No alto da Serra de Sintra, no cume a que chamam o Alto do Monge, há um lugar conhecido como o Memorial dos Soldados. Ali crescem ciprestes, altos e escuros, virados para o mar; sobre o penedo mais alto ergue-se uma cruz branca, e numa rocha há uma lápide gasta pelo tempo. Todos os anos, em setembro, alguém sobe até lá e deixa, junto aos troncos, vinte e cinco flores. São exatamente vinte e cinco, e não é por acaso.

A Serra de Sintra arde quase todos os verões. Basta o calor apertar e o vento virar, e o mato, o pinhal e o eucaliptal pegam como pólvora. Aconteceu dezenas de vezes em cem anos, e quase sempre a serra tornou a erguer-se, verde, como se nada tivesse sido. Só uma vez o fogo matou. Foi em setembro de 1966, no maior incêndio de que há memória naquelas encostas, a serra dos palácios e dos jardins românticos transformada, durante uma semana, num forno aberto.

A serra inteira a arder na noite de setembro de 1966; ao longe, o clarão chegava a ver-se de Lisboa.
FIG. 02A serra inteira a arder na noite de setembro de 1966; ao longe, o clarão chegava a ver-se de Lisboa.

Começou a 6 de setembro, para os lados da Lagoa Azul. Segundo a investigação que se lhe seguiu, terá nascido de um simples descuido, uma coisa de nada. Mas as temperaturas estavam altíssimas e o vento saltava a cada hora, forte e imprevisível, e o que era pequeno depressa deixou de se poder dominar. As chamas treparam as encostas e espalharam-se por quase toda a serra. Faúlhas levadas pelo ar atearam fogos novos a quilómetros de distância, já junto ao mar, em Colares, em Magoito, na Praia das Maçãs. À noite, o clarão via-se de Lisboa. O fogo chegou perto de Seteais, de Monserrate, do Parque da Pena. Durante dias, pareceu que a serra inteira ardia de uma só vez.

Combateram o fogo durante quase uma semana, em exaustão. Mais de quatro mil homens, e o vento sempre do lado errado.
FIG. 03Combateram o fogo durante quase uma semana, em exaustão. Mais de quatro mil homens, e o vento sempre do lado errado.

Contra ela atirou-se quase tudo o que o país tinha. Mais de quatro mil homens: todos os bombeiros do distrito de Lisboa, reforços vindos das Caldas da Rainha, de Elvas e de Leiria, e ainda tropa. Daquele distrito faziam parte, logo a norte, as terras saloias de Mafra, da Malveira e da Ericeira. Não foi suficiente. Em 1966 não existia em Portugal um único avião para combater incêndios, nem maquinaria pesada que rasgasse aceiros à frente das chamas. Havia homens, mangueiras, pás e ramos verdes arrancados às árvores, e o vento sempre do lado errado. Um fogo daquele tamanho não se apagava à força: esperava-se que se cansasse sozinho.

O Memorial dos Soldados, no Alto do Monge: a cruz, a lápide com os nomes dos mortos e as flores que todos os anos lhes voltam a deixar.
FIG. 04O Memorial dos Soldados, no Alto do Monge: a cruz, a lápide com os nomes dos mortos e as flores que todos os anos lhes voltam a deixar.

Foi nessa luta desigual que morreram os vinte e cinco. Na noite de 7 de setembro, um grupo de soldados subira ao Alto do Monge para tentar travar a frente do fogo. Eram praças do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, rapazes fardados que não eram bombeiros, mandados para o meio de uma serra a arder sem preparação nem meios para aquele combate. O vento voltou-se de repente. As chamas fecharam-se à volta deles e cortaram-lhes toda a saída. Ficaram cercados, e nenhum escapou. Conta-se que, no escuro, ainda se ouviram pedidos de água. Os corpos foram encontrados na tarde seguinte, no mesmo sítio onde o fogo os apanhara, logo abaixo do cume.

Bombeiros e militares, com uma só viatura e uma mangueira, no combate desigual de 1966.
FIG. 05Bombeiros e militares, com uma só viatura e uma mangueira, no combate desigual de 1966.

A serra havia de arder outra vez. Ardera antes, ardeu depois, há de arder ainda, porque é isso que as serras de calor e vento fazem. Mas, desta vez, a montanha não se limitou a fechar-se sobre os seus mortos.

O incêndio durou sete dias. Nada do que era humano o deteve. Na manhã de 12 de setembro veio finalmente a chuva, e foi a chuva, não os homens, que o apagou. Tinham ardido cerca de cinquenta quilómetros quadrados, quase toda a serra. Quando o fumo assentou e se fez a conta, faltavam vinte e cinco fardas que não tinham descido. Foi essa a conta que ficou. A imprensa de então, sob censura, deu ao país o número de vinte e cinco; houve, lá fora, quem falasse de mais, e ainda hoje não há certeza. Mas vinte e cinco foram os que a memória reteve.

E então, no Alto do Monge, no lugar exato onde os soldados ficaram, não os deixaram esquecer. Os serviços florestais, a Câmara de Sintra e o regimento dos seus camaradas, o de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, ergueram-lhes ali uma memória, o Memorial dos Soldados: sobre o penedo mais alto, uma cruz branca; na rocha, uma lápide com os seus nomes. À volta plantaram-se ciprestes, as árvores dos cemitérios, direitas como sentinelas viradas para o mar. Vinte anos depois do fogo, os bombeiros da serra, com a Liga dos Bombeiros Portugueses, voltaram a subir para os evocar. E ainda hoje, todos os anos, o regimento herdeiro, sediado em Queluz, torna a subir a serra e deita, junto aos troncos, vinte e cinco flores. Uma por cada homem que ali ficou. As árvores cresceram onde os homens não puderam; e cada setembro, as vinte e cinco flores voltam a contá-los, um a um.