D. Manuel I mandou pôr um rinoceronte e um elefante frente a frente, num pátio em Lisboa.
Queria ver, por experiência, se era verdade o que os autores antigos escreviam: que os dois eram inimigos mortais.
Foi a 3 de junho de 1515, um domingo, num pátio murado entre o Paço da Ribeira e a Casa da Índia. Levaram primeiro o rinoceronte e esconderam-no atrás de uns panos de armar pendurados num passadiço, para que o elefante não desse com ele mal entrasse pela porta. Ao lado do animal ia o homem que o tratava, um indiano chamado Ossem, que atravessara o oceano com ele e lhe segurava uma corrente comprida. Entrou o elefante. Os homens da guarda do rei fecharam as portas do pátio atrás dele. E então levantaram-se os panos.
O rinoceronte começou a puxar. Ossem largou-lhe corrente sem soltar o cabo, e o bicho avançou com o focinho rente ao chão, a soprar pelas ventas com tanta força que levantava o pó e as palhas como um remoinho de vento.
E o elefante virou costas.
Não houve combate nenhum. Deu meia volta, foi direito a uma janela de grades de ferro ao pé da porta do pátio e meteu-lhe a cabeça com tal força que torceu dois dos varões, grossos de oito boas polegadas em quadrado. Saiu por entre os dois. A abertura que fez era tão apertada que, escreveu quem contou a cena, com trabalho lá passaria um homem de estatura comum, despido. Ossem ficou caído no chão, que se largara da corrente a tempo, e quem escreveu notou que, se não o tivesse feito, o limiar de cima da janela teria rebentado com ele à mistura.
Depois o elefante atravessou Lisboa a caminho dos estábulos, sem dar por nada nem por ninguém que lhe aparecesse à frente, homens a pé e homens a cavalo. Ia tal alarido pelas ruas, uns a avisarem os outros que se guardassem, que parecia uma batalha desfeita.
O rinoceronte ficou no pátio, sossegado.
Um presente de uma embaixada falhada
O animal tinha chegado a Lisboa a 20 de maio daquele ano, ao fim de quatro meses de mar, e estava ali por causa de uma coisa que correu mal.

Afonso de Albuquerque queria uma fortaleza portuguesa em Diu, na costa ocidental da Índia, e Diu era território de Cambaia, no Guzerate. Em 1514 mandou uma embaixada ao sultão, chefiada por Diogo Fernandes, a pedir licença para a construir. O sultão não deu a licença. Autorizou fortalezas noutros sítios que não interessavam aos portugueses naquele momento, e a missão falhou.
Mas Diogo Fernandes tinha levado presentes, e a corte de Cambaia retribuiu: uns para Albuquerque, outros para mandar da sua parte ao rei de Portugal. Entre estes ia um rinoceronte.
A armada de cinco navios que o trouxe partiu no fim de 1514 ou no princípio do ano seguinte e chegou a Lisboa em maio. O animal fez a travessia inteira a bordo, quatro meses, talvez mal alimentado, e sobreviveu.
Com ele veio Ossem, o indiano que o tratava, e que passou aqueles quatro meses de mar ao lado dele.
E veio o nome, que não era um nome. Ganda era simplesmente a palavra com que naquelas terras se dizia o animal. Vem do sânscrito gaṇḍa, que quer dizer «pintado» ou «salpicado», e é uma entre várias que serviam para o mesmo bicho. Damião de Góis, o cronista de D. Manuel, não deixa margem para dúvida quando o escreve: «uma alimaria a que os daquela terra chamam Ganda». E mais adiante, ainda mais claro: «o Rinocerota ou Ganda, como lhes chamam os Índios». Valentim Fernandes, que estava em Lisboa nesse maio, escreve o mesmo com as duas palavras lado a lado: «um animal chamado pelos gregos Rhynoceros e pelos índios Ganda».
Ou seja: há cinco séculos que a Europa trata este animal por «rinoceronte» em guzerate.
Convém dizer que o paço se espantou menos do que às vezes se conta. D. Manuel já tinha recebido vários elefantes, com que costumava desfilar por Lisboa, e já mandara um deles de presente ao papa Leão X. Era um elefante albino, o Hanno, que entrou em Roma em março de 1514 acompanhado de dois leopardos, uma pantera, papagaios, perus e cavalos indianos. A ganda era mais um animal numa casa que já era, à sua maneira, um jardim zoológico régio.

