh.unl.pt
