Num cruzeiro de granito de Barcelos há um homem pendurado numa corda e, por baixo dele, um santo que lhe segura os pés. Por cima, lavrado na mesma pedra, um galo virado para uma forca de verdade, que ficava a oitenta e tantos passos.

Em 1960, alguém de fora do concelho quis registar o galo de barro. Para o impedir, a Câmara de Barcelos invocou a lenda desse galo de pedra.

Evocação pintada de uma feira minhota: bonecos de barro, apitos e pequenos galos vermelhos, como os «galos vermelhos e primitivos» de que fala uma carta de 1931.
FIG. 02Evocação pintada de uma feira minhota: bonecos de barro, apitos e pequenos galos vermelhos, como os «galos vermelhos e primitivos» de que fala uma carta de 1931.

O cruzeiro já estava de pé em 1867. O galo de barro, com a cara que hoje tem, é do século XX. A lenda, como hoje se conta, fala de um peregrino galego condenado à forca, que apontou para o galo assado na mesa do juiz e jurou que ele havia de cantar quando o enforcassem. E o galo, diz a lenda, cantou.

Evocação pintada de uma olaria de Galegos Santa Maria: um galo grande tinha de ser oco e tirado à roda de oleiro, porque o barro maciço estala no forno.
FIG. 03Evocação pintada de uma olaria de Galegos Santa Maria: um galo grande tinha de ser oco e tirado à roda de oleiro, porque o barro maciço estala no forno.

Galos de barro, pequenos, havia-os de longa data nas feiras de Barcelos. No figurado da região, antes dos anos trinta do século passado, as peças eram quase todas brinquedos com apito, e poucas passavam dos quinze ou vinte centímetros. Um galo grande era outra coisa: tinha de ser oco e tirado à roda de oleiro, porque o barro maciço estala no forno. É da roda que lhe vem o corpo redondo que ainda hoje tem.

Evocação pintada do «moderno galo de Barcelos», mais esguio, de crista e cauda serrilhadas, que o Jornal de Barcelos, em novembro de 1957, atribuía ao pintor Gonçalves Torres.
FIG. 04Evocação pintada do «moderno galo de Barcelos», mais esguio, de crista e cauda serrilhadas, que o Jornal de Barcelos, em novembro de 1957, atribuía ao pintor Gonçalves Torres.

Em setembro de 1931, António Ferro organizou em Portugal o V Congresso Internacional da Crítica, e a comissão decidiu oferecer aos congressistas estrangeiros figuras de barro do Norte. Numa carta de 15 de setembro diz-se o que se tinha em mente: «bonecos decorativos que só se vendem nas feiras, bois, galos vermelhos e primitivos». E havia uns grandes, «muito curiosos».

Evocação pintada de barristas a pintar galos de fundo negro e corações vermelhos, tirados dos bordados e da ourivesaria do Minho, na segunda metade dos anos cinquenta.
FIG. 05Evocação pintada de barristas a pintar galos de fundo negro e corações vermelhos, tirados dos bordados e da ourivesaria do Minho, na segunda metade dos anos cinquenta.

Os galos feitos à roda têm, em Barcelos, um nome de família. Em Galegos Santa Maria, freguesia do concelho, a família e a Câmara atribuem os primeiros ao oleiro Domingos Côto. A atribuição não é unânime. Depois dele, fizeram-nos a filha, Rosa Côta, e o genro, Eduardo Ferreira Sousa. A neta, a barrista Júlia Côta, lembrava-se dos primeiros galos do avô: «eram feitos à roda, mas eram muito pequeninos e mal feitos». O pai dela já os fazia com metro e meio de altura.

Evocação pintada de 1960: a Câmara de Barcelos escreve ao governador civil de Braga para contestar o registo do galo de barro.
FIG. 06Evocação pintada de 1960: a Câmara de Barcelos escreve ao governador civil de Braga para contestar o registo do galo de barro.

Em setembro de 1935, António Ferro, à frente do Secretariado da Propaganda Nacional, levou a Genebra uma exposição de arte popular portuguesa, e Carlos Basto escreveu mais tarde que foi aí a estreia internacional do galo. Em 1940, na Exposição do Mundo Português, a Casa de Barcelos mostrou milhares de peças. Vendeu-se pouco, contou João Macedo Correia, que as preparou, e o que se vendeu foram sobretudo galos. Um dos galos grandes estava marcado com o nome da fábrica do genro, Eduardo Ferreira Sousa. Muitos anos depois, Júlia Côta confirmou que os galos de 1940 saíram da olaria do pai.