Quem se espantou foi a Europa.
«Ver por experiência»
O combate no pátio não foi um espetáculo de corte. Foi uma verificação, e o motivo está escrito nas palavras do próprio cronista:
> «Destes dois animais quis o rei dom Emanuel ver por experiência a força e manhas que cada um deles tinha em se defender e atacar o outro.»
A informação que se ia verificar era antiga. Diodoro Sículo, Plínio e Solino tinham escrito que o rinoceronte e o elefante se odiavam por natureza, que o rinoceronte afiava o chifre numa pedra antes de pelejar e que atacava sempre pela barriga, por ser ali que a pele do outro é mais fraca. Não era uma curiosidade obscura: nesse mesmo mês de maio, em Lisboa, Valentim Fernandes já tinha essas passagens copiadas numa carta que estava a escrever, e comentava, depois de ver o animal, que aquilo que Estrabão dizia «concorda com o que vimos».
Temos dois relatos do dia, e é uma sorte rara para um episódio destes.
O primeiro é de quem lá esteve. Valentim Fernandes escreve de Lisboa, a quente. A carta chegou-nos por uma tradução, e é assim que ela conta o dia, no português do estudo que a transcreve:
> «no dia da Santa Trindade, estando o elefante preso em certo círculo perto do palácio do Rei, e sendo levado a tal local o supradito Rinoceronte, eu vi que o dito elefante imediatamente quando o viu começou furiosamente a virar-se para cá e para lá fugindo e então aproximando-se de uma janela gradeada com ferros grossos como o braço, a tomou com seus dentes e sua probóscide, isto é, nariz em forma de tromba, ele a rompeu e fugiu.»

O dia da Santa Trindade, naquele ano, foi um domingo do princípio de junho.
O segundo relato é o de Damião de Góis, e é o detalhado: os panos de armar, a corrente que Ossem alargou, o pó levantado pelas ventas, os dois varões torcidos, a abertura por onde mal passaria um homem despido, o alarido pelas ruas. É de Góis também a explicação para a fuga, e é uma explicação sobre o elefante e não sobre o rinoceronte: era um animal novo, com as presas ainda tão pequenas que não lhe saíam da boca mais de três palmos, e desconfiou de se poder ajudar dos dentes contra um inimigo daquele tamanho. E é de Góis o fecho da cena, que ele escreve com evidente gosto: o rinoceronte ficou no campo «muito seguro», dando quase a entender a quem estava ao pé dele, pelos jeitos e meneios que fazia, «que tinha a vitória por certa se o Elefante quisera esperar».
Há uma coisa em que os dois relatos não batem certo, e vale a pena dizê-la em vez de a esconder: Góis situa o combate num ano em que o animal já não estava em Lisboa nem em Portugal. A carta de Valentim Fernandes foi escrita na cidade, por quem assistiu, e data-o de 1515; a bibliografia moderna dá-lhe o mesmo ano; e a própria crónica de Góis conta, mais à frente, a partida do animal antes disso. A data que ele escreveu não se sustenta.
O que não quer dizer que Góis seja um mau cronista, nem é essa a questão. Ele escreveu aquilo décadas depois, de memória e de papéis, e a memória de um homem sobre o que viu em criança é, precisamente, o assunto que esta história acaba por ter.
A notícia sai de Lisboa
Valentim Fernandes não era português. Nasceu em Olmütz, na Morávia, viveu algum tempo em Nuremberga, passou por Sevilha e acabou por se fixar em Portugal, onde estabeleceu uma tipografia em Lisboa em 1495. Foi o segundo impressor do reino, escudeiro da rainha D. Leonor, e imprimiu de tudo: livros religiosos, de viagens, de gramática, de medicina, de astrologia, de leis.
Foi ele quem escreveu para os mercadores de Nuremberga a contar o que a cidade tinha para ver. A carta original, em alemão, está perdida. O que sobreviveu foi uma tradução italiana manuscrita, num volume da Biblioteca Nacional de Florença, e é de lá que a conhecemos.
Não foi a única coisa a sair de Lisboa. Em Roma, a 13 de julho de 1515, com o animal ainda vivo em Portugal, saiu impresso um poema sobre ele, de Giovanni Giacomo Penni, um médico florentino da corte de Leão X. O poema traz uma gravura tosca, e é interessante justamente por ser tosca. Mostra o corpo coberto por uma capa mole e não por uma couraça; mostra a pele toda salpicada de pequenas manchas, que o rinoceronte-indiano tem mesmo; mostra três dedos em cada pata, coisa que não vem nos autores antigos; e mostra uma corrente a prender-lhe as patas, que é o pormenor de quem viu o bicho preso. Não é um desenho feito só de imaginação nem só de conversa: alguém, com pouco jeito para desenhar, olhou para aquele animal.

