Numa planta de Braga levantada em 1883, as linhas que marcam o relevo apertam-se em arco no cimo de uma colina. É um teatro romano enterrado. Não se conhece um único texto, de nenhuma época, que diga que ele existiu.

E ninguém deu por isso durante mais de um século. A mesma curva está na fotografia aérea mais antiga que existe da cidade, de 1946, e também aí ninguém a leu. O desenho esteve impresso, público e à vista de todos durante todo esse tempo, e só se tornou legível em 1999, quando arqueólogos que mediam o limite de um pátio, naquela mesma colina, deram com um muro curvo de contrafortes maciços.

Tem mais de setenta metros de diâmetro. Os arqueólogos calculam, a partir da área das bancadas, que coubessem lá dentro entre quatro mil e quatro mil e quinhentos espetadores.

Um edifício deste tamanho, e nem uma linha.

Uma cidade que cresceu para o lado errado

A Braga romana chamava-se Bracara Augusta e foi fundada de raiz nos finais do século I antes de Cristo, no âmbito da reorganização administrativa da Hispânia empreendida por Augusto. Foi capital de convento jurídico, talvez desde o tempo de Augusto ou de Tibério, o que lhe deu, na hierarquia das cidades da província, um papel de centro sobre um território vasto. Atingiu a sua máxima extensão no século IV, com cerca de quarenta e oito hectares cercados por uma muralha robusta, construída nos inícios desse século, quando se tornou capital da província da Galécia.

Uma cidade com esse peso administrativo aparece pouquíssimo na literatura antiga. Tirando Plínio e Ausónio, quase ninguém a menciona. É uma capital de que quase nada se escreveu, e essa desproporção entre o que a cidade foi e o que dela ficou escrito percorre toda esta história.

O que veio a seguir explica o resto. A Braga medieval e a moderna cresceram desencontradas da romana: para norte e para nascente, com a catedral a tornar-se o centro do novo núcleo. O resultado dessa excentricidade é o facto decisivo de todo o caso. Como escreve Manuela Martins, a arqueóloga que dirigiu durante décadas o projeto de Bracara Augusta, esse desenvolvimento «permitiu que a maior parte da sua área se tivesse preservado durante séculos, transformada em terrenos agrícolas integrados em grandes quintas que se conservaram até meados do século XX». Os fotogramas aéreos de 1946 e 1948 ainda mostram esses campos.

O esquecimento foi o que a guardou. Ninguém se lembrava do que estava ali, e por isso ninguém construiu por cima. Durante séculos, a melhor política de proteção do património que Braga teve foi não saber.

O que aconteceu à colina

A proteção terminou quando a cidade mudou de direção. A partir dos anos cinquenta e sessenta do século XX o crescimento reorientou-se para sul e para oeste, precisamente sobre os terrenos que tinham ficado livres, e os vestígios romanos começaram a ser sistematicamente atingidos. Foi um movimento de defesa do património arqueológico, nascido na própria cidade, que está na origem de tudo o que se seguiu.

O enquadramento legal veio em 1976, com um decreto-lei que definiu para Braga uma zona arqueológica de extensão apreciável e determinou a elaboração de um novo plano de urbanização que respeitasse o património que viesse a ser reconhecido. Desse conjunto de intenções, quase nada vingou. As disposições protetoras foram renovadas e prorrogadas, mas deixaram de vigorar em 1979, e o novo plano de urbanização nunca chegou a ser feito. Ao longo dos anos oitenta a pressão construtiva aumentou sobre os terrenos da cidade antiga, com destruições frequentes de amplas áreas arqueológicas. Os próprios arqueólogos descrevem o período em termos que dizem tudo: toda a área correspondente à antiga cidade romana transformou-se num «extenso estaleiro de obras» e numa não menos extensa e descontínua «área de salvamento».

Antes ainda desse período, a colina do Alto da Cividade levou o golpe que mais interessa a esta história. No início dos anos setenta a colina estava projetada para ser urbanizada, ao abrigo de um plano que previa uma rua entre a plataforma inferior e a superior. Foi para abrir essa rua que as máquinas rasgaram a encosta. Esse rasgão destruiu em profundidade o setor sul das bancadas do teatro, que continuam por conhecer nessa zona. Ao mesmo tempo depositaram-se na encosta aterros modernos, que décadas mais tarde teriam de ser removidos com máquinas antes de se poder escavar.

