No vale do Vez, no Alto Minho, dois exércitos acamparam frente a frente para uma guerra entre primos. Conta a crónica que, entre um acampamento e o outro, os cavaleiros saíram ao campo para jogar. E foi no jogo, não em batalha nenhuma, que os portugueses prenderam o irmão do imperador.

Os primos eram Afonso Henriques e Afonso VII de Leão e Castela, um coroado imperador de toda a Hispânia na catedral de Leão, em 1135, o outro a usar um título de rei que ninguém lhe reconhecia ainda. Há quase novecentos anos trouxeram os seus exércitos ao mesmo vale do Alto Minho, e o que ali se passou quase não entra na História que se aprende na escola, talvez porque não houve batalha para contar. O que houve foi mais estranho. E decidiu mais.

Do arraial do imperador vinham homens ao campo «para jogar», «aquilo a que o povo chama bufúrdio», conta a crónica. Um jogo a cavalo, com quedas a valer. E foi no jogo que os portugueses prenderam grandes senhores do exército imperial. Pintura.
FIG. 02Do arraial do imperador vinham homens ao campo «para jogar», «aquilo a que o povo chama bufúrdio», conta a crónica. Um jogo a cavalo, com quedas a valer. E foi no jogo que os portugueses prenderam grandes senhores do exército imperial. Pintura.

A guerra entre Afonso Henriques e Afonso VII

A guerra era a sério. A crónica do lado imperial conta que Fernão Joanes, comandante na Límia, guerreava todos os dias o rei de Portugal, e que numa dessas refregas o próprio Afonso Henriques foi ferido por uma lança e demorou dias a curar-se. O custo pagava-se também longe dali: a crónica portuguesa regista que, enquanto o rei andava retido no Norte, perto de Tui, os mouros atacaram e queimaram o castelo de Leiria.

Há quase novecentos anos, dois exércitos acamparam frente a frente no vale do Vez, no Alto Minho, «estes de uma parte e aqueles da outra». Batalha, não houve nenhuma. Pintura.
FIG. 03Há quase novecentos anos, dois exércitos acamparam frente a frente no vale do Vez, no Alto Minho, «estes de uma parte e aqueles da outra». Batalha, não houve nenhuma. Pintura.

Foi nesse tabuleiro que o imperador juntou um exército de Castela e da Galiza e marchou para entrar em Portugal. Afonso Henriques saiu-lhe ao caminho e cortou-lhe a passagem no vale do Vez, afluente do Lima. Acamparam frente a frente, escreve o cronista, estes de uma parte e aqueles da outra, com o vale de permeio. Filas de tendas de um lado; filas de tendas do outro.

Entre os capturados nos jogos, a crónica portuguesa nomeia Fernando Furtado, irmão do imperador, e alguns dos principais senhores de Leão. Quando se fez a paz, todos voltaram livres. Evocação; pintura.
FIG. 04Entre os capturados nos jogos, a crónica portuguesa nomeia Fernando Furtado, irmão do imperador, e alguns dos principais senhores de Leão. Quando se fez a paz, todos voltaram livres. Evocação; pintura.

O bufúrdio: o jogo que tomou o lugar da batalha

O que se seguiu não vem nos manuais de guerra. Conta a Chronica Gothorum, a crónica portuguesa mais próxima dos acontecimentos, que do arraial do imperador vinham homens ao campo «para jogar», «aquilo a que o povo chama bufúrdio», e que do lado do rei de Portugal lhes saíam logo cavaleiros ao encontro, a jogar com eles. Como se jogava ao certo, nenhuma das crónicas explica; sabe-se que era a cavalo, e que se caía a valer. E foi nesse jogo que os portugueses prenderam alguns dos maiores senhores do exército imperial. Fernando Furtado, irmão do imperador. O cônsul Ponço de Cabreira, um dos principais magnates de Leão. Vermudo Peres, Rodrigo Fernandes, Martim Cabra, «e muitos outros que com eles tinham vindo».

