D. Manuel I mandou pôr um rinoceronte e um elefante frente a frente, num pátio em Lisboa.

Queria ver, por experiência, se era verdade o que os autores antigos escreviam: que os dois eram inimigos mortais.

Foi a 3 de junho de 1515, um domingo, num pátio murado entre o Paço da Ribeira e a Casa da Índia. Levaram primeiro o rinoceronte e esconderam-no atrás de uns panos pendurados, para que o elefante não desse com ele mal entrasse. Ao lado do animal ia o homem que o tratava, um indiano chamado Ossem, que atravessara o oceano com ele e lhe segurava uma corrente comprida.

Fecharam as portas do pátio. Levantaram os panos.

FIG. 02

O rinoceronte começou a puxar. Ossem largou-lhe corrente sem soltar o cabo, e o bicho avançou com o focinho rente ao chão, a soprar pelas ventas com tanta força que levantava o pó e as palhas.

E o elefante virou costas.

Não houve combate nenhum. Deu meia volta, foi direito a uma janela de grades de ferro e meteu-lhe a cabeça com tal força que torceu dois dos varões, grossos de oito boas polegadas em quadrado. Saiu por ali. A abertura que fez, escreveu o cronista, era tão apertada que com trabalho lá passaria um homem de estatura comum, despido. Ossem ficou caído no chão, que se largara da corrente a tempo.

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Era um elefante novo. Tinha as presas tão curtas que não lhe saíam da boca mais de três palmos, e o cronista achou que fora isso: desconfiara das próprias armas contra um inimigo daquele tamanho. E o mesmo cronista escreveu que o rinoceronte ficou no pátio, sossegado, com jeitos e meneios que davam a entender, a quem estava ao pé dele, que tinha a vitória por certa se o outro quisesse esperar.

O rei quisera, nas palavras do cronista, «ver por experiência» a força e as manhas de cada um. A ideia de que os dois se odiavam por natureza vinha de Plínio e dos outros antigos, e em maio já andava por Lisboa, escrita numa carta. Quem nos deixou a cena foram dois homens: Valentim Fernandes, impressor estabelecido em Lisboa, que assistiu e escreveu «eu vi»; e Damião de Góis, que a contaria muito mais tarde.

Desde a Antiguidade romana que não entrava um rinoceronte vivo na Europa. Mais de mil anos. Faltava decidir outra coisa: o que a Europa ia passar a entender por «rinoceronte».

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O animal chegara a 20 de maio, ao fim de quatro meses de mar. Vinha da Índia por causa de uma embaixada que correu mal: Afonso de Albuquerque mandara Diogo Fernandes ao sultão de Cambaia, no Guzerate, a pedir licença para levantar uma fortaleza em Diu, a licença foi negada, e trocaram-se presentes na mesma. Entre os que o sultão mandou ao rei de Portugal ia o rinoceronte.

Nesses mesmos meses, no Tejo por onde a nau subira, os canteiros levantavam a Torre de Belém sobre um ilhéu de basalto. Na fachada norte, na base da guarita do lado poente, há uma mísula com um rinoceronte esculpido. É a este animal que se atribui a figura, e a data joga a favor. A pedra está hoje tão gasta que não se lhe tira pormenor nenhum.

O animal ficou a chamar-se Ganda, e Ganda nunca foi um nome. Era a palavra com que naquelas terras se dizia o animal, do sânscrito gaṇḍa, «pintado», «salpicado». Góis não deixa margem: «uma alimaria a que os daquela terra chamam Ganda». Há cinco séculos que lhe chamamos «rinoceronte» em guzerate.

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Nome à parte, o rei já tinha elefantes, com que costumava desfilar por Lisboa, e já mandara um de presente ao papa. A ganda era mais um animal numa casa que era quase um jardim zoológico.

Quem se espantou foi a Europa, e espantou-se por escrito. Valentim Fernandes contou o que vira numa carta para mercadores de Nuremberga. E ainda nesse ano saiu de Nuremberga uma xilogravura do bicho, feita por um homem que nunca lhe pôs os olhos em cima: Albrecht Dürer.

