Há uma igreja católica no Alentejo que celebra Missa a poucos passos de um nicho voltado para Meca: é a única mesquita medieval que sobrevive de pé em Portugal, e continua a funcionar, todos os domingos, como igreja paroquial. Entra-se por uma porta em arco de ferradura, lavrada em pedra à moda árabe. Lá dentro, atrás do altar-mor, sobrevive esse nicho, de planta pentagonal, com arcos polilobados ainda visíveis em gesso esculpido: o mirabe, o lugar de oração que apontava para Meca. A torre que hoje toca os sinos foi, antes disso, um minarete.

Onde fica Mértola e porque foi um porto

Mértola fica numa colina sobre o rio Guadiana, no Baixo Alentejo, com pouco mais de dois mil e quinhentos habitantes. É também o ponto mais distante do mar até onde o Guadiana ainda é navegável: a maré sobe rio acima quase setenta quilómetros e para ali mesmo, contra toda a lógica de um lugar do interior alentejano.

Mértola, no cimo da colina, vista do rio: o ponto mais distante do mar até onde o Guadiana ainda é navegável, e por isso um porto que ligava o interior do Alentejo ao Mediterrâneo. Pintura.
FIG. 02Mértola, no cimo da colina, vista do rio: o ponto mais distante do mar até onde o Guadiana ainda é navegável, e por isso um porto que ligava o interior do Alentejo ao Mediterrâneo. Pintura.

Mértola sob domínio islâmico

Foi essa navegabilidade, mais os minérios da região em redor, que transformaram uma colina de xisto num porto que olhava para o Mediterrâneo. Conquistada em 713, no avanço islâmico pela Península, a cidade mudou de nome para Martula e cresceu depressa: tornou-se uma das mais importantes praças fortificadas do Gharb al-Andalus, ligando o interior do Alentejo a Al-Andalus e ao Norte de África por barco. Com a queda do Califado de Córdova, em 1031, foi por uns anos um pequeno estado independente (uma taifa), até ser absorvida pela taifa de Sevilha.

O interior da mesquita almóada de Mértola, erguida na segunda metade do século XII: seis tramos sobre vinte colunas, tecto de madeira, sem ornamento invencionado. Pintura.
FIG. 03O interior da mesquita almóada de Mértola, erguida na segunda metade do século XII: seis tramos sobre vinte colunas, tecto de madeira, sem ornamento invencionado. Pintura.

Mais de um século depois, em 1144, Mértola voltou a ser disputada, desta vez por dentro. Um místico sufi chamado Ibne Caci tinha trocado uma juventude de posses por uma vida de ascetismo, e reunira à sua volta um grupo de discípulos conhecidos como muridines. Setenta deles, segundo as crónicas da época, bastaram para tomar a fortaleza de Mértola por estratagema, em agosto. Ibne Caci instalou-se na cidade, proclamado pelos seus seguidores imame e mádi, o guia chamado a restaurar a verdadeira fé, e dali a revolta contra os almorávidas alastrou por boa parte do actual Algarve.

Uma das portas em arco de ferradura da antiga mesquita, mantida quando o edifício foi convertido em igreja depois da Reconquista de 1238. A Ordem de Santiago não a deitou abaixo. Pintura.
FIG. 04Uma das portas em arco de ferradura da antiga mesquita, mantida quando o edifício foi convertido em igreja depois da Reconquista de 1238. A Ordem de Santiago não a deitou abaixo. Pintura.

A mesquita almóada e a Reconquista de 1238

A independência não durou. Um exército almóada pôs-lhe fim, e é já sob domínio almóada, na segunda metade do século XII, que se ergue a mesquita de Mértola tal como ainda hoje se reconhece, no mesmo lugar onde, séculos antes, terá havido um templo romano e, depois, nos séculos VI ou VII, um santuário paleocristão. Em 1238, no avanço da Reconquista, o rei D. Sancho II tomou Mértola e entregou-a à Ordem de Santiago. A Ordem converteu a mesquita em igreja, e manteve o edifício. Não a deitou abaixo para recomeçar.

