Rafael Bordalo Pinheiro, o caricaturista que criou o Zé Povinho, levou para o Rio de Janeiro uma jarra de faiança com mais de dois metros e rifou-a. Quando saiu o número premiado, o bilhete não tinha sido vendido. A jarra tinha o rosto de Beethoven num medalhão e as primeiras notas de um quarteto dele numa partitura de faiança, e fora feita para a sala de música de um amigo, no Ribatejo. O amigo recusou-a: era grande demais para a sala.

Conta-o o Museu Bordalo Pinheiro, que guarda um recibo de rifas assinado pelo artista, de agosto de 1899. O Rio não lhe era estranho: entre 1875 e 1879, Bordalo vivera lá e desenhara caricaturas para os jornais da cidade. Antes do Rio houve Lisboa, e antes de Lisboa houve uma fábrica inteira, nas Caldas da Rainha.

Rafael Bordalo Pinheiro, desenho original de Columbano Bordalo Pinheiro, 1885. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)
FIG. 02Rafael Bordalo Pinheiro, desenho original de Columbano Bordalo Pinheiro, 1885. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)

A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha foi decidida em 1883, numa reunião em casa do próprio Rafael, em Lisboa, e nasceu com acionistas, como sociedade anónima. A gerência coube ao irmão, Feliciano, coronel de artilharia; a Rafael, os estatutos davam por vinte anos a direção artística e o ordenado mais alto da casa. Previam até, logo que houvesse meios, escola para os operários e para os filhos deles.

Evocação pintada de um melómano diante de uma jarra grande demais para a sala de música, numa casa do Ribatejo em 1895 (figura genérica, não retrato; a jarra pintada não é a jarra real).
FIG. 03Evocação pintada de um melómano diante de uma jarra grande demais para a sala de música, numa casa do Ribatejo em 1895 (figura genérica, não retrato; a jarra pintada não é a jarra real).

As Caldas tinham uma velha tradição de olaria, e o Museu Bordalo Pinheiro fala do «exímio saber-fazer dos oleiros caldenses». A louça decorativa, entregue a Rafael, começou a sair em junho de 1885. Entre abril desse ano e janeiro de 1888, Rafael criou mais de quatrocentos modelos novos, a que operários e aprendizes davam forma segundo as orientações e as instruções dele. O Comércio do Porto falou da «febre que se apossou do artista». Já em fevereiro de 1886, a primeira exposição da fábrica, em Lisboa, foi elogiada pelo público e pela crítica.

Evocação pintada do sorteio de uma rifa numa loja do Rio de Janeiro, em 1899 (figuras genéricas, não retratos; a jarra pintada não é a jarra real).
FIG. 04Evocação pintada do sorteio de uma rifa numa loja do Rio de Janeiro, em 1899 (figuras genéricas, não retratos; a jarra pintada não é a jarra real).

O dinheiro é que não acompanhava. Muitos acionistas não pagaram as ações que tinham subscrito. Para levar a fábrica à Exposição Universal de Paris de 1889, a empresa pediu dezoito contos emprestados. Em Paris, a louça das Caldas foi um êxito e choveram encomendas. Muitas nunca seguiram: faltava o dinheiro para as fornadas, escreveu Fialho de Almeida.

Evocação pintada de operários a modelar uma peça monumental numa fábrica de faiança, em 1892 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Evocação pintada de operários a modelar uma peça monumental numa fábrica de faiança, em 1892 (figuras genéricas, não retratos).

Em fevereiro de 1891, a fábrica suspendeu os trabalhos e despediu os operários. Dos cento e cinquenta que lá trabalhavam em 1888, ficariam umas quatro dezenas, segundo o historiador João B. Serra. Os acionistas debandaram, escreveu Fialho de Almeida. Rafael assumiu toda a direção da fábrica.

Evocação pintada de uma montra do Rio de Janeiro com uma jarra monumental, em 1899 (figuras genéricas, não retratos; a jarra pintada não é a jarra real).
FIG. 06Evocação pintada de uma montra do Rio de Janeiro com uma jarra monumental, em 1899 (figuras genéricas, não retratos; a jarra pintada não é a jarra real).

Foi então que as peças cresceram. A fábrica deixou a louça de todos os dias e passou a fazer azulejo por encomenda e faiança artística. Irisalva Moita, citada por Serra, vê nesta fase peças que os homens do ofício tomaram por «verdadeiros atrevimentos pelas suas proporções arrojadas». Conta Matilde Tamagnini que, num momento especialmente crítico, os operários pediram a Bordalo que lhes desenhasse uma peça que eles pudessem fazer e vender, repartindo entre si o que rendesse. Dessa encomenda dos próprios operários terá nascido a Talha Manuelina, uma peça monumental, com os retratos do infante D. Henrique e de Camões e duas cenas com caravelas. Pertence hoje ao Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.

Evocação pintada de um salão de música num palácio do Rio de Janeiro, por volta de 1900; sem pessoas (a jarra pintada não é a jarra real).
FIG. 07Evocação pintada de um salão de música num palácio do Rio de Janeiro, por volta de 1900; sem pessoas (a jarra pintada não é a jarra real).