Em 1883-84 o engenheiro Francisco Goullard levantou a planta de Braga. As linhas do relevo que se apertam no alto da colina são o declive da bancada mais alta do teatro: mediu-lhe a forma sem saber que a estava a medir. Pintura. figura genérica, não retrato.
FIG. 02Em 1883-84 o engenheiro Francisco Goullard levantou a planta de Braga. As linhas do relevo que se apertam no alto da colina são o declive da bancada mais alta do teatro: mediu-lhe a forma sem saber que a estava a medir. Pintura. figura genérica, não retrato.

Convém dizer a coisa toda, sob pena de o episódio se ler como não deve: ninguém sabia que ali estava um teatro. Não havia texto que o dissesse, não havia planta que o assinalasse, não havia memória local. Abriu-se uma rua num terreno que, do ponto de vista de quem a abriu, era um terreno.

Quem ficou com a colina

O mesmo decreto-lei de 1976 entregou a responsabilidade das escavações de Braga à Universidade do Minho, que criou para o efeito a Unidade de Arqueologia e assegura desde então a direção científica dos trabalhos. Manuela Martins descreve o Projeto de Salvamento de Bracara Augusta como o primeiro projeto de Arqueologia Urbana criado em Portugal.

Em 1977, logo no arranque, apareceram no Alto da Cividade as ruínas de umas termas públicas romanas. Importa ver o que isso significava no terreno: os lotes estavam vendidos, os arruamentos abertos, o saneamento enterrado, e por baixo de tudo isso um balneário romano de que ninguém suspeitava. A Câmara Municipal de Braga suspendeu o processo construtivo numa área extensa, o que implicou uma complexa troca de terrenos com os proprietários dos lotes. Cerca de dezassete mil metros quadrados passaram a estar sob gestão do município e libertados da pressão de construir, para que neles se pudesse escavar. É uma decisão administrativa e nada espetacular, e sem ela nada do que se seguiu teria acontecido.

O segundo movimento institucional é de 1992. A Câmara Municipal criou um Gabinete de Arqueologia próprio, no âmbito do Centro Histórico, e a aprovação do Plano Diretor Municipal permitiu impor condicionantes arqueológicas a todas as obras realizadas no perímetro urbano. Na prática, os pedidos de licenciamento passaram a ser informados pelo gabinete municipal, e não pela tutela sediada em Lisboa. Aliviada da obrigação de acorrer a todas as emergências da cidade, a Unidade de Arqueologia da Universidade pôde finalmente voltar a escavações programadas.

Uma delas foi a das termas do Alto da Cividade, escavadas de forma extensiva entre 1992 e 1999. As termas estão classificadas como Monumento Nacional desde 1986 e foram musealizadas pela Câmara Municipal de Braga, em colaboração com a Unidade de Arqueologia e o Museu D. Diogo de Sousa, com apoio de fundos europeus. Abriram ao público em 2004.

O muro que apareceu porque as termas não faziam sentido

A descoberta do teatro tem uma explicação, e não é a sorte.

Em 1999, ao concluir as escavações das termas, a equipa procedia à definição do limite noroeste da palestra, o grande pátio do balneário. Foi aí que encontrou uma maciça estrutura arqueada, com vestígios de poderosos contrafortes, que vencia um desnível considerável entre as plataformas superior e inferior da colina. Reconheceu-a numa extensão de cerca de quinze metros. Era um troço do muro perimetral de um teatro, ladeado por uma rua que acompanhava a curva do muro e servia, ao mesmo tempo, de limite à palestra das termas.

Manuela Martins explicou mais tarde por que razão a escavação ali estava. Foi o estado fragmentário dos vestígios das termas, e muitas vezes a sua ausência, que determinou o progressivo alargamento das escavações muito para além dos limites físicos do edifício de banhos. Nas suas palavras, «foi a lenta procura da coerência do edifício termal que nos conduziu, afinal, à identificação de elementos fundamentais». O último deles foi o muro perimetral de um teatro anexo às termas.