Evocação pintada da estrada velha em Barcelinhos, como a descreveram em 1867: o cruzeiro inclinado e, a oitenta e tantos passos, a forca de pedra cujo termo de obra é de 1712. O cruzeiro a partir de uma fotografia real de Maragato1976 (CC BY-SA 4.0).
FIG. 07Evocação pintada da estrada velha em Barcelinhos, como a descreveram em 1867: o cruzeiro inclinado e, a oitenta e tantos passos, a forca de pedra cujo termo de obra é de 1712. O cruzeiro a partir de uma fotografia real de Maragato1976 (CC BY-SA 4.0).

Faltava-lhe ainda a cara que hoje tem. Em novembro de 1957, um artigo do Jornal de Barcelos contava que, «há tempos», o pintor Gonçalves Torres se tinha metido «a aperaltar este nosso galo» e que lhe saíra das mãos «o moderno galo de Barcelos». Era mais esguio, de crista e cauda serrilhadas. Eram os modernos que mais se vendiam. O artigo fechava assim: «Honra e glória ao Gonçalves Torres, já que dinheiro não ganhou.» Na segunda metade da década chegaram os corações vermelhos, tirados dos bordados e da ourivesaria do Minho. Na primavera de 1959, o mesmo jornal transcrevia um telegrama de Paris: os galos de Barcelos inundavam a cidade.

Página 115 da «Noticia descriptiva da muito nobre e antiga villa de Barcellos», de A. M. do Amaral Ribeiro (1867): a descrição do cruzeiro e a versão impressa mais antiga que se conhece da lenda. (Biblioteca Digital do Cávado, domínio público)
FIG. 08Página 115 da «Noticia descriptiva da muito nobre e antiga villa de Barcellos», de A. M. do Amaral Ribeiro (1867): a descrição do cruzeiro e a versão impressa mais antiga que se conhece da lenda. (Biblioteca Digital do Cávado, domínio público)

Em 1960, o galo tinha um problema de outra espécie. Segundo o levantamento que Francisco Gonçalves e Carlos Costa fizeram nas páginas do Jornal de Barcelos, o presidente da Câmara, Luís Fernandes de Figueiredo, escreveu ao governador civil de Braga porque «alguém estranho a esta circunscrição municipal» pretendia registar a peça na Repartição de Propriedade Industrial. O argumento foi a Lenda do Senhor do Galo, e o governador civil deu-lhe razão.

Evocação pintada de peregrinos no caminho de Santiago, por onde a história do peregrino enforcado e do galo que canta corria havia séculos.
FIG. 09Evocação pintada de peregrinos no caminho de Santiago, por onde a história do peregrino enforcado e do galo que canta corria havia séculos.

Nesse verão, uma «Carta de Lisboa» publicada no mesmo jornal punha o problema ao contrário: «se se sabe quem é o pai do Galo de Barcelos, quem o sabe, fica logo a saber que, como arte popular, a peça é inválida».

Portada da «Noticia descriptiva da muito nobre e antiga villa de Barcellos», de A. M. do Amaral Ribeiro, 2.ª edição, Barcelos, 1867, com o carimbo da Biblioteca de Barcelos. (Biblioteca Digital do Cávado, domínio público)
FIG. 10Portada da «Noticia descriptiva da muito nobre e antiga villa de Barcellos», de A. M. do Amaral Ribeiro, 2.ª edição, Barcelos, 1867, com o carimbo da Biblioteca de Barcelos. (Biblioteca Digital do Cávado, domínio público)

Pela lógica da carta, um galo com pai conhecido deixava de ser arte popular. A Câmara dava-lhe outra ascendência: uma lenda com mais de noventa anos de papel, e uma pedra.

A pedra estava em Barcelinhos, à beira da estrada velha para o Porto. Havia ali uma forca de pedra que a câmara de então mandara fazer, e o termo de arrematação da obra tem a data de 26 de janeiro de 1712. A oitenta e tantos passos, em frente dela, estava o cruzeiro. Em 1867, a pedra do cruzeiro estava bastante inclinada, em risco de cair. Hoje está no Museu Arqueológico de Barcelos.

Nesse ano de 1867, A. M. do Amaral Ribeiro descreveu o cruzeiro na sua notícia da vila e resumiu o que a tradição dizia dele: que lembrava um galego inocente, condenado à forca, que Santiago livrou do patíbulo, ficando bamba a corda, e que, «com mais ou menos versões», tinha cantado um galo assado como prova da inocência do réu. É a versão impressa mais antiga que se conhece. E parou aí: «Não havendo, que nos conste, nada escripto a tal respeito, deixamos de referir o facto com os episodios, que andão na bocca do vulgo.»