Do poema conhece-se um único exemplar. Foi comprado em novembro de 1515 por Fernando Colombo, filho de Cristóvão, e está hoje na Biblioteca Colombina de Sevilha.
A gravura de Nuremberga
E de Nuremberga, ainda nesse ano, saiu a imagem que ia ficar.
Albrecht Dürer nunca viu um rinoceronte. Não podia: desde o tempo do Império Romano que não entrava nenhum vivo na Europa, e ele nunca saiu dela. O rinoceronte que chegou a Lisboa em 1515 foi o primeiro em mais de mil anos.
A xilogravura que Dürer fez tem placas duras encaixadas umas nas outras como uma armadura de cavaleiro, com uma peça à maneira de gorjal na garganta, outra à maneira de peitoral, e o que parecem ser rebites ao longo das juntas. Tem as pernas cobertas de escamas. E tem, sobre as espáduas, um segundo chifre, pequeno e torcido. Nenhuma destas coisas existe num rinoceronte vivo: a pele é grossa como a do elefante, não é uma carapaça, não há chifre nenhum nas costas, e as escamas não existem.
Por cima da figura, Dürer imprimiu um texto a descrever o bicho. Diz que tem a cor de uma tartaruga salpicada, que é do tamanho do elefante mas de pernas mais curtas, que tem na frente do focinho um chifre forte e agudo que vai afiando sempre que passa ao pé de pedras, e que é inimigo mortal do elefante, que dele tem um medo tremendo. Diz também, logo na primeira linha, que o animal chegou a Lisboa numa data que não é a certa. A data impressa na madeira é dois anos anterior à que os documentos mostram, e é um erro que se copiou depois, durante séculos, juntamente com o resto.
E, no entanto, a gravura acerta em muito mais do que se diz. É o que se costuma esquecer quando se conta esta história.
As divisões daquela falsa couraça caem quase todas onde o rinoceronte-indiano tem realmente as dobras do coiro. As protuberâncias que cobrem o corpo existem de facto na pele do animal, ainda que no desenho apareçam maiores do que são. A forma do corpo aproxima-se bastante da forma do bicho, ainda que devesse ser mais comprido, ou menos alto. Visto de longe, um rinoceronte-indiano tem mesmo o ar de quem traz chapas vestidas.

Falta então explicar o resto. E é aqui que a história tem um buraco, e é um buraco honesto.
Não se sabe de onde Dürer tirou o que desenhou. Não está documentado que descrição, que esboço ou que desenho lhe chegou às mãos, nem por que caminho. Costuma dizer-se que trabalhou a partir da carta de Valentim Fernandes, acompanhada de um desenho. É o que se lê na página oficial do próprio monumento de Belém e em enciclopédias correntes. Mas quem foi ver ao pormenor não encontra fundamento para isso: a ligação entre a carta e a gravura é ténue e as diferenças são concretas. A carta data a chegada de um dia de maio de 1515 e Dürer imprimiu outra data; a carta cita Plínio e Estrabão e no texto de Dürer não há sinal deles; a carta não compara a cor a tartaruga nenhuma; e no manuscrito de Dürer aparece a expressão «nosso rei de Portugal», que na carta não está e que Dürer não teria razão nenhuma para escrever.
Pode ter havido outra carta, de outro português, com um desenho. É possível. Não há documento que o mostre.
Um estudo revisto por pares dedicado precisamente a esta questão percorreu, uma a uma, as respostas propostas ao longo de mais de um século: que o desenho seria de um artista português mandado para a Alemanha; que seria de António de Holanda, o único artista de Portugal de quem se sabe ter representado o animal; que a couraça seria uma armadura verdadeira, feita para o combate; que o chifre das costas seria uma excrescência real da pele; que Dürer teria lido nos antigos que havia rinocerontes de dois chifres; que teria visto moedas romanas. Afastou-as todas. As conclusões dele, escreve o autor, «são, de um modo geral, negativas»: não se sabe como Dürer se informou, não se sabe que desenho conheceu, não se sabe por que motivo representou o animal daquela maneira.
Não é uma falha do artista. É o estado do que sobreviveu. Do poema de Penni ficou um exemplar; da carta de Valentim Fernandes ficou uma cópia em italiano. Foram salvos por acaso, e podiam perfeitamente ter-se perdido como se perdeu tudo o resto que terá circulado naqueles meses.
Dezembro de 1515
No fim do ano, D. Manuel decidiu mandar o rinoceronte para Roma, de presente ao papa Leão X.
O animal embarcou com uma corrente dourada e uma coleira de veludo verde enfeitada com rosas e cravos dourados, e com ele foram outros presentes de ouro e prata. A nau era capitaneada por João de Pina e partiu de Lisboa em dezembro de 1515. Em janeiro parou em Marselha, para que o rei de França o pudesse ver. Era Francisco I, que subira ao trono no ano anterior.

