Os corvos que Lisboa tem na bandeira, nos candeeiros e nas tampas do saneamento estavam escritos antes de a cidade ter o santo. Em 1154, dezanove anos antes de as relíquias de São Vicente chegarem a Lisboa, um geógrafo escreveu que no cimo de uma igreja do cabo de São Vicente havia dez corvos, e que nunca ninguém os vira faltar. Chamava-se al-Idrisi, era muçulmano e trabalhava para o rei normando da Sicília.

Os padres da igreja, acrescentou, contavam deles coisas maravilhosas. Ele não as quis repetir: de quem as repetisse, escreveu, duvidar-se-ia da palavra.

Evocação pintada da igreja do Corvo tal como al-Idrisi a descreve em 1154: uma igreja cristã num promontório sobre o oceano, peregrinos, e no cimo do edifício os corvos que, escreve ele, nunca ninguém viu faltar (dez, segundo o texto; a pintura não os conta). Da igreja nada sobrevive (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 02Evocação pintada da igreja do Corvo tal como al-Idrisi a descreve em 1154: uma igreja cristã num promontório sobre o oceano, peregrinos, e no cimo do edifício os corvos que, escreve ele, nunca ninguém viu faltar (dez, segundo o texto; a pintura não os conta). Da igreja nada sobrevive (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).

Lisboa anda com essas aves por toda a parte. Uma barca negra, um corvo à popa e outro à proa, nas armas da cidade, em fachadas, em bancos de jardim. A explicação que vem com elas é uma viagem por mar, a das relíquias do santo, trazidas do cabo em 1173. Por escrito, os corvos são mais velhos do que essa viagem. No texto mais antigo de Lisboa, nem sequer vêm no barco: voam dentro da Sé. E o número deles nunca esteve quieto.

A passagem de al-Idrisi sobre a igreja do Corvo, na tradução francesa de Dozy e De Goeje (Leiden, 1866): «De là à l'église du Corbeau, 7 milles» e «Sur le faîte de l'édifice sont dix corbeaux; jamais personne ne les a vus manquer» (Internet Archive, domínio público).
FIG. 03A passagem de al-Idrisi sobre a igreja do Corvo, na tradução francesa de Dozy e De Goeje (Leiden, 1866): «De là à l'église du Corbeau, 7 milles» e «Sur le faîte de l'édifice sont dix corbeaux; jamais personne ne les a vus manquer» (Internet Archive, domínio público).

O que al-Idrisi escreve da igreja do Corvo é o retrato de uma casa cristã viva em terra do Islão. Não mudara, diz, desde o tempo do domínio cristão. Tinha terras, porque as almas piedosas costumavam dar-lhas, e recebia presentes dos cristãos que lá iam em peregrinação. Servida por padres e religiosos, possuía grandes tesouros e rendas. E quem passasse por ali não podia seguir caminho sem tomar parte na grande refeição que a igreja dava. Era uma obrigação imutável, escreve, antiga, transmitida de geração em geração.

O extremo do Algarve na carta marítima de Baltasar de Azevedo Coutinho, desenhada entre 1798 e 1807: a ponta de Sagres e o cabo de São Vicente, a costa que al-Idrisi media em milhas até à igreja do Corvo (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 04O extremo do Algarve na carta marítima de Baltasar de Azevedo Coutinho, desenhada entre 1798 e 1807: a ponta de Sagres e o cabo de São Vicente, a costa que al-Idrisi media em milhas até à igreja do Corvo (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Para al-Idrisi, aquele telhado com corvos não era um sítio perdido. Era uma baliza. Quando mede a Península, mede-a «desde a igreja do Corvo», sobre o Oceano, até Port-Vendres, no outro extremo: mil e cem milhas. Uma das pontas da Península, para um geógrafo que escrevia na Sicília, era uma igreja cristã do Algarve.

Um dos mapas do livro que al-Idrisi compôs para Rogério II da Sicília, numa cópia manuscrita medieval, que a Biblioteca Nacional de França data entre 1250 e 1325: o noroeste da Península, desenhado com o sul para cima (Bibliothèque nationale de France, Arabe 2221, Wikimedia Commons, domínio público).
FIG. 05Um dos mapas do livro que al-Idrisi compôs para Rogério II da Sicília, numa cópia manuscrita medieval, que a Biblioteca Nacional de França data entre 1250 e 1325: o noroeste da Península, desenhado com o sul para cima (Bibliothèque nationale de France, Arabe 2221, Wikimedia Commons, domínio público).

