Houve uma mesa de jogo, no Casino do Estoril, onde dois homens que em qualquer outro ponto da Europa se teriam morto à primeira vista se sentavam lado a lado, sob o mesmo fumo de tabaco, a deslizar fichas sobre o pano verde. Um trabalhava para a Alemanha. O outro, para a Inglaterra. E, mesmo assim, trocavam vénias nos corredores dos hotéis e bebiam o mesmo champanhe.
Foi nos anos da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa ardia e Portugal, neutral, ficou a meio do incêndio sem se queimar. Enquanto o continente se fechava em fronteiras e arame farpado, Lisboa tornou-se uma das últimas portas abertas para o Atlântico. Por ela passava quem fugia: judeus, aristocratas, artistas, gente comum que vendera tudo por um visto e um lugar num navio. O Terreiro do Paço chegou a encher-se da bagagem dos que esperavam embarque. Quantos foram, ninguém sabe ao certo: as estimativas oscilam entre cem mil e perto de um milhão de pessoas, num país que tinha pouco mais de seis milhões.
E com os refugiados vieram os outros. Os que não fugiam de nada, porque eram eles a guerra.
Relatórios americanos chamaram a Lisboa a capital da espionagem. A historiadora Margarida Ramalho descreveu o eixo Lisboa-Cascais-Estoril como um ninho de espiões, e a expressão não é exagero. Cada hotel tinha o seu lado. O Palácio, no Estoril, era pró-aliados. O Avenida Palace, nos Restauradores, era ponto de encontro alemão, a que chamavam o hotel do champanhe. As potências em chamas tinham, na mesma costa soalheira, as suas sedes paralelas, separadas por uns quilómetros de estrada e por uma cortesia gelada.

No meio de tudo isto chegou um sérvio.
O seu nome era Duško Popov, advogado de profissão, jogador e conquistador por feitio. Recrutado pelos serviços secretos alemães, ofereceu-se de imediato aos britânicos, e tornou-se aquilo a que se chama um agente duplo: alimentava os alemães com mentiras bem urdidas enquanto servia Londres. Os ingleses deram-lhe um nome de código: Tricycle, o triciclo. Chegou a Lisboa no final de novembro de 1940. Instalou-se primeiro no Hotel Aviz, onde vivia então um dos homens mais ricos do mundo, o magnata Calouste Gulbenkian, e poucos dias depois mudou-se para o Palácio, no Estoril.
Foi aí que entrou em cena um oficial dos serviços de informações navais britânicos, encarregado de o seguir em maio de 1941 e de guardar cinquenta mil dólares do governo de Sua Majestade que Popov trazia consigo. O oficial chamava-se Ian Fleming.

Conta-se que, numa noite desse mês de maio, Popov se sentou a uma mesa de bacará do Casino do Estoril e atirou para cima do pano toda aquela fortuna, só para humilhar um adversário que apostava demasiado alto, sob o olhar atento de Fleming. O episódio repete-se de relato em relato com pequenas variações, e talvez tenha crescido de boca em boca. Mas a marca ficou. Doze anos depois, em 1953, Ian Fleming publicava o primeiro romance de um agente secreto chamado James Bond. O livro chamava-se Casino Royale. O casino era o do Estoril; os hotéis Palácio e Parque tornavam-se, na ficção, o Hermitage e o Splendide; e os penhascos de Cascais faziam as vezes da costa da Bretanha.
> O homem mais famoso da espionagem nasceu, afinal, à mesa de um casino português.
Por cima de toda esta encenação, havia um olhar. A PVDE, a polícia política de Salazar, deixava os espiões estrangeiros fazer o seu jogo, desde que não tocassem na política interna, desde que as leis se cumprissem. Tudo o resto era tolerado e, sobretudo, vigiado em surdina. O regime sabia quem dormia em cada quarto e quem se encontrava com quem. Era o mesmo país que, longe do mar, vendia aos dois beligerantes o volfrâmio que endurecia os canhões de uns e de outros, e que só em junho de 1944 fecharia a torneira. No litoral vendia silêncio e informação; no interior, pedra. Em ambos os casos, Salazar cobrava a quem comprasse.

E que galeria de figuras. Pelo Estoril e por Lisboa passaram, naqueles anos, nomes que pareciam saídos de um romance. O escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry, a caminho do exílio. O escritor Graham Greene, ele próprio ao serviço dos britânicos. A artista Josephine Baker, que terá transportado mensagens em tinta invisível escondidas em partituras de Wagner. E um basco discreto, mais tarde conhecido pelo nome de código Garbo, que viria a inventar do nada uma rede de vinte e seis agentes inexistentes para enganar Berlim, e a ajudar, com essa ficção, a desviar as defesas alemãs no dia do desembarque da Normandia.
Mas seria um erro imaginar tudo isto como um filme ligeiro, de smoking e bacará. Por baixo da toalha branca dos hotéis, a guerra era real. Em junho de 1943, o avião comercial que levava o ator britânico Leslie Howard foi abatido pela Luftwaffe sobre o Golfo da Biscaia, pouco depois de descolar de Lisboa. Ninguém sobreviveu. E há quem sustente que Popov fizera chegar aos americanos, em 1941, indícios de um ataque japonês que o director do FBI desvalorizou; meses depois caía Pearl Harbor. O grau de verdade desse aviso ainda hoje se discute. O que não se discute é o resto: a morte andava ali, de gravata, a sorrir nos corredores.
Quando a guerra virou, o jogo esvaziou-se tão depressa como se enchera. Os agentes partiram, os refugiados embarcaram ou ficaram, os hotéis voltaram a ser apenas hotéis. Ficou a memória, e ficou a paisagem.

O Casino do Estoril continua aberto. As mesas ainda giram, sob a mesma luz. A poucos passos, o Hotel Palácio ainda recebe quem chega. E naquela costa onde, durante alguns anos, os inimigos coabitaram sem se tocarem, separados apenas por uma cortesia e por um regime que a todos observava, o mar continua a bater como então.
> A guerra, essa, ficou para trás. Mas o jogo duplo… esse fica sempre por contar.