Descobrimentos · episódio 1

Em Ceuta, no dia em que os portugueses tomaram a cidade, as ruas ficaram cobertas de especiarias. Tão cobertas, escreveu o cronista Zurara, como o chão ficava de junco nos dias das grandes festas.

Pintura de um homem da armada a cheirar um pedaço de canela nas ruas de Ceuta, em 1415 (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Pintura de um homem da armada a cheirar um pedaço de canela nas ruas de Ceuta, em 1415 (figura genérica, não retrato).

Conta ele que muitos dos primeiros homens da armada a entrar nas lojas dos mercadores da rua direita davam com as lâminas nos sacos das especiarias e rasgavam-nos todos, de modo que tudo ia parar ao chão. A multidão passava por cima. E, «com o fervor do sol, que era grande», as especiarias pisadas davam «depois de si mui grande odor». O mel e o azeite das jarras desfeitas corriam pela rua como a água nas caleiras quando chove.

Pintura da aduana do porto de Ceuta antes da conquista, onde, segundo Zurara, pousavam os genoveses (figuras genéricas).
FIG. 03Pintura da aduana do porto de Ceuta antes da conquista, onde, segundo Zurara, pousavam os genoveses (figuras genéricas).

Depois, conta ainda Zurara, veio o arrependimento. A cobiça do que se tinha perdido pôs os mesmos homens a andar pelas ruas a apanhar do chão pedaços de canela e grãos de pimenta. Durante os treze dias em que o rei ali ficou, as ruas nunca estiveram sem essa gente humilde, e era tanta que mal se conseguia passar.

Ceuta numa gravura publicada em 1572, mais de século e meio depois da conquista; uma nota em latim, gravada junto à muralha, diz que por aquela porta entraram primeiro os portugueses. Georg Braun e Frans Hogenberg, Colónia, 1572 (domínio público; digitalização da Bibliothèque nationale de France).
FIG. 04Ceuta numa gravura publicada em 1572, mais de século e meio depois da conquista; uma nota em latim, gravada junto à muralha, diz que por aquela porta entraram primeiro os portugueses. Georg Braun e Frans Hogenberg, Colónia, 1572 (domínio público; digitalização da Bibliothèque nationale de France).

Era 21 de agosto de 1415, e a cidade caiu num só dia de combate. D. João I tinha saído de Lisboa no fim de julho com os filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Levava perto de duas centenas de navios e uns vinte mil homens, segundo a estimativa do historiador João Gouveia Monteiro. O destino foi segredo até Lagos: só aí, já em viagem, os homens da armada souberam para onde iam.

Pintura da saída dos habitantes de Ceuta pela porta de Fez, a 21 de agosto de 1415 (figuras genéricas).
FIG. 05Pintura da saída dos habitantes de Ceuta pela porta de Fez, a 21 de agosto de 1415 (figuras genéricas).

E o que fazia tanta canela numa cidade do outro lado do Estreito?

Pintura de Zurara a ouvir um antigo soldado, por volta de 1450 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Pintura de Zurara a ouvir um antigo soldado, por volta de 1450 (figuras genéricas, não retratos).

Ceuta era uma cidade de passagem. Tinha mais de sete séculos de vida no mundo islâmico e estava no ponto onde se cruzavam duas grandes rotas do Norte de África: a que subia da África subsariana, com ouro, escravos e corantes, e a que vinha do Egito com os produtos do Oriente, a seda e as especiarias. O historiador Vitorino Magalhães Godinho situa em Fez e em Ceuta, entre outras cidades, os mercadores que atravessavam o Sara com as caravanas do ouro. Junto ao porto, conta Zurara, havia umas casas a que chamavam a aduana: ali se descarregavam as mercadorias vindas de fora, e ali pousavam genoveses.

Pintura de al-Ansari a escrever a descrição de Ceuta, que acabou em 1422 (figura genérica, não retrato).
FIG. 07Pintura de al-Ansari a escrever a descrição de Ceuta, que acabou em 1422 (figura genérica, não retrato).

