Numa planta de Braga levantada em 1883, as linhas que marcam o relevo apertam-se em arco no cimo de uma colina. É um teatro romano enterrado. Não se conhece um único texto, de nenhuma época, que diga que ele existiu.
E ninguém deu por isso durante mais de um século. A mesma curva está na fotografia aérea mais antiga que existe da cidade, de 1946, e também aí ninguém a leu. O desenho esteve impresso, público e à vista de todos durante todo esse tempo, e só se tornou legível em 1999, quando arqueólogos que mediam o limite de um pátio, naquela mesma colina, deram com um muro curvo de contrafortes maciços.
Tem mais de setenta metros de diâmetro. Os arqueólogos calculam, a partir da área das bancadas, que coubessem lá dentro entre quatro mil e quatro mil e quinhentos espetadores.
Um edifício deste tamanho, e nem uma linha.

A Braga romana chamava-se Bracara Augusta. A cidade que veio depois cresceu desencontrada dela, para norte e para nascente, e por isso a maior parte da área antiga ficou à margem: terrenos agrícolas dentro de grandes quintas, e assim se mantiveram até meados do século XX. O esquecimento foi o que a guardou. Ninguém se lembrava do que estava ali, e por isso ninguém construiu por cima.
A partir dos anos cinquenta e sessenta o crescimento virou-se para sul e para oeste, e os vestígios romanos começaram a ser atingidos. No início dos anos setenta a colina estava projetada para ser urbanizada, ao abrigo de um plano que previa uma rua entre as duas plataformas. Foi para a abrir que as máquinas rasgaram a encosta, destruindo em profundidade o setor sul das bancadas. Ninguém sabia que ali estava um teatro.
Em 1976, um decreto-lei entregou as escavações de Braga à Universidade do Minho, que criou para o efeito a Unidade de Arqueologia. Em 1977 apareceram, na mesma colina, umas termas públicas romanas. A Câmara Municipal de Braga suspendeu ali a construção e trocou terrenos com os donos dos lotes: cerca de dezassete mil metros quadrados passaram para o município e ficaram por edificar. As termas foram escavadas ao longo dos anos noventa.

O teatro não apareceu por sorte. Manuela Martins, a arqueóloga que dirigiu o projeto, escreveu-o sem rodeios, anos mais tarde: foi o estado fragmentário dos vestígios das termas, e muitas vezes a sua ausência, que obrigou a alargar as escavações muito para além dos limites do próprio edifício de banhos. Foi a lenta procura da coerência de um edifício que não fechava que conduziu, afinal, ao muro de um teatro.
Campanha a campanha, ao longo de mais de vinte anos, o edifício foi saindo do chão: o registo oficial do Estado conta quinze escavações. Em 2005 descobriu-se uma parte significativa do corpo do palco e colunas tombadas, meio soterradas sob sedimentos espessos. Em 2006 apareceram o estrado que os atores pisavam, as fundações do cenário de pedra que fechava o palco e o corredor por onde entrariam os espetadores de honra, ainda com o seu pavimento de lajes de granito.
No muro da frente do palco sobreviveu pintura a fresco. E por trás dele estava a fossa cénica, a casa das máquinas do teatro: dois poços abertos na rocha, com cerca de três metros de fundo, alinhados de norte para sul, e no fundo de cada um dois blocos de pedra com entalhes, por onde corriam as cordas que levantavam a cortina.

Foi construído nos inícios do século II, ao mesmo tempo que as termas ali ao lado, e para o encaixar na encosta cortaram-se pelo menos três das ruas com que a cidade fora desenhada de raiz.
Alguém pagou por aquilo. Os arqueólogos admitem que a obra tenha sido paga por benfeitores a par de dinheiros públicos, mas as obras públicas romanas estão pouco documentadas, até na epigrafia, e não se conhece um único nome: nem o de quem pagou, nem o de quem desenhou, nem o de quem lá se sentou. O edifício de que ninguém escreveu também não guardou o nome de ninguém.
Segundo Manuela Martins, é o primeiro edifício do género conhecido no Noroeste peninsular e o segundo identificado em território português; a descoberta alterou a ideia, até aí corrente, de que as cidades romanas fundadas nesta região não teriam tido teatros.

Do teatro, portanto, nunca ninguém escreveu. Mas Braga escreveu, e muito, sobre um anfiteatro.
Braga é, no imaginário do país, a cidade dos arcebispos: já aqui contámos como um deles, Frei Bartolomeu dos Mártires, percorreu a pé uma arquidiocese de mais de mil paróquias. E é numa história eclesiástica dos arcebispos de Braga, de 1634, que se lê a primeira descrição conhecida de um edifício de espetáculos romano nesta cidade. O autor, o arcebispo D. Rodrigo da Cunha, aponta para a paróquia de S. Pedro de Maximinos e escreve que ali «ainda aparece hum como meo circulo lugar, onde estaua o amphiteatro, em que os Bracharenses ao modo Romano celebrauão suas festas». A grafia é a do tempo dele, e assim se mantém aqui e nas citações seguintes.
Cem anos depois, Jerónimo Contador de Argote repete a informação e acrescenta o que entretanto mudou: no tempo de D. Rodrigo da Cunha «appareciaõ vestigios muito claros da fabrica»; agora, escreve ele, «com trabalho se divisaõ as taes ruinas». Em 1751 o padre Luís Cardoso volta a descrevê-lo quase pelas mesmas palavras. E em 1852 Pereira Caldas arrola, entre as coisas notáveis que a rainha D. Maria II e o príncipe D. Fernando deviam ver em Braga, «os restos escassos que ainda apparecem, nas escavações, d'antigo amphitheatro romano».

