É o crânio mais antigo que Portugal tem. Saiu do chão de uma gruta em Torres Novas, preso num bloco de pedra, com cerca de quatrocentos mil anos.
E, sobre ele, há uma pergunta simples a que ninguém, até hoje, conseguiu responder.

O crânio da Aroeira: o fóssil humano mais antigo de Portugal
Chama-se «Aroeira 3». É um crânio humano, encontrado a 14 de julho de 2014 na gruta da Aroeira, no sistema de grutas da nascente do rio Almonda, em Torres Novas; a descoberta só foi tornada pública na primavera de 2017. Várias análises independentes deram-lhe cerca de quatrocentos mil anos. É o vestígio humano mais antigo alguma vez encontrado em Portugal, e o crânio mais ocidental de toda a Europa do seu tempo. Não é uma data numa placa nem um nome num manual: é o osso de uma pessoa que viveu neste chão. E convém dizer com clareza o que sobreviveu, porque é pouco: quase toda a metade direita da calote craniana, sem o osso occipital, e um fragmento do maxilar direito com parte do pavimento nasal e dois molares partidos. Meia caixa craniana e um pedaço de maxilar superior. É tudo. E é mais do que qualquer outro sítio do país guardou.

Como foi encontrado e extraído da rocha em Madrid
Ter sequer esse pouco em cima de uma mesa deu um trabalho enorme. O crânio não saiu limpo da terra. Saiu agarrado a um grande bloco de brecha, o sedimento da própria gruta endurecido ao longo dos milénios, duro como rocha. O bloco viajou inteiro até Madrid, à Universidade Complutense, onde uma equipa internacional dirigida por Juan Luis Arsuaga passou cerca de dois anos a libertá-lo, grão a grão, a estudá-lo e a restaurá-lo. Só depois é que o crânio regressou a Portugal.

A gruta da Aroeira: ferramentas de pedra e indícios de fogo
E a gruta não era um túmulo. Era um lugar onde se vivia. À volta do crânio apareceram machados de mão acheulenses, o utensílio de pedra talhada daquela era, e uma abundância de ossos de animais. Foi gente que ali lascou pedra, se abrigou e comeu o que a serra à volta lhe dava. E alguns desses ossos estavam queimados. Segundo os investigadores, esses vestígios de combustão sugerem o uso controlado do fogo no local, o que seria um dos mais antigos indícios de fogo aceso por mãos humanas em todo o sudoeste da Europa.

O crânio veio coroar cerca de trinta anos de escavações no complexo do Almonda: já entre 1998 e 2002 o mesmo sistema de grutas dera dois dentes humanos, batizados Aroeira 1 e Aroeira 2, também com cerca de quatrocentos mil anos.

De que espécie era o crânio da Aroeira?
Datámo-lo. Restaurámo-lo. Pusemo-lo no ponto mais ocidental de todo o mapa europeu do seu tempo, à beira do Atlântico onde a Europa acaba. E depois esbarrámos na pergunta mais simples de todas: quem era ele? Os traços do crânio não encaixam em caixa nenhuma. Não é plenamente arcaico, nem é plenamente neandertal. Os próprios cientistas que o estudaram recusaram fechá-lo numa espécie: no artigo que publicaram em 2017 na revista científica PNAS, escreveram apenas que a combinação de traços «aumenta a diversidade já documentada» no registo europeu daquela era, e deixaram-no dentro de um debate ainda em aberto, o da origem dos neandertais. As enciclopédias arrumam-no muitas vezes como «Homo heidelbergensis», mas a etiqueta está longe de ser consensual, e não foi a que os autores lhe deram.
O crânio da Aroeira e o tempo profundo de Portugal
É mais antigo do que quase tudo aquilo a que costumamos chamar história. Mais antigo do que os nomes, mais antigo do que a nossa própria espécie ter-se espalhado pela Europa. No outro extremo desse tempo profundo português estão as gravuras do vale do Côa, arte rupestre de há dezenas de milhares de anos: Aroeira e Côa são dois pontos muito afastados da mesma linha de fundura. Foi, aliás, o mesmo arqueólogo, João Zilhão, quem esteve à frente das escavações do Almonda e, anos antes, da defesa das gravuras do Côa.
O regresso do crânio da Aroeira a Torres Novas
Depois de Madrid, o crânio foi depositado no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, em 2018. Ficou lá seis anos. E a 8 de julho de 2024 fez a última viagem que lhe restava fazer: voltou para Torres Novas, para o Núcleo de Arqueologia - Cerca da Vila, do Museu Municipal Carlos Reis, a poucos quilómetros da gruta de onde tinha saído. «Para nós era imperativo poder fazê-lo aqui», disse na altura a vereadora da Cultura do município, Elvira Sequeira, à agência Lusa: «ele foi encontrado em Torres Novas.» Ao fim de quatrocentos mil anos, voltou ao sítio de onde veio.
Demos-lhe um número, uma data, um lugar e o caminho de casa. Falta-lhe o nome. Há perguntas que ficam abertas não porque deixámos de procurar, mas porque a resposta continua na pedra.