O Paço de Giela, em Arcos de Valdevez. A torre é do século XIV, posterior ao recontro, mas é hoje o palco da recriação anual de julho e dedica um piso do seu espaço museológico ao episódio. Pintura a partir de fotografia real de Vitor Oliveira (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).
FIG. 05O Paço de Giela, em Arcos de Valdevez. A torre é do século XIV, posterior ao recontro, mas é hoje o palco da recriação anual de julho e dedica um piso do seu espaço museológico ao episódio. Pintura a partir de fotografia real de Vitor Oliveira (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).

A mesma cena vista da corte do imperador

Nenhuma das duas crónicas escreve a palavra «torneio»; esse rótulo veio depois. Mas o episódio tem uma segunda testemunha, do outro lado da fronteira. A crónica do imperador, escrita na sua corte, conta o mesmo dia à sua maneira: os acampamentos frente a frente na Portela do Vez, junto à Penha da Rainha, e os nobres dos dois exércitos a descer ao vale para combates singulares, travados «sem o consentimento do imperador», com quedas e capturas dos dois lados. Na mesma campanha, acrescenta, os portugueses já tinham derrotado e aprisionado o conde Ramiro.

«E cada um voltou, em paz, para a sua terra.» Os castelos devolvidos de parte a parte, os cavaleiros todos soltos e, escrevem as crónicas, paz por muitos anos. Pintura.
FIG. 06«E cada um voltou, em paz, para a sua terra.» Os castelos devolvidos de parte a parte, os cavaleiros todos soltos e, escrevem as crónicas, paz por muitos anos. Pintura.

Uma só tenda: como acabou o Recontro de Valdevez

O imperador fez então uma coisa que vale por muitas batalhas: mandou chamar o arcebispo de Braga, D. João, e outros homens bons, para tratarem da paz. A crónica portuguesa explica-lhe o gesto ao seu jeito, com Deus do lado do rei de Portugal; é o cronista a falar, claro. No desfecho, porém, as duas crónicas encontram-se. Os dois monarcas juntaram-se numa só tenda, beijaram-se, comeram e beberam juntos, falaram a sós, em segredo. Um vale cheio de tendas inimigas, e a paz coube numa única.

Cada corte levou para casa a sua versão. A crónica portuguesa diz que o imperador viu que tudo corria de feição ao rei de Portugal e que era escusado teimar. A crónica leonesa diz que foram os nobres portugueses mais velhos a aconselhar o seu rei a pedir a paz, porque Portugal era o lado mais fraco. Duas chancelarias, dois orgulhos, o mesmo resultado: os castelos tomados foram devolvidos de parte a parte, todos os cavaleiros presos ficaram livres, «e houve paz entre eles por muitos anos». Num século em que as guerras costumavam acabar em cercos e em fome, esta acabou com tudo devolvido, toda a gente solta e uma refeição partilhada.

De Valdevez a Zamora (1143)

Poucos anos depois, em outubro de 1143, os primos voltaram a encontrar-se, desta vez em Zamora, com um mediador conhecido: o mesmo arcebispo de Braga, D. João Peculiar, agora acompanhado do cardeal Guido de Vico, legado do papa. Do que ali ficou combinado não sobreviveu nenhum documento que registe um reconhecimento formal da independência; o «tratado de Zamora» dos manuais é mais frágil no papel do que na memória. O que os documentos mostram é mais simples: a partir daí, Afonso Henriques usa o título de rei. A palavra definitiva de Roma ainda demorou uma geração, até à bula de 1179. Mas o caminho que levou ao título passou por um vale do Alto Minho onde a guerra se desfez num jogo.

A recriação histórica no Paço de Giela

Todos os julhos, o vale volta a encher-se de tendas. No Paço de Giela, uma casa-torre erguida quase dois séculos depois do recontro, e que hoje lhe dedica um piso inteiro do seu espaço museológico, milhares de pessoas vêm ver a recriação, de entrada livre: o acampamento, os treinos dos guerreiros, a falcoaria, os cavaleiros no vale. Vêm ver o dia em que dois exércitos se encontraram e ninguém deu batalha nenhuma. A crónica fechou o episódio numa linha só: «e cada um voltou, em paz, para a sua terra».