Depois de 1852, nada. Os historiadores e arqueólogos das gerações seguintes nunca mais o mencionam, certamente por já não encontrarem nada que lhe pudessem associar.
Braga era perfeitamente capaz de guardar dois séculos de memória escrita de um edifício destes. Guardou a do outro.
Em 2001, o arqueólogo Rui Morais foi procurá-lo às fotografias. Analisando fotogramas aéreos de 1964, encontrou junto a S. Pedro de Maximinos uma mancha em meio círculo, que interpretou como o desenho deixado à superfície por estruturas enterradas. Nos fotogramas de 1983 a mancha já não aparece, coberta pelo crescimento da cidade.

Com o teatro deu-se o contrário. O arco apertado que o engenheiro Francisco Goullard desenhou na sua planta é o declive da bancada mais alta, fossilizado no terreno: Goullard mediu a forma do edifício sem nunca saber que a estava a medir. O anfiteatro esteve visível até deixar de o ser. O teatro esteve à vista sem que ninguém soubesse olhar.
O teatro está no Alto da Cividade, encostado às termas romanas, abertas ao público desde 2004; e desde 2007 a colina é estação-escola, para onde os alunos de Arqueologia da Universidade do Minho voltam verão após verão. Do outro lado, em Maximinos, o sítio que os eruditos apontaram está hoje debaixo de urbanizações recentes.
Do teatro não havia uma linha escrita, e há o edifício: o muro que apareceu porque ninguém andava à procura dele, os setenta e dois metros, os poços onde corriam as cordas da cortina.
Do anfiteatro há dois séculos de linhas escritas, de 1634 a 1852. Nunca foi escavado, e a sua existência continua por confirmar. O último indício que se lhe atribui é uma mancha em meio círculo num fotograma aéreo de 1964.
Braga encontrou o edifício de que nunca ninguém escreveu. O que dois séculos de livros descreveram continua por abrir.
Fontes16 referências
Bibliografia académica (toda em acesso aberto)
- Manuela MARTINS, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «A arqueologia urbana em Braga e a descoberta do teatro romano de Bracara Augusta», Forum 40, Jul.-Dez. 2006, pp. 9-30. RepositóriUM, Universidade do Minho. O relato primeiro da descoberta, pela equipa que a fez; é aqui que estão a planta de Goullard e a fotografia aérea de 1946.
- Manuela MARTINS, Ricardo MAR, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «A construção do teatro romano de Bracara Augusta», in Arnaldo Sousa Melo e Maria do Carmo Ribeiro (coord.), História da Construção. Arquiteturas e Técnicas Construtivas, CITCEM/LAMOP, Braga, 2013, pp. 41-76. A monografia arquitetónica: dimensões, cálculo da capacidade, fossa cénica, processo construtivo.
- Manuela MARTINS, Ricardo MAR, Jorge RIBEIRO e Fernanda MAGALHÃES, «The Roman Theatre of Bracara Augusta», XVIII Congreso Internacional de Arqueología Clásica, Mérida, 2014, pp. 861-864.
- Manuela MARTINS et al., «El teatro romano de Bracara Augusta y la urbanización del noroeste peninsular», Férvedes 8, 2015, pp. 321-330.
- Manuela MARTINS, «Um passado com futuro. O projeto de intervenção arqueológica na colina do Alto da Cividade, Braga», in La arqueología urbana en las ciudades de la Hispania romana, Mérida, 2020, pp. 167-186. A retrospetiva da responsável, incluindo a passagem sobre a fragilidade da valorização.
- Rui MORAIS, «Breve ensaio sobre o anfiteatro de Bracara Avgvsta. Análise de fotogramas de 1964», Forum 30, Jul.-Dez. 2001, pp. 55-76. O dossiê do anfiteatro, com todas as citações eruditas transcritas.
- Fernanda MAGALHÃES, Bracara Augusta 132, 2025, pp. 15-35. Balanço mais recente de quase cinco décadas de escavações em Braga.
Fontes antigas citadas (transcritas por Morais 2001 e por Martins et al. 2006)
- D. Rodrigo da CUNHA, História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga, 1634.
- Jerónimo Contador de ARGOTE, Memórias para a História Eclesiástica do Arcebispado de Braga, 1732-1734.
- Pe. Luís CARDOSO, Dicionário Geográfico, vol. II, 1751.
- José Joaquim PEREIRA CALDAS, Apontamentos gerais sobre os mais notáveis objectos que podem atrair as atenções de SS. MM. F.F., na sua viagem pelo distrito de Braga em 1852.
Institucional e imprensa
- Direção-Geral do Património Cultural, Portal do Arqueólogo, ficha do sítio 22970, «Braga - Teatro romano de Bracara Augusta»: descrição, lista das quinze campanhas de escavação, espólio, depositário e classificação.
- Câmara Municipal de Braga, páginas do Braga Romana e do património arqueológico municipal (termas do Alto da Cividade, classificação e abertura ao público).
- Jornal de Notícias e Diário do Minho, julho de 2023, sobre o anúncio de abertura do teatro até 2025.
- Correio do Minho, março de 2026, sobre o calendário da Ínsula das Carvalheiras.
- Agência EFE, março de 2026, entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Braga.
