Há quem jure que, à noite, alguma coisa acorda nas caves do Convento de Mafra. A história que se conta está errada, mas não está errada por completo: há mesmo qualquer coisa que se mexe naquele edifício enorme depois de as portas se fecharem. Só que a criatura que o povo repete há gerações não é a verdadeira. A verdadeira é mais estranha, e quase ninguém a conhece.
A lenda é das mais persistentes do país. Diz-se que, nos subterrâneos do convento, vivem ratos gigantes, e que à noite saem a devorar tudo o que apanham. Na versão mais crua, comem cães, gatos e até gente. Conta o boato que são tão temíveis que os próprios militares aquartelados no convento os teriam de alimentar, para que não subissem à superfície à procura de comida, e que, para acabar com eles, seria preciso evacuar a região inteira num raio de dezenas de quilómetros. Há quem fale em quatro pisos enterrados, infestados de bichos do tamanho de coelhos.
Conta-se até que túneis ligam o convento à Ericeira, a uns dez quilómetros, e que foi por eles que o último rei, D. Manuel II, fugiu para o exílio em 1910. (É lenda: nessa madrugada de outubro, como já aqui contámos, o rei partiu mesmo da Ericeira, mas embarcou num iate, na praia dos pescadores. Nenhum túnel ficou provado.)

Acredite-se ou não. Vale mais a pena perceber porque é que uma história assim pega justamente em Mafra. Porque Mafra é desmesurada: mandado erguer por D. João V a partir de 1717 e concluído em 1755, o palácio-convento é um dos maiores da Europa, com centenas de salas e corredores, e parte dele é quartel desde 1849. Um lugar assim, vasto, antigo, meio fechado ao público, é terreno fértil para tudo o que a imaginação queira lá pôr. Já falámos do preço a que foi erguido: morreram na obra mais de mil homens, quase todos sem nome registado, os mesmos que José Saramago resgatou do esquecimento no Memorial do Convento.
A direção do palácio desmente a lenda com paciência: ratos, há, mas vivem nos esgotos, como em qualquer edifício antigo e grande encostado ao campo e à Tapada; não são gigantes, não são aos milhares, e não há quatro pisos enterrados, há um só, na zona dos torreões.

Quanto ao homem devorado, a própria Escola Prática de Infantaria, que ocupa o convento, conta um episódio verdadeiro, mais triste do que assustador, e sem data certa. Há décadas, um soldado terá caído do terraço para os esgotos enquanto caçava pombos com um colega. O colega, com medo do castigo, não comunicou logo o acidente, e o corpo só foi encontrado mais tarde, roído pelos ratos. Mas o homem morreu da queda, não devorado. Bastou isso: de um acidente mal contado nasceu um monstro.
E, no entanto, alguma coisa acorda mesmo em Mafra quando a noite cai. Na maior sala do convento, uma biblioteca de oitenta e oito metros que guarda mais de trinta e seis mil livros antigos, dos séculos XIV a XIX, vive uma colónia de pequenos morcegos. (É a mesma sala imensa onde, noutra história, se guardaram séculos de livros proibidos; já aqui falámos, de passagem, destes guardiões.) De dia, dormem atrás das estantes ou no jardim do palácio. De noite, com a biblioteca fechada e às escuras, levantam voo por entre as prateleiras e caçam as traças e os bichos que comem o papel, a tinta e a cola dos livros.

Fazem-no, ao que tudo indica, há gerações, talvez desde que a biblioteca existe, há cerca de dois séculos e meio. É uma defesa que nenhum veneno igualaria, e sai de graça. Tem só um preço: todas as noites, antes de saírem, os funcionários cobrem a mobília com panos; todas as manhãs, limpam do chão de mármore os vestígios da passagem dos morcegos. É o acordo silencioso entre quem guarda os livros de dia e quem, sem o saber, também os guarda de noite.
O sociólogo Moisés Espírito Santo explicou um dia porque é que lendas destas pegam: os mitos e as superstições servem para encher os espaços vazios da imaginação, e as pessoas precisam de contar histórias. Antigamente faziam-no à lareira; hoje fazem-no por outros meios. Mafra, grande e escura, pedia um monstro, e a imaginação deu-lho.

Mas o escuro nunca esteve vazio, e nunca teve fome de nós. Alguma coisa acorda mesmo em Mafra quando as portas se fecham: não para devorar, para guardar.