Venerado como o primeiro mártir cristão, morreu apedrejado. Antes disso, a sua função tinha sido outra: dar de comer aos pobres. Estêvão era um dos sete diáconos encarregados de repartir o alimento pela comunidade, e foi morto à pedrada por causa daquilo que pregava. A Igreja recorda-o a 26 de dezembro, no dia a seguir ao Natal. Pedra e pão, lado a lado, na vida de um só homem.
Essa colisão antiga não ficou só nas Escrituras. Tem morada em Portugal, numa freguesia serrana do concelho de Mafra por onde quase ninguém para: Santo Estêvão das Galés, a metade mais velha de uma terra que a maioria conhece apenas como um nome na estrada, a Venda do Pinheiro. E já o nome é um enigma: galés, palavra de mar, numa serra de onde o mar nem se vê.

Quem segue de Lisboa para Mafra atravessa a Venda do Pinheiro de passagem. É hoje uma povoação de beira de estrada, com o nome tirado, diz a tradição, de uma venda, uma taberna à sombra de um pinheiro, onde em tempos se vendia carne, coisa rara por aqueles lados. O pinheiro há muito que desapareceu; o nome ficou, fixado de boca em boca: «vamos à venda do pinheiro». Mas a estrada engana. Do outro lado da freguesia, serra acima, está um chão muito mais antigo do que aparenta: a terra pertenceu ao concelho dos Olivais até 1886, e em Monfirre, ali ao lado, foi identificado em 1993 um túmulo romano com perto de dois mil anos. Por estas mesmas colinas passou também, há dois séculos, a muralha secreta das Linhas de Torres Vedras, que noutra história contámos.

Mas a história mais estranha desta terra não é de pedra de forte. É de pedra atirada.

Conta a lenda, recolhida em 1949 mas vinda «de tempos remotíssimos», que o povo daquelas alturas, já desesperado, se voltou contra a imagem do próprio padroeiro, contra o santo que o devia proteger. «Passou a correr o santo à pedrada, para o vale», diz a tradição: a apedrejar a figura do santo para a empurrar serra abaixo, para fora da sua vida. Mas a imagem voltava sempre a aparecer no alto. Por mais que a corressem, por mais pedras que lhe atirassem, ela teimava em regressar ao cimo do monte. As mesmas pedras, uma e outra vez, contra um santo que já uma vez fora morto com elas.

E então a lenda dá a volta. Em vez de castigar quem o apedrejava, conta-se que o santo, «todo cheio de bondade, transformou as pedras em pães e ofereceu-os aos seus apedrejadores». Aquilo que lhe atiravam para o expulsar voltou às mãos do povo como alimento. Num só gesto, as duas metades da vida de Estêvão, a morte pela pedra e o ofício do pão, fecharam-se ali, no alto de uma serra portuguesa, sobre quem primeiro o agredira e a seguir comeu da sua mão.
Desse milagre ficou um costume. Chama-se a Festa dos Merendeiros, e ainda hoje se reparte pão pela quadra do Natal, na véspera do dia do santo. A igreja foi levantada onde a imagem teimava em voltar, no lugar que ela escolheu, sobre a pedra do monte. Uma resposta antiga à violência, repetida todos os anos, num sítio onde ninguém para.
Fica, no fim, o enigma do princípio. «Das Galés»: as galés eram os navios de remo, e galés eram também os homens condenados a remar neles. Mas isto é uma aldeia de monte seco, a léguas do mar, de onde até as águas fogem para o oceano: daqui nasce o rio Lizandro, que se vai embora a caminho da Ericeira. De qualquer galé verdadeira, nenhum documento diz nada. É um mistério que a terra guarda calada, como guarda o pinheiro que já não existe e o túmulo romano debaixo dos campos.
O primeiro mártir foi morto com pedras. Aqui, todos os dezembros, as pedras continuam a virar pão, no alto de uma serra, sobre uma estrada por onde ninguém abranda.