Em setembro de 1173, dezanove anos depois daquele livro, uns homens de Lisboa foram por mar buscar as relíquias. Quem o conta é Mestre Estêvão, chantre da Sé, contemporâneo dos acontecimentos, que deixou o relato escrito antes de 1185. Não lhes dá os nomes; diz apenas que iam «movidos por espírito divino». O sítio exato tinham-no indicado dois monges moçárabes que viviam em Lisboa e o tinham aprendido dos seus antecessores. Os homens de Lisboa prepararam navios, acharam o corpo depois de muito trabalho, e o mar daquela costa, que Estêvão diz andar sempre encapelado, manteve-se calmo na volta. Chegaram a Lisboa de noite e levaram as relíquias, em segredo, para a igreja de Santa Justa; de lá seguiram para a Sé.

A Península medida a partir do cabo: al-Idrisi escreve que ela se estende em comprimento «depuis l'église du Corbeau, située sur l'Océan», por mil e cem milhas (tradução de Dozy e De Goeje, Leiden, 1866; Internet Archive, domínio público).
FIG. 06A Península medida a partir do cabo: al-Idrisi escreve que ela se estende em comprimento «depuis l'église du Corbeau, située sur l'Océan», por mil e cem milhas (tradução de Dozy e De Goeje, Leiden, 1866; Internet Archive, domínio público).

E os corvos? No texto de Estêvão não vão no barco. Estão dentro da catedral. Muitos viram, escreve ele, dois corvos a voar sob os arcos e a abóbada da igreja. Há quem troce disso, acrescenta, e ele próprio teria a coisa por inacreditável, se não fosse o corvo que guardou o corpo do mártir.

Evocação pintada da nave da Sé de Lisboa, com o altar-mor de hoje trocado por uma ábside simples: Mestre Estêvão, chantre da Sé, escreve que muitos viram dois corvos a voar sob os arcos e a abóbada da igreja, e que houve quem troçasse disso (a partir de uma fotografia real de Palickap (CC BY-SA 4.0); figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Evocação pintada da nave da Sé de Lisboa, com o altar-mor de hoje trocado por uma ábside simples: Mestre Estêvão, chantre da Sé, escreve que muitos viram dois corvos a voar sob os arcos e a abóbada da igreja, e que houve quem troçasse disso (a partir de uma fotografia real de Palickap (CC BY-SA 4.0); figuras genéricas, não retratos).

Os corvos sobem ao barco noutro relato, guardado num códice da Flandres e atribuído a um arcediago de Lisboa chamado Fernando, com um núcleo escrito antes de 1233. Ali, ao romper do dia, voam sobre o navio e pousam sobre o corpo; de noite, os homens entram na cidade «com os seus corvos», e as aves ficam no telhado da Sé até o corpo ser fechado no túmulo.

Selo de cera do concelho de Lisboa num documento de 1271: lê-se ainda a barca; os corvos, um à popa e outro à proa, quase desapareceram com o desgaste (Arquivo Nacional Torre do Tombo, CC BY 4.0).
FIG. 08Selo de cera do concelho de Lisboa num documento de 1271: lê-se ainda a barca; os corvos, um à popa e outro à proa, quase desapareceram com o desgaste (Arquivo Nacional Torre do Tombo, CC BY 4.0).

Um selo do concelho de Lisboa de 1233, sessenta anos depois da chegada das relíquias, já mostra dois corvos numa barca. Em 1502, no Livro Carmesim, o livro dos regimentos da Câmara que Frei Gonçalo acabou a 30 de agosto, o corpo do santo vai numa nau de quatro mastros, com os dois corvos à proa e à popa. Para o investigador José Manuel Garcia, é a mais antiga nau de quatro mastros que se conhece na pintura portuguesa.

Pintura do cabo de São Vicente a partir da gravura publicada no jornal O Panorama em 1842, com o mosteiro e o pequeno forte que o protegia. Da igreja do Corvo de que falava al-Idrisi nada sobrevive (gravura original de domínio público; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 09Pintura do cabo de São Vicente a partir da gravura publicada no jornal O Panorama em 1842, com o mosteiro e o pequeno forte que o protegia. Da igreja do Corvo de que falava al-Idrisi nada sobrevive (gravura original de domínio público; figuras genéricas, não retratos).