O maior edifício da colina apareceu porque o mais pequeno não fechava. Uma pergunta por resolver sobre um balneário obrigou a escavar para fora dele, e do lado de fora estava um teatro.

O edifício

O teatro tem cerca de setenta e dois metros e sessenta e três centímetros de diâmetro máximo, duzentos e quarenta e cinco pés romanos. O número repete-se, sem variação, em publicações separadas por oito anos e escritas em duas línguas diferentes pela mesma equipa.

Reconstituição interpretativa, pintura. Os arqueólogos calculam, a partir da área das bancadas, que ali coubessem entre quatro mil e quatro mil e quinhentos espetadores. A frente do palco era de granito, com mármore importado usado pontualmente.
FIG. 03Reconstituição interpretativa, pintura. Os arqueólogos calculam, a partir da área das bancadas, que ali coubessem entre quatro mil e quatro mil e quinhentos espetadores. A frente do palco era de granito, com mármore importado usado pontualmente.

Vale a pena ver como se chega à capacidade, porque é o género de número que costuma ser dado como se alguém o tivesse contado. O diâmetro da cavea, a bancada, supõe uma superfície de três mil oitocentos e cinquenta metros quadrados. Descontando cerca de vinte por cento para o pórtico do topo e para as restantes circulações, sobram uns três mil metros quadrados úteis para os assentos. Atribuindo entre meio metro quadrado e um metro quadrado por pessoa, conforme a ordem das bancadas, obtém-se um total entre quatro mil e quatro mil e quinhentos espetadores. É uma estimativa feita a partir de uma superfície, e assim deve ser lida.

A razão de não se poder falar de lugares é a mesma: os teatros romanos não tinham lugares individuais, mas assentos contínuos, pelo que a capacidade variava conforme o espaço atribuído a cada pessoa.

O edifício foi construído nos inícios do século II, ao mesmo tempo que as termas públicas a sul, e os dois estão arquitetonicamente interligados. Ambos implicaram o arrasamento de construções anteriores, do século I, algumas das quais foram reaproveitadas como substruções para assentar a bancada. Mas há uma diferença entre eles que diz muito: as termas seguem os eixos da malha urbana fundacional; o teatro, pela sua dimensão e pela adaptação ao terreno, obrigou a romper essa malha. Sacrificaram-se dois decumanos e um cardo. Cortaram-se pelo menos três ruas, cujo espaço foi incorporado no novo projeto.

A frente cénica foi feita em granito, ainda que se tenham importado mármores usados pontualmente na ornamentação. Os arqueólogos leem essa escolha como aquilo que era: uma decisão sobre custo e sobre a imagem pública que se queria dar ao edifício.

E há uma reconstituição do processo de decisão romano que merece ser seguida até ao fim. Segundo os autores, numa obra pública romana a primeira decisão não era arquitetónica, era orçamental e política: definia-se quantos espetadores o teatro devia acolher, porque era esse número que determinava o diâmetro da bancada e, com ele, o custo de tudo o resto. A aprovação cabia à ordo decurionum, o governo da cidade, que tinha ainda de autorizar a alteração do sistema viário existente. Alguém, em Bracara Augusta, sentou-se e decidiu quantos espetadores a cidade devia poder acolher, e a partir daí a cidade teve de abrir espaço.

E é aqui que esta história tem de admitir o que não sabe. Quem foi essa pessoa, não se sabe. Quem pagou a obra, também não. Os arqueólogos admitem que o financiamento tenha sido garantido «através da contribuição de benfeitores, mas também de dinheiros públicos», e mais do que isso as fontes não dão: o processo de construção das obras públicas romanas, escrevem eles, «está pouco documentado, quer nas fontes históricas e literárias, quer na epigrafia».

Isto é mais do que uma lacuna de arquivo. Não sabemos quem encomendou o teatro, quem o desenhou, quem o pagou, quem trabalhou na obra, nem quem se sentou nas bancadas em nenhuma das tardes em que aquilo esteve cheio. O edifício de que ninguém escreveu também não guardou o nome de ninguém. A pedra sobreviveu inteira a toda a gente que a levantou.