No início de 1516 a nau apanhou um temporal na costa da Ligúria e foi ao fundo.
O rinoceronte ia acorrentado ao convés, para não andar solto. Não pôde nadar.
Sobre o que aconteceu ao corpo, as fontes divergem, e a divergência é do género que convém dizer em voz alta. A página oficial do monumento da Torre de Belém conta que o corpo foi recuperado, que D. Manuel mandou empalhá-lo e enviá-lo ao papa como se nada tivesse acontecido, e que a pele empalhada não fez em Roma o sucesso que o elefante fizera. A bibliografia especializada trata a história com reserva: o estudo de referência regista que alguns autores o afirmam, «mas isso é duvidoso», e nota-se que uma coisa dessas teria posto à prova os métodos de taxidermia do século XVI, que eram rudimentares. Se alguma pele empalhada chegou de facto a Roma, não se sabe o que lhe aconteceu depois.
O animal esteve oito meses na Europa.
Daí em diante, o que a Europa tinha para ver era a gravura.
Duas pedras portuguesas
Há, mesmo assim, pedra portuguesa desses anos, e é boa pedra.
Na Torre de Belém, na fachada norte, na base da guarita do lado poente, há uma mísula, o cachorro de pedra que sustenta a guarita, com a representação de um rinoceronte. É assim que o inventário do património a descreve, e é aí que ela está, virada para o rio.

A Torre subia por esses anos, sobre um pequeno ilhéu de rocha basáltica junto à margem, defronte do Restelo. O projeto é de Francisco de Arruda, a obra começou em 1514 ou 1515 e ficou concluída por volta de 1519, o que quer dizer que os canteiros estavam a trabalhar naquela pedra exatamente enquanto o animal andava por Lisboa. É essa coincidência de calendário que sustenta o que toda a gente diz: que aquela figura é ele.
É o que se diz. Não é o que está documentado. Nenhum dos estudos consultados o estabelece, e a escultura está de tal maneira gasta pelo tempo e pela maresia que não é possível identificar-lhe pormenor nenhum. A data joga a favor. Mais do que isso não se pode afirmar.
A segunda pedra está em Alcobaça. No Claustro do Silêncio, ampliado por ordem de D. Manuel no princípio do século XVI, uma das gárgulas tem a forma de um rinoceronte de corpo inteiro. Está muito melhor conservada do que a de Belém, e nela vê-se com clareza uma coisa: o animal não traz couraça nenhuma. Tem dobras na pele e o corpo pontilhado de saliências, que é o que um rinoceronte tem.
Existiram, portanto, em Portugal, representações mais fiéis do animal do que a xilogravura de Nuremberga.
Não foram elas que a Europa copiou.
Mais de dois séculos
Foi a de Dürer.
Durante mais de dois séculos, a Europa tomou aquela figura por retrato fiel de um rinoceronte. Passou das folhas avulsas para os livros, dos livros para a porcelana, da porcelana para a pedra: houve um rinoceronte copiado dela num obelisco levantado em Paris para a entrada de um rei de França, e outro escolhido como emblema por um senhor de Florença. Só no século XVIII a foram substituindo imagens tiradas do natural: a rinoceronte Clara, que percorreu a Europa nos anos de 1740 e 1750 e que toda a gente foi ver, e a estampa da Histoire naturelle de Buffon, de 1754, desenhada a partir de uma pintura feita do animal vivo.