Cada século contou-os à sua maneira. A paixão do mártir, na tradição hispânica, fala de um só corvo, que lhe guardou o corpo, em Valência, das aves e de um lobo. Al-Idrisi escreve dez. Estêvão escreve dois, e o selo de 1233 mostra dois. Num desenho da Câmara de 1572, a tumba do santo é vigiada por um corvo apenas; no frontispício de um livro do tombo, feito depois de 1573, aparecem três.

Evocação pintada do que D. Duarte escreveu no Leal Conselheiro: os velhos da comarca do cabo disseram-lhe que os corvos «som dous, e nunca mais nem menos», e que vinham receber o pão que lhes lançavam como se fossem aves mansas (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 10Evocação pintada do que D. Duarte escreveu no Leal Conselheiro: os velhos da comarca do cabo disseram-lhe que os corvos «som dous, e nunca mais nem menos», e que vinham receber o pão que lhes lançavam como se fossem aves mansas (figuras genéricas, não retratos).

A 28 de fevereiro de 1940, uma portaria publicada no Diário do Governo fixou as armas de Lisboa: barca de negro e prata em campo de ouro, sobre ondas, e dois corvos de negro, afrontados, um à popa e outro à proa. São esses os corvos dos candeeiros e das tampas do saneamento. E a barca com os corvos é quase só nossa. Os editores dos milagres de Mestre Estêvão notam que, em toda a iconografia de São Vicente, o motivo é quase exclusivo das representações portuguesas, e o historiador Miguel Metelo de Seixas descreve a de Portugal como dominada pela nau com os corvos.

Al-Idrisi escrevera dez, que nunca ninguém vira faltar. No século XV, no Leal Conselheiro, o rei D. Duarte deixou escrito que viu os corvos do cabo e que perguntou por eles aos homens mais velhos da comarca. Nunca lhes tinham visto mudança, disseram-lhe, porque «som dous, e nunca mais nem menos». Vinham receber o pão que lhes lançavam, e esperavam «tam seguro e de perto como se fossem aves mansas».

Fontes16 referências
  • al-Idrisi, Description de l'Afrique et de l'Espagne par Edrisi, texto árabe e tradução francesa de R. Dozy e M. J. de Goeje, Leiden, 1866 (archive.org).
  • al-Idrisi, Descripción de España (obra del siglo XII), tradução de A. Blázquez, Madrid (archive.org).
  • E. Saavedra, La Geografía de España del Edrisí, Madrid (archive.org).
  • A. A. Nascimento e S. A. Gomes, «S. Vicente de Lisboa e seus milagres medievais», Didaskalia (edição latina e tradução dos Miracula S. Vincentii de Mestre Estêvão).
  • Isabel Rosa Dias, Culto e memória textual de S. Vicente em Portugal (da Idade Média ao século XVI), tese de doutoramento, Universidade do Algarve (Sapientia); o Apêndice IV transcreve a Relatio flamenga do códice de Bruxelas.
  • Manuel Pedro Ferreira, «São Vicente em Lisboa: dois protagonistas», em Lisboa Medieval: gentes, espaços e poderes (RUN, Universidade Nova de Lisboa).
  • Pedro Picoito, «A Trasladação de S. Vicente. Consenso e conflito na Lisboa do século XII», Medievalista, n.º 4.
  • Theodor Mommsen (ed.), Chronica minora II, Monumenta Germaniae Historica, Historia Pseudo-Isidoriana (archive.org).
  • Analecta Bollandiana, t. II, carta de Herman de Tournai (archive.org).
  • D. Duarte, Leal Conselheiro, edição de Paris, 1842 (archive.org).
  • António Rei, «O Gharb al-Andalus em dois geógrafos árabes do século VII/XIII», Medievalista, n.º 1.
  • Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa 850 anos. São Vicente, com texto de José Manuel Garcia; lisboa.pt, «Símbolos protocolares».
  • Arquivo Municipal de Lisboa, «O brasão de Lisboa» (documento do mês).
  • Diário do Governo, I série, Portaria n.º 9468 (Diário da República Eletrónico).
  • Miguel Metelo de Seixas, «Selo do concelho de Lisboa», em Anões às costas dos grandes gigantes do passado, catálogo de exposição (RUN).
  • Selo do concelho de Lisboa, Arquivo Nacional Torre do Tombo (Wikimedia Commons, CC BY 4.0); Livro Carmesim, Google Art Project (Wikimedia Commons, domínio público).