O saque começou logo nas primeiras horas. Os homens da armada espalharam-se pelas ruas e mataram muitos habitantes; os que sobreviveram, e com eles o grosso da população, saíram pela porta de Fez e não voltaram. Quantos morreram, Zurara não sabia. Uns diziam cinco mil, outros dez mil, outros dois mil, e ele recusou escolher: «não queremos determinadamente escrever nenhum deles». Deu também a razão: num dia assim, quem vence tem mais cuidado em apanhar os despojos do que em contar os mortos.

Pintura da partida de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, em 1487 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 08Pintura da partida de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, em 1487 (figuras genéricas, não retratos).

E escrevia tarde. A crónica é de cerca de 1450, trinta e cinco anos depois, e o próprio Zurara admite que, quando se pôs a escrevê-la, a maior parte dos que lá tinham estado já tinha morrido.

Houve outro livro sobre as mesmas ruas, escrito do outro lado. Um homem de Ceuta, Muhammad ibn al-Qasim al-Ansari, acabou-o sete anos depois da conquista, a 23 de fevereiro de 1422. É uma descrição da sua cidade, capítulo a capítulo: os cemitérios, as mesquitas, as bibliotecas, as ruas, os banhos, os mercados, as lojas, as estalagens de mercadores, as fontes, os moinhos, as portas, os portos. O historiador Virgilio Martínez Enamorado, que a estudou, tem-na pela descrição urbana mais completa de todo o Ocidente islâmico medieval. Al-Ansari fechou-a pedindo a Deus que a cidade voltasse a ser como antes. O manuscrito é único, e está hoje em Rabat.

A riqueza de Ceuta, afinal, estava no caminho que lá ia dar, e o caminho não vinha agarrado às muralhas. As caravanas deixaram de acabar ali, escrevem os historiadores, e a praça passou a depender do que lhe mandava o reino.

Os historiadores ainda discutem porque foi D. João I a Ceuta: o ouro, o cereal de Marrocos, a cruzada, uma nobreza sem guerra depois da paz com Castela, o domínio do Estreito, a pirataria. Gouveia Monteiro lembra o que a cidade deixou: houve uma Casa de Ceuta em Lisboa antes de haver uma Casa da Índia, e uma carreira de Ceuta antes da carreira da Índia. Houve, escreve, uma geração inteira a ir e vir pelo Estreito para manter uma praça contestada do outro lado do mar. Chama-lhe uma escola.

Setenta e dois anos depois de Ceuta, em 1487, D. João II mandou dois homens saber do Preste João e descobrir onde se achava a canela, e as outras especiarias que chegavam a Veneza por terras muçulmanas. Um deles era Pêro da Covilhã, o espião de D. João II, cuja viagem já contámos.

Do Cairo, escreveu ao rei que tinha descoberto a canela e a pimenta numa cidade chamada Calecute.

Fontes10 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta por el-Rei D. João I, ed. Francisco Maria Esteves Pereira, Lisboa, Academia das Ciências, 1915 (caps. LXXVII, LXXXII e LXXXVII). Internet Archive: archive.org
  • João Gouveia Monteiro, «A Campanha Militar de Ceuta (1415) Revisitada», Revista de História da Sociedade e da Cultura, 17, 2017. doi.org
  • Edite Martins Alberto, «A conquista de Ceuta: contexto e preparativos», em Expedição a Ceuta, 2015. run.unl.pt
  • Vitorino Magalhães Godinho, «O "Mediterrâneo" saariano e as caravanas do ouro (III)», Revista de História, São Paulo, 1956. doi.org
  • Francesco Guidi Bruscoli, «Ceuta, the Portuguese and Venice in 1415: a tale of secrets, rumours and an epic enterprise», Ricerche Storiche, XLIX, 2019. flore.unifi.it
  • Patrimonio Cultural de Ceuta, «Medina Sebta (709-1415)», com o texto de Virgilio Martínez Enamorado sobre o Ijtisar al-Ajbar de al-Ansari. patrimonioculturalceuta.es
  • Público, «O dia em que Portugal deu o salto para o mundo», 21 de agosto de 2015. publico.pt
  • Diário de Notícias, «Ceuta foi a única cidade do Império Português que não reconheceu João IV como rei em 1640», 2026. dn.pt
  • Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, 1540 (ed. 1889). archive.org
  • Teresa Lacerda, «Pêro da Covilhã», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, 2009. eve.fcsh.unl.pt