E não foi por falta de alternativa, nem por falta de rinocerontes.
Nesse mesmo ano de 1515, em Augsburgo, outro artista alemão gravou o mesmo bicho. Hans Burgkmair, que viveu entre 1473 e 1531, fez uma xilogravura sem couraça, sem o chifre das costas, e com as cordas que prendiam as patas do animal em vez de correntes. Está mais perto da verdade do que a de Dürer. Quase não circulou.
Mais de sessenta anos depois de o animal ter morrido, chegou outro rinoceronte vivo à Europa: a Abada, vinda da Índia para a corte de D. Sebastião, em 1577. Depois disso houve um rinoceronte-indiano em Madrid durante oito anos, de 1580 a 1588, e há notícia de uma estampa desenhada a partir dele em Antuérpia. E houve um exibido em Londres um século mais tarde. A popularidade da imagem errada não diminuiu com nenhum deles.
Uma coisa é ter o animal à frente dos olhos. Outra é conseguir vê-lo.
O rapaz que estava no pátio
Damião de Góis nasceu em Alenquer em 1502, filho de um almoxarife da rainha D. Leonor. Por influência do pai, entrou em 1511 para pajem de D. Manuel, com nove anos: primeiro pajem da lança, depois moço de câmara. Foi criado no paço e participou em tudo o que na corte se passava.
Tinha doze ou treze anos naquele maio e naquele junho. É quase certo que viu chegar o animal, e é mais do que plausível que estivesse no pátio: o relato que ele deixou daquele domingo é o mais detalhado que existe, e tem a textura das coisas que marcam uma pessoa em criança. Os panos pendurados. A corrente que o indiano alargou. O pó levantado pelas ventas. Os dois varões de ferro torcidos. A abertura por onde mal passaria um homem despido. O rinoceronte sozinho no meio do pátio, a dar-se por vencedor.
Se hoje conseguimos estar naquele pátio, é porque ele lá esteve.

Escreveu tudo isso mais de quarenta anos depois, quando o cardeal D. Henrique, regente, o encarregou em 1559 de escrever a crónica do reinado.
E quando, nessa mesma crónica, chegou a altura de descrever o próprio animal (não o dia, não o combate: o animal), escreveu isto:
> «São estes Rinocerotas cobertos de conchas como de cágado, ou tartaruga, das quais tem de cada lado três, separadas umas das outras; umas lhes cobrem espáduas, e outras as costas, e as outras as coxas das ancas para baixo.»
Nenhum rinoceronte tem conchas. Tem pele grossa e dobrada, como a do elefante, e nas dobras é que está a semelhança que enganou toda a gente. Carapaça, não. Placas separadas umas das outras, que se levantam do corpo como as de um cágado, isso nenhum rinoceronte teve nunca.
A carapaça só existia na gravura de Nuremberga, que era, nessa altura, o que um rinoceronte era em toda a Europa. Também para quem esteve naquele pátio.
E «tartaruga» é a palavra que estava impressa por cima dela.
Fontes
- MARTINS, Roberto de Andrade, «O rinoceronte de Dürer e suas lições para a historiografia da ciência», Filosofia e História da Biologia, São Paulo, vol. 9, n.º 2 (2014), pp. 199-238. É a peça central deste artigo e é dela que vêm, na tradução e na modernização do autor, as citações de Damião de Góis, de Valentim Fernandes, de Penni e do texto da xilogravura. - ROOKMAAKER, Kees; MONSON, Jim; BILLIA, Emmanuel M. E., «Early depictions of the first Lisbon rhinoceros in the 16th century», Pachyderm, 65 (2024), pp. 168-179. - Direção-Geral do Património Cultural, inventário do imóvel da Torre de Belém. É dali que vem a designação exata da escultura: mísula com representação de rinoceronte, base da guarita do lado poente, fachada norte. - Página oficial do monumento da Torre de Belém, § «O Rinoceronte», consultada no Arquivo.pt. - GÓIS, Damião de, Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel (1566-1567), partes 3 e 4. - FERNANDES, Valentim, carta aos mercadores de Nuremberga (1515); original alemão perdido, tradução italiana manuscrita na Biblioteca Nacional de Florença.
Uma nota de honestidade sobre datas e lugares. As fontes divergem quanto ao ponto exato da costa onde a nau se perdeu e quanto ao dia; por isso este artigo escreve «na costa da Ligúria» e «no início de 1516», formas que são verdadeiras em todas as leituras, e não escolhe entre elas. Divergem também quanto ao porto de onde a armada partiu da Índia, e por isso aqui se lê apenas «da Índia». E onde a bibliografia especializada deixa uma pergunta em aberto, de onde Dürer tirou o que desenhou, este artigo deixa-a igualmente em aberto, em vez de a fechar com a explicação mais bonita.