Segundo Manuela Martins, o teatro constitui o primeiro edifício do género conhecido no Noroeste peninsular e o segundo identificado em território português, e a sua descoberta permitiu alterar a perceção historiográfica tradicional, que considerava que este tipo de equipamento estaria ausente das fundações urbanas da Galécia.

Campanha a campanha

O teatro não foi escavado de uma vez, nem depressa, e as próprias publicações da equipa enquadram o calendário de maneiras ligeiramente diferentes. Martins, em 2020, descreve uma primeira fase entre 2000 e 2004, para reconhecer a continuidade do muro perimetral, e depois, entre 2004 e 2007, o Projeto de Estudo Preliminar do Teatro, financiado pelo Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos, para identificar a scaena e a orchestra. O estudo de 2013 escreve «entre 2002 e 2012»; a comunicação em inglês de 2014 diz que o edifício foi escavado «após 2002»; o artigo de 2015 acrescenta sondagens realizadas entre 2008 e 2012. Não são versões incompatíveis, são recortes diferentes do mesmo trabalho contínuo, e por isso o mais honesto é dizer o que todas dizem: ao longo de mais de vinte anos.

Há, ainda assim, uma contagem oficial, e ela mede outra coisa. A ficha do sítio no Portal do Arqueólogo, o registo da Direção-Geral do Património Cultural, lista quinze campanhas de escavação: todos os anos entre 2003 e 2015, mais 2017 e 2018. Não é o prazo do projeto, é a lista dos trabalhos de campo autorizados: a identificação de 1999 e o seguimento do muro perimetral são anteriores à primeira campanha inscrita, e o registo não incorpora trabalhos posteriores a 2018, que demoram a ser publicados. O que aquele número dá não é a duração. É a intensidade: não uma grande operação, mas uma campanha por verão, ano após ano.

Reconstituição interpretativa, pintura. Por trás da frente do palco abria-se a fossa cénica. Lá dentro encontraram-se dois poços cavados na rocha, com cerca de três metros de fundo, e no fundo de cada um dois blocos de pedra com entalhes: por ali corriam as cordas que levantavam a cortina do teatro.
FIG. 04Reconstituição interpretativa, pintura. Por trás da frente do palco abria-se a fossa cénica. Lá dentro encontraram-se dois poços cavados na rocha, com cerca de três metros de fundo, e no fundo de cada um dois blocos de pedra com entalhes: por ali corriam as cordas que levantavam a cortina do teatro.

Do que saiu do chão, o essencial é isto. Em 2005, depois de removidos com máquinas os aterros modernos depositados na encosta nos anos setenta, apareceu uma área significativa da scaena, o corpo do palco, e colunas tombadas, algumas parcialmente soterradas sob sedimentos espessos. Em 2006, identificaram-se os limites conservados da basílica norte, os do pulpitum e as cimentações da frente cénica, além de parte do corredor de acesso do lado norte, que conservava um pavimento de lajes de granito.

No muro da frente do palco sobreviveu pintura a fresco, que revestiria toda a sua extensão; pelos restos de argamassa detetados, a parede poente do corredor de acesso seria igualmente pintada.

E por trás da frente do palco estava a máquina. A fossa cénica é o espaço onde ficavam os mecanismos que acionavam o siparium, a cortina que cobria a frente cénica. No seu interior foram encontrados, até agora, dois poços abertos na rocha alterada, com cerca de três metros de profundidade, perfeitamente alinhados de norte para sul; no fundo de cada um dispõem-se dois elementos de pedra paralelos, com entalhes, por onde passavam as cordas que sustentavam o sistema de elevação. Os autores supõem que devam existir cinco ou sete poços ao todo, mas isso é conjetura à espera de escavação. O que está confirmado são dois poços e os entalhes por onde correram as cordas de uma cortina de teatro.

Desde 2007, a colina é também uma estação-escola: são os alunos de Arqueologia da Universidade do Minho que, verão após verão, mantêm o estudo do teatro em curso.