O nicho que apontava para Meca, de planta pentagonal sobre base de granito, com os três arcos polilobados em gesso descritos pelos arqueólogos. Foi coberto com reboco em 1532 e só reexposto entre 2003 e 2004. Pintura a partir da descrição arqueológica documentada (não existe fotografia disponível do mirabe). Não é uma fotografia nem uma reconstituição fiel de pormenor, apenas da forma documentada.
FIG. 05O nicho que apontava para Meca, de planta pentagonal sobre base de granito, com os três arcos polilobados em gesso descritos pelos arqueólogos. Foi coberto com reboco em 1532 e só reexposto entre 2003 e 2004. Pintura a partir da descrição arqueológica documentada (não existe fotografia disponível do mirabe). Não é uma fotografia nem uma reconstituição fiel de pormenor, apenas da forma documentada.

O mirabe escondido em 1532

É essa decisão, ou esse hábito, que atravessa os oitocentos anos seguintes. A mesquita tinha planta em T, seis tramos sobre vinte colunas, tecto de madeira pintada. Da igreja de hoje, com quatro tramos sobre doze colunas, sobreviveram os muros exteriores, quatro portas em arco de ferradura (uma para a rua, três para o antigo pátio) e o mirabe. Em 1532, obras de fundo, feitas porque o edifício ameaçava ruína, entaipam algumas dessas portas e cobrem o mirabe com reboco, apagando o que restava visível de não-cristão. Mas nem então o demoliram: apenas o esconderam.

A cave da antiga sacristia, hoje núcleo museológico aberto em 2016: o chão escavado entre 2003 e 2004 pelo Campo Arqueológico de Mértola, fundado por Cláudio Torres em 1978. Pintura a partir de uma fotografia real do local — foto de referência de Hugo Ferreira (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/). Pintura derivada partilhada sob CC BY-SA 4.0.
FIG. 06A cave da antiga sacristia, hoje núcleo museológico aberto em 2016: o chão escavado entre 2003 e 2004 pelo Campo Arqueológico de Mértola, fundado por Cláudio Torres em 1978. Pintura a partir de uma fotografia real do local — foto de referência de Hugo Ferreira (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/). Pintura derivada partilhada sob CC BY-SA 4.0.

A vila museu: Cláudio Torres e o Campo Arqueológico de Mértola

Ficou escondido durante quatro séculos. Só nos anos 1950 é que obras de restauro voltaram a descobrir as antigas portas em arco de ferradura, tapadas havia gerações. Foi um arqueólogo, Cláudio Torres, quem levou a descoberta mais longe: fundou em 1978 o Campo Arqueológico de Mértola e passou a escavar sistematicamente a vila inteira, incluindo, entre 2003 e 2004, a própria igreja, onde uma campanha pôs a descoberto mais partes do mirabe e a cave da antiga sacristia. Hoje é possível descer até lá: um núcleo museológico, aberto em 2016, mostra de perto o que ficou por baixo do reboco de 1532. Mértola tornou-se, no jargão da própria equipa que a escava, uma «vila museu»: não um museu dentro da vila, mas a vila inteira como museu, com núcleos espalhados pelas ruas do centro histórico. Torres recebeu por esse trabalho, em 2023, o Prémio Europa Nostra; de dois em dois anos, a vila celebra ainda o Festival Islâmico de Mértola, um lembrete público e assumido da camada em que assenta.

Hoje, quem entra na Igreja de Nossa Senhora da Anunciação encontra Missa a poucos metros de um nicho que, durante décadas, apontou para Meca. Ninguém, em oitocentos anos de donos sucessivos, teve de deitar abaixo o que ali estava para construir o que veio a seguir. Mudaram-se as portas, tapou-se um nicho, escavou-se um chão, mas a sala nunca voltou a começar do zero.