A jarra veio depois. Em 1895, José Relvas, amigo de Bordalo, proprietário ribatejano e melómano, encomendou-lhe uma peça para a sala de música da sua Casa dos Patudos, em Alpiarça. Rafael fez-lhe a jarra dedicada a Beethoven: à volta do medalhão e da partitura com as primeiras notas do Quarteto opus 18 n.º 4, um quarteto de cordas a tocar, figuras da Harmonia e da Melodia e, lá no alto, a Fama. Quando chegou a Alpiarça, pareceu enorme para uma sala de casa, escreve a historiadora Marize Malta. Relvas recusou-a por ser grande demais, e Bordalo cumpriu a encomenda com uma versão pequena.

Pormenor de um título de ação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, litografia de Lisboa, 30 de junho de 1884. (Wikimedia Commons, domínio público)
FIG. 08Pormenor de um título de ação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, litografia de Lisboa, 30 de junho de 1884. (Wikimedia Commons, domínio público)

Em 1898, a jarra grande esteve exposta em Lisboa, no Teatro D. Amélia, com o preço de cinco contos de réis. «Admirada por todos», escreveu Sousa Viterbo no Diário de Notícias, «não encontrou todavia quem fizesse d'ella acquisição.» O objeto, explicava, «era superior ás exigencias e aos recursos do mercado». No mesmo artigo, Viterbo dizia que tinha diante de si uma carta de Bordalo a comunicar-lhe a resolução de fechar a fábrica e despedir os operários. Os aplausos e a glória, escreveu, «não lhe ajudavam a pagar a feria», a paga semanal dos operários.

A Jarra Beethoven sobre o pedestal de madeira escura, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. (Fotografia de Dornicke, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)
FIG. 09A Jarra Beethoven sobre o pedestal de madeira escura, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. (Fotografia de Dornicke, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)

E deixou registada a ideia de um admirador, que lha disse diante da jarra: comprá-la por subscrição nacional, com seis ou doze mil subscritores «em Portugal e no Brasil», a mil réis ou a quinhentos réis cada um, e oferecê-la «ao Museu de Bellas Artes». A jarra continuou sem comprador.

No fim de maio de 1899, Bordalo chegou ao Rio com a jarra e outras faianças. A exposição abriu em julho, na rua do Ouvidor. Também ali ninguém a comprou. Bordalo fez então uma rifa, e o número premiado saiu num bilhete por vender. Trazê-la de volta custaria caro e daria trabalho, e a jarra ficou no Brasil.

Em meados de setembro de 1899, quando Rafael voltou às Caldas, esperavam-no mais de mil pessoas, segundo O Círculo das Caldas. Não trazia com que reanimar a fábrica. Morreu em Lisboa em 1905. Em 1908, o filho, Manuel Gustavo, abriu nas Caldas uma fábrica nova com os antigos operários do pai, segundo João B. Serra.

A jarra está hoje no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde entrou em 1939. Antes disso, passara pelo Palácio do Catete, então sede da Presidência da República, e pelo Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.

No Catete, a primeira dessas casas, conta o Museu Bordalo Pinheiro, destinaram-lhe a sala de música.

Fontes11 referências
  • João B. Serra, «Arte e indústria na transição para o século XX: a fábrica dos Bordalos», Análise Social, vol. XXIV (100), 1988, pp. 275-311: revistas.rcaap.pt
  • Marize Malta, «A incrível história da jarra Beethoven: percursos e sentidos de uma imagem-problema», ANPUH, XXV Simpósio Nacional de História, Fortaleza, 2009: anpuh.org.br
  • Marize Malta, «Jarra Beethoven e a incrível história de uma imagem-problema», ArtCultura, vol. 12, n.º 20, 2010, pp. 135-150: seer.ufu.br
  • Sousa Viterbo, «A fabrica de louça de Bordallo Pinheiro» (Diário de Notícias, 26 de outubro de 1898), em Cem artigos de jornal, Lisboa, 1912, pp. 11-13 (Biblioteca Nacional de Portugal, BNDigital): bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Museu Bordalo Pinheiro, «Um sonho. Bordalo e a Fábrica de Faianças» (exposição e folha de sala, 2019): museubordalopinheiro.pt
  • Museu Bordalo Pinheiro, «Brasil de Bordalo»: museubordalopinheiro.pt
  • Museu Bordalo Pinheiro, fichas «Jarra Beethoven e Rafael Bordalo Pinheiro», «Bilhete» e «Talha “Manuelina”»: museubordalopinheiro.pt · museubordalopinheiro.pt · museubordalopinheiro.pt
  • Museu Bordalo Pinheiro, «Cerâmica»: museubordalopinheiro.pt
  • Instituto Camões, «Rafael Bordalo Pinheiro», Figuras da Cultura Portuguesa: instituto-camoes.pt
  • Gazeta das Caldas, «Caldas e Museu Bordalo Pinheiro querem trazer Jarra Beethoven», 2021: gazetadascaldas.pt
  • Público, «O génio de Rafael é ainda o segredo da longevidade da Bordallo Pinheiro», 2018: publico.pt