O espólio móvel está hoje no Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa. O registo oficial arrola, entre os elementos arquitetónicos, fustes e bases de coluna, fragmentos de cornijas, frisos e um capitel coríntio, provável parente das colunas tombadas de 2005. Depois, a cerâmica de todos os períodos por que o sítio passou, do romano ao contemporâneo, com destaque para a terra sigillata, ânforas e lucernas; um número significativo de vidros; e um grande número de moedas do alto e do baixo império.

O anfiteatro, de que toda a gente escreveu

Do teatro, portanto, nunca ninguém escreveu. Nem os autores antigos, nem os cronistas medievais, nem os eruditos que, nos séculos XVII e XVIII, inventariaram as antiguidades de Braga com aplicação. Sobre um teatro romano nesta cidade, o silêncio é total.

Mas Braga escreveu, e muito, sobre um anfiteatro.

Braga é, no imaginário do país, a cidade dos arcebispos: já aqui contámos como um deles, Frei Bartolomeu dos Mártires, percorreu a pé, no século XVI, uma arquidiocese de mais de mil paróquias. E é numa história eclesiástica dos arcebispos de Braga, publicada em 1634, que se lê a primeira descrição conhecida de um edifício de espetáculos romano nesta cidade. O seu autor é o próprio arcebispo, D. Rodrigo da Cunha, e o que ele escreve é isto:

> «As memórias antiguas, que ha em Braga mostraõ que foi sempre cidade grandiosa. Sua primeira fundação, & assento naõ foi no lugar onde hoje se vê. Teue seu principio iunto à Igreja de Saõ Pedro de Maximinos onde se mostrão hoje ruínas de grandes edifícios, que dão testemunho de sua antigua maiestade. & ainda aparece hum como meo circulo lugar, onde estaua o amphiteatro, em que os Bracharenses ao modo Romano celebrauão suas festas.»

As citações desta parte vão todas na ortografia dos seus autores, que é a do tempo de cada um: o que parece erro é a maneira como então se escrevia. É também por isso que valem tanto. Lidas em sequência, mostram uma coisa que nenhum resumo mostraria.

Cem anos depois, Jerónimo Contador de Argote repete a notícia nas suas Memórias para a História Eclesiástica do Arcebispado de Braga e acrescenta, sem dar por isso, a informação mais valiosa de todas: a de que os vestígios estavam a desaparecer enquanto se escrevia sobre eles.

O Alto da Cividade: as pedras do teatro sob telas de proteção, e a cidade em cima. Pintura a partir de uma fotografia real do sítio (Joseolgon, 2020, CC0), com a luz mudada para o fim da tarde; a estrutura do terreno e os edifícios são os da fotografia.
FIG. 05O Alto da Cividade: as pedras do teatro sob telas de proteção, e a cidade em cima. Pintura a partir de uma fotografia real do sítio (Joseolgon, 2020, CC0), com a luz mudada para o fim da tarde; a estrutura do terreno e os edifícios são os da fotografia.

> «Fóra dos muros da Cidade, aonde agora está a Igreja de S. Pedro de Maximinos, estava o amfitheatro, onde se celebravaõ as festas, e jogos publicos; era redondo, e ainda no tempo do Illustrissimo Cunha appareciaõ vestigios muito claros da fabrica, segundo elle testifica na Historia dos Arcebispos de Braga, na primeira parte, capitulo terceiro. Hoje com trabalho se divisaõ as taes ruinas.»

Em 1751, o padre Luís Cardoso volta a descrevê-lo no segundo volume do seu Dicionário Geográfico, quase pelas mesmas palavras, e situa-o outra vez junto à paróquia de S. Pedro de Maximinos.

A última referência conhecida é de 1852 e tem uma ocasião concreta. Pereira Caldas, publicista bracarense, redigiu uns Apontamentos gerais sobre os mais notáveis objectos que podem atrair as atenções de SS. MM. F.F., na sua viagem pelo distrito de Braga em 1852, ou seja, um roteiro do que a rainha D. Maria II e o príncipe D. Fernando deviam ver quando passassem pela cidade. Entre a Sé, as muralhas antigas e o ídolo dos Granjinhos, arrola:

> «os restos escassos que ainda apparecem, nas escavações, d'antigo amphitheatro romano».