No mesmo ano, o padre Domingos Joaquim Pereira, o Abade do Louro, descreveu o mesmo cruzeiro e acrescentou que as forcas já não serviam para nada: nesse ano, Portugal tinha abolido a pena de morte para os crimes civis.

O documento mais antigo que se conhece a juntar o galo de barro a essa lenda é a carta da Câmara de 1960, encontrada por Gonçalves e Costa. João Macedo Correia escreveu, em 1965, que os barristas nem conheciam a lenda. A família de Domingos Côto diz que ele começou a fazer galos a partir dela.

A história corria o caminho de Santiago havia séculos. O milagre do peregrino enforcado e salvo atribui-se a cerca de trinta santos, e o Codex Calixtinus, no século XII, conta-o como acontecido em Toulouse, em 1090, a um peregrino alemão a caminho de Compostela. O galo assado que se levanta e canta junta-se-lhe, segundo Carlos Alberto Ferreira de Almeida, em 1418, quando o senhor de Caumont o ouviu contar em Santo Domingo de la Calzada. Na igreja de Santo Domingo ainda hoje se podem ver um galo e uma galinha vivos, que se diz descenderem do par do milagre. É a mesma história, contada ao longo do caminho, e contada também em Barcelos.

Na lenda, um galo assado canta pela inocência de um homem.

Em 1960, foi o galo de pedra que a Câmara chamou a falar pelo de barro.

Fontes18 referências
  • A. M. do Amaral Ribeiro, Noticia descriptiva da muito nobre e antiga villa de Barcellos, 2.ª edição, Barcelos, E. R. de Sá-Vianna, 1867, Biblioteca Digital do Cávado. aqualibri.cimcavado.pt
  • Domingos Joaquim Pereira, Memoria historica da villa de Barcellos, Barcellinhos e Villa Nova de Famelicão, 1867, Biblioteca Digital do Cávado. aqualibri.cimcavado.pt
  • Domingos Joaquim Pereira, Nova memória histórica antiga e moderna até 1877, manuscrito, Biblioteca Digital do Cávado. aqualibri.cimcavado.pt
  • Candido Augusto Landolt, Tradições populares colhidas no concelho de Barcellos, 1884, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
  • Carta de Lei de 1 de julho de 1867, Arquivo Nacional Torre do Tombo. antt.dglab.gov.pt
  • Francisco Gonçalves e Carlos Costa, «Galo de Barcelos: Património e destino turístico», Revista Turismo & Desenvolvimento 25 (2016), pp. 31 a 44. proa.ua.pt
  • Francisco J. Barbosa Gonçalves e Carlos Costa, «O Contributo da Interpretação do Património para o Desenvolvimento do Turismo Criativo. O Caso do Galo de Barcelos», Revista Portuguesa de Estudos Regionais 52 (2019). review-rper.com
  • Carlos Alberto Ferreira de Almeida, Barcelos, Lisboa, Presença, 1990, pp. 99 e 100, transcrito na página «O Galo de Barcelos» do portal maisBarcelos (arquivo.pt, 2007). arquivo.pt
  • João Manuel Mimoso, «Uma história natural do Galo de Barcelos», 2008. inverso.pt
  • Albertino Gonçalves, «O Cruzeiro do Senhor do Galo em Barcelos (revisão)», Tendências do imaginário, 2017. tendimag.com
  • Javier Pérez Escohotado, «El doble portento del gallo y la gallina», Belezos 9 (2009). dialnet.unirioja.es
  • Carla Ribeiro, «O Galo de Barcelos», in Património Cultural Imaterial: 20 anos da Convenção, CIDEHUS, 2025. doi.org
  • Fernando de Castro Pires de Lima, A Lenda do Senhor do Galo de Barcelos e o Milagre do Enforcado, Lisboa, FNAT, 1965 (ficha da Património Cultural, I.P.). loja.patrimoniocultural.gov.pt
  • Ricardo Raimundo, «Galo de Barcelos: símbolo de Portugal desde sempre ou criação do Estado Novo?», excerto de Fact-Checking à História de Portugal, 2025, SAPO. sapo.pt
  • «O milagre do Galo», SOL, 29 de outubro de 2015. sol.iol.pt
  • «Congresso Internacional da Crítica», Modernismo.pt. modernismo.pt
  • Município de Barcelos, «Lendas de Barcelos» e «Barcelos pelas mãos dos mestres». cm-barcelos.pt · barcelospelasmaosdosmestres.barcelos.pt
  • «Manuel Gonçalves Torres», Barcelos Digital. barcelosdigital.blogs.sapo.pt