O rinoceronte de Dürer traz placas duras encaixadas como uma armadura, com o que parecem ser rebites nas juntas, tem as pernas cobertas de escamas e tem, sobre as espáduas, um segundo chifre, pequeno e torcido. Nada disto existe num rinoceronte. Por cima da gravura, o texto impresso diz que o animal é da cor de uma tartaruga salpicada.

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E, no entanto, não é um desenho de fantasia. As divisões daquela falsa couraça caem quase todas onde o rinoceronte-indiano tem mesmo as dobras do coiro, e as protuberâncias da pele existem de facto, ainda que exageradas.

De onde lhe veio o resto, não se sabe. Não está documentado que descrição, que esboço ou que desenho lhe chegou às mãos, nem por que caminho.

Em dezembro de 1515 o rei mandou o animal para Roma, de presente ao papa Leão X. Embarcou com uma coleira de veludo verde enfeitada com rosas e cravos dourados, numa nau capitaneada por João de Pina, e a nau ainda parou em Marselha, em janeiro, para que o rei de França o pudesse ver.

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No início de 1516 a nau apanhou temporal na costa da Ligúria e foi ao fundo. O rinoceronte ia acorrentado ao convés, para não andar solto, e não pôde nadar. Esteve oito meses na Europa.

Daí em diante, o que a Europa tinha para ver era a gravura.

E viu-a durante mais de dois séculos, tomando-a por retrato fiel. Só no século XVIII a foram substituindo imagens tiradas do natural: a rinoceronte Clara, que percorreu a Europa nos anos de 1740 e 1750, e a estampa da Histoire naturelle de Buffon, de 1754.

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Não foi por falta de alternativa. Ainda em 1515, em Augsburgo, Hans Burgkmair gravou o mesmo animal sem couraça, sem chifre nas costas e com as cordas que lhe prendiam as patas. A gravura está mais perto da verdade e quase não circulou.

E havia pedra portuguesa a dizer outra coisa. Em Alcobaça, no Claustro do Silêncio, há um rinoceronte do início do século XVI, de corpo inteiro e bem conservado. Nesse vê-se tudo: não traz couraça nenhuma.

Damião de Góis nasceu em 1502 e entrou para pajem de D. Manuel em 1511, com nove anos. Cresceu no paço. Tinha doze ou treze naquele domingo, e é quase certo que estava lá: é dele o relato dos varões torcidos, da abertura por onde mal passaria um homem, do animal que ficou no pátio a dar-se por vencedor.

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Escreveu-o mais de quarenta anos depois, por encomenda de 1559.

E quando chegou a altura de descrever o animal, escreveu que os rinocerontes são «cobertos de conchas como de cágado, ou tartaruga», e que dessas conchas têm de cada lado três: umas sobre as espáduas, outras sobre as costas, outras das ancas para baixo.

Nenhum rinoceronte tem conchas. Tem pele grossa e dobrada, como a do elefante. Carapaça levantada do corpo, não.

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A carapaça só existia na gravura de Nuremberga, que era, nessa altura, o que um rinoceronte era em toda a Europa. Também para quem esteve naquele pátio.

E «tartaruga» era a palavra impressa por cima dela.

Fontes6 referências
  • MARTINS, Roberto de Andrade, «O rinoceronte de Dürer e suas lições para a historiografia da ciência», Filosofia e História da Biologia, São Paulo, vol. 9, n.º 2 (2014), pp. 199-238. É a peça central da história e é dela que vêm, na tradução e na modernização do autor, as citações de Damião de Góis, de Valentim Fernandes, de Penni e do texto da xilogravura.
  • ROOKMAAKER, Kees; MONSON, Jim; BILLIA, Emmanuel M. E., «Early depictions of the first Lisbon rhinoceros in the 16th century», Pachyderm, 65 (2024), pp. 168-179.
  • Direção-Geral do Património Cultural, inventário do imóvel da Torre de Belém. É dali que vem a designação exata da escultura: mísula com representação de rinoceronte, base da guarita do lado poente, fachada norte.
  • Página oficial do monumento da Torre de Belém, § «O Rinoceronte», consultada no Arquivo.pt.
  • GÓIS, Damião de, Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel (1566-1567), partes 3 e 4.
  • FERNANDES, Valentim, carta aos mercadores de Nuremberga (1515); original alemão perdido, tradução italiana manuscrita na Biblioteca Nacional de Florença.