Os arqueólogos leem com atenção o substantivo escavações, e com razão: sugere que, a meio do século XIX, o edifício já estava inteiramente soterrado, e que era preciso escavar para tornar visível o que quer que dele restasse.

Depois de 1852, nada. As gerações seguintes de historiadores e arqueólogos (Sena Freitas, Albano Belino, Leite de Vasconcelos, José Teixeira, Arlindo R. da Cunha, Rigaud de Sousa) nunca mais o mencionam, certamente por já não encontrarem estruturas ou vestígios que lhe pudessem associar. A memória perde-se por completo.

Uma nota de rigor que a própria bibliografia faz questão de deixar registada: nada disto prova que o anfiteatro exista. Existe uma memória erudita persistente e coerente, existe a localização repetida por quatro autores em dois séculos, e existe o indício aéreo de que se falará já a seguir. Os arqueólogos chamam a esse conjunto «um poderoso testemunho da sua existência, que aguarda uma oportunidade de ser confirmada arqueologicamente». Nunca foi objeto de escavações.

E há um raciocínio, dos próprios arqueólogos, que corre em sentido inverso e que arruma a estranheza toda no sítio certo. Uma cidade que tinha um anfiteatro teria certamente também um teatro, porque este era o edifício muito mais frequente dos dois. O que precisava de explicação nunca foi a existência do teatro. Era o silêncio absoluto a seu respeito.

Braga era perfeitamente capaz de guardar dois séculos de memória escrita de um edifício destes. Guardou a do outro.

Duas fotografias aéreas

As duas formas ficaram impressas no terreno, e o terreno foi fotografado. É aí que as duas histórias se cruzam e se invertem.

Em 2001, o arqueólogo Rui Morais foi procurar o anfiteatro às fotografias. Analisando estereoscopicamente fotogramas aéreos de 1964, identificou nas proximidades da área tradicionalmente aceite para o edifício, junto a S. Pedro de Maximinos, uma «mancha» correspondente a um meio círculo, resultante da adaptação gradual do terreno a estruturas enterradas ou semienterradas. Mas o mesmo trabalho regista o que aconteceu a seguir: nos fotogramas de 1983, menos de vinte anos depois, a mancha já não se vê, coberta pelo crescimento urbano. A janela em que era possível lê-la do ar abriu e fechou dentro de uma geração.

Em 1634 o arcebispo D. Rodrigo da Cunha escreveu que junto a S. Pedro de Maximinos «ainda aparece hum como meo circulo lugar, onde estaua o amphiteatro». Isto é uma evocação do que ficou escrito, não do edifício: o anfiteatro de Braga nunca foi escavado e a sua existência continua por confirmar. Pintura. figura genérica, não retrato.
FIG. 06Em 1634 o arcebispo D. Rodrigo da Cunha escreveu que junto a S. Pedro de Maximinos «ainda aparece hum como meo circulo lugar, onde estaua o amphiteatro». Isto é uma evocação do que ficou escrito, não do edifício: o anfiteatro de Braga nunca foi escavado e a sua existência continua por confirmar. Pintura. figura genérica, não retrato.

Com o teatro deu-se exatamente o contrário, e é altura de voltar, com tudo o que se disse pelo meio, ao desenho com que este texto abriu. Ninguém escreveu sobre o teatro, mas alguém o desenhou sem saber o que estava a desenhar. Na planta de Braga levantada pelo engenheiro Francisco Goullard em 1883 e 1884 há uma concentração inusitada de curvas de nível precisamente no local que corresponde hoje aos limites da plataforma superior do Alto da Cividade. Essas curvas são a fossilização, no terreno, do declive da bancada mais alta do teatro. A mesma coisa se lê na fotografia aérea mais antiga que existe de Braga, de 1946.

A equipa que escavou o edifício foi explícita quanto ao que isso significa: trata-se de «uma memória cartográfica que não foi devidamente valorizada senão após a sua identificação arqueológica». O desenho existia, era público, estava impresso. Só se tornou legível depois de a escavação dizer o que era.

O anfiteatro esteve visível até deixar de o ser. O teatro esteve à vista sem que ninguém soubesse olhar.

O que ainda não está decidido

Falta a parte que não tem resposta, e vale mais dizê-la do que fingir que está arrumada.

A Unidade de Arqueologia apresentou à Câmara Municipal de Braga, em 2007 e de novo em 2010, um programa de estudo, valorização e adequação do teatro à visita. Contemplava a escavação integral do edifício, um projeto de restauro, uma cobertura de proteção e um sistema de informação para quem visitasse.

Em 2020, Manuela Martins escrevia com franqueza sobre o que tinha acontecido a esse género de propostas. A valorização do património arqueológico identificado em Braga desde 1976 representava, na sua avaliação, «a vertente mais frágil da arqueologia bracarense». E explicava porquê: ainda que as decisões sobre conservar os vestígios sejam da competência dos arqueólogos, «a responsabilidade de os classificar e de os adequar ao usufruto público depende de decisões que extravasam em muito o foro científico», inserindo-se na gestão do património e nas estratégias de valorização cultural, com os seus ciclos políticos e económicos.

O caso do próprio teatro ilustra a frase. Não está classificado. Quem tem a classificação de Monumento Nacional são as termas, desde 1986; o teatro está em zona de proteção de monumento classificado, o que é coisa diferente. Se ninguém construiu por cima, deveu-se a essa proteção e à propriedade municipal do terreno. A figura administrativa que o salvou e a que o abriria ao público não são a mesma coisa, nem dependem de quem o escavou.

O calendário público que se conhece é este. Em julho de 2023, no Dia Internacional da Arqueologia, o então presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio, e o reitor da Universidade do Minho, Rui Vieira de Castro, visitaram os trabalhos e anunciaram que pretendiam abrir o teatro ao público até 2025.

Em 2024 foi adjudicada, por três milhões e oitocentos mil euros, a musealização da vizinha Ínsula das Carvalheiras, com centro de interpretação e parque urbano; em março de 2026, com o prazo prorrogado por mais cento e quarenta dias, a autarquia previa inaugurá-la em agosto. No mesmo mês, o presidente da Câmara Municipal, João Rodrigues, anunciou à agência EFE que o teatro tinha sido desenterrado e que abriria ao público depois de inaugurada a ínsula.

Este texto não diz o que um visitante encontrará no Alto da Cividade no dia em que o ler. As datas anunciadas escorregaram mais do que uma vez, como costuma acontecer a obras de musealização em sítios arqueológicos vivos, onde a escavação e o projeto de visita se condicionam mutuamente.

O que é estável é o resto. As termas do Alto da Cividade estão abertas desde 2004, dentro da área arqueológica de que o teatro faz parte. E os alunos voltam todos os verões.

Desde 2007 a colina é estação-escola: são os alunos de Arqueologia da Universidade do Minho que ali voltam, verão após verão. Pintura. figuras genéricas.
FIG. 07Desde 2007 a colina é estação-escola: são os alunos de Arqueologia da Universidade do Minho que ali voltam, verão após verão. Pintura. figuras genéricas.

A memória e a pedra

Do teatro não havia uma linha escrita, e há o edifício: o muro que apareceu porque ninguém andava à procura dele, os setenta e dois metros, os poços onde corriam as cordas da cortina.

Do anfiteatro há dois séculos de linhas escritas, de 1634 a 1852. Nunca foi escavado, e a sua existência continua por confirmar. O último indício que se lhe atribui é uma mancha em meio círculo num fotograma aéreo de 1964.

Braga encontrou o edifício de que nunca ninguém escreveu. O que dois séculos de livros descreveram continua por abrir.

Fontes

Bibliografia académica (toda em acesso aberto)

- Manuela MARTINS, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «A arqueologia urbana em Braga e a descoberta do teatro romano de Bracara Augusta», Forum 40, Jul.-Dez. 2006, pp. 9-30. RepositóriUM, Universidade do Minho. O relato primeiro da descoberta, pela equipa que a fez; é aqui que estão a planta de Goullard e a fotografia aérea de 1946. - Manuela MARTINS, Ricardo MAR, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «A construção do teatro romano de Bracara Augusta», in Arnaldo Sousa Melo e Maria do Carmo Ribeiro (coord.), História da Construção. Arquiteturas e Técnicas Construtivas, CITCEM/LAMOP, Braga, 2013, pp. 41-76. A monografia arquitetónica: dimensões, cálculo da capacidade, fossa cénica, processo construtivo. - Manuela MARTINS, Ricardo MAR, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «The Roman Theatre of Bracara Augusta», XVIII Congreso Internacional de Arqueología Clásica, Mérida, 2014, pp. 861-864. - Manuela MARTINS et al., «El teatro romano de Bracara Augusta y la urbanización del noroeste peninsular», Férvedes 8, 2015, pp. 321-330. - Manuela MARTINS, «Um passado com futuro. O projeto de intervenção arqueológica na colina do Alto da Cividade, Braga», in La arqueología urbana en las ciudades de la Hispania romana, Mérida, 2020, pp. 167-186. A retrospetiva da responsável, incluindo a passagem sobre a fragilidade da valorização. - Rui MORAIS, «Breve ensaio sobre o anfiteatro de Bracara Avgvsta. Análise de fotogramas de 1964», Forum 30, Jul.-Dez. 2001, pp. 55-76. O dossiê do anfiteatro, com todas as citações eruditas transcritas. - Fernanda MAGALHÃES, Bracara Augusta 132, 2025, pp. 15-35. Balanço mais recente de quase cinco décadas de escavações em Braga.

Fontes antigas citadas (transcritas por Morais 2001 e por Martins et al. 2006)

- D. Rodrigo da CUNHA, História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga, 1634. - Jerónimo Contador de ARGOTE, Memórias para a História Eclesiástica do Arcebispado de Braga, 1732-1734. - Pe. Luís CARDOSO, Dicionário Geográfico, vol. II, 1751. - José Joaquim PEREIRA CALDAS, Apontamentos gerais sobre os mais notáveis objectos que podem atrair as atenções de SS. MM. F.F., na sua viagem pelo distrito de Braga em 1852.

Institucional e imprensa

- Direção-Geral do Património Cultural, Portal do Arqueólogo, ficha do sítio 22970, «Braga - Teatro romano de Bracara Augusta»: descrição, lista das quinze campanhas de escavação, espólio, depositário e classificação. - Câmara Municipal de Braga, páginas do Braga Romana e do património arqueológico municipal (termas do Alto da Cividade, classificação e abertura ao público). - Jornal de Notícias e Diário do Minho, julho de 2023, sobre o anúncio de abertura do teatro até 2025. - Correio do Minho, março de 2026, sobre o calendário da Ínsula das Carvalheiras. - Agência EFE, março de 2026, entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Braga.

Notas de honestidade

- O diâmetro do teatro é de 72,63 m. Circula em fontes de divulgação um valor mais alto, que na verdade se refere à área escavada e não ao edifício. Não o usámos em lado nenhum. - A capacidade de quatro mil a quatro mil e quinhentos espetadores é uma estimativa, calculada a partir da superfície da bancada, e não uma contagem. Mostrámos o cálculo acima por isso mesmo. - Evitámos o superlativo que circula sobre este teatro em textos de divulgação. Não o encontrámos em nenhuma fonte académica que tenhamos lido, pelo que usámos apenas a formulação da própria equipa que escavou o sítio, e sempre atribuída. - O anfiteatro não está confirmado arqueologicamente. O que está documentado é a memória escrita, de 1634 a 1852, e o indício fotográfico de 1964. Nunca foi escavado. - O total de poços da fossa cénica não é conhecido. Dois estão escavados; cinco ou sete é conjetura dos autores, e assim a demos. - O teatro não é Monumento Nacional. Essa classificação é das termas, desde 1986. O teatro está em zona de proteção de monumento classificado. - Sobre a escavação de 2026 dizemos apenas quem a anunciou e onde. Não encontrámos confirmação independente dos valores e prazos avançados nessa ocasião, pelo que não os usámos.