No maior palácio de Portugal, há uma cama com abas de madeira que se levantam dos lados, como as grades de um berço. Não era um luxo nem um capricho. Era para o doente não cair - porque o homem que ali se deitava já não sabia, muitas vezes, onde estava.
A cama fica numa pequena cela, no meio do edifício que toda a gente conhece pelo ouro, pela basílica e pela biblioteca de livros antigos. Quase ninguém sabe que, por trás de tanta grandeza, havia ali dentro um hospital. E que, no hospital, havia um quarto reservado aos que perdiam o juízo.
Convém lembrar o que é Mafra. O palácio-convento que D. João V mandou erguer com o ouro do Brasil, a partir de 1717, é o maior monumento do barroco português, pensado para trezentos frades da Ordem de São Francisco e tão desmesurado que nunca chegou a tê-los todos. Mas um convento assim era um mundo fechado sobre si próprio, e um mundo desses tem de dar conta de tudo o que uma terra dá: o pão, a roupa, os livros, os mortos. E os doentes.

Por volta de 1744 entraram em uso as casas da enfermaria. Eram três: uma para os convalescentes, outra para os noviços e outra para os doentes graves. A dos doentes graves ficava no segundo piso, com uma única porta para o resto do convento, de modo a poder fechar-se em caso de doença contagiosa. Dividia-se em dezasseis pequenas alcovas de madeira, cada uma com cama de colchão de palha, almofada de aparas de cortiça e um banco para as visitas. As paredes eram forradas de azulejo branco (só as enfermarias e as cozinhas o eram), porque o azulejo se limpa com facilidade e ajuda a travar o contágio. Por cima de cada cama, um painel de azulejo mostrava Cristo crucificado, em sofrimento; aos pés, Nossa Senhora. Todas as camas estavam viradas para um altar, para que o frade acamado pudesse acompanhar a missa sem se levantar.
Da antecâmara desta enfermaria saía uma escada. Não levava ao jardim nem ao claustro. Levava direita ao corredor do Campo Santo, onde se enterravam os mortos depois do funeral, de modo que um corpo pudesse seguir para o cemitério sem atravessar o resto do convento. A morte, ali, tinha caminho próprio.

E havia o tal quarto. Entre as enfermarias, uma pequena sala destinada, nas palavras da época, à «enfermaria dos doidos». É preciso entender a palavra como então se entendia: «loucura» não era só a doença mental, era também o delírio de quem ardia em febre alta, ou as crises de quem tinha epilepsia. Para esses estava a cama de abas: baixavam-se as abas para cuidar do doente, levantavam-se para que ele não caísse. No edifício mais sumptuoso do reino, alguém se deu ao trabalho de inventar um móvel só para impedir que um homem em delírio se magoasse contra o chão.
Quem cuidava deles? Um enfermeiro-mor e dois enfermeiros, todos frades, e os enfermeiros tinham de saber ler e escrever, para cumprirem à letra as receitas do médico. Médico fixo não havia. O médico ganhava por ano duzentos mil réis; o cirurgião, oitenta mil; e havia ainda um sangrador, que recebia cinquenta mil e tinha de vir duas vezes por dia para ver se alguém precisava de ser sangrado, que era como então se julgava fazer sair o mal de dentro do corpo. O médico e o cirurgião eram da vila, e estavam obrigados a subir ao convento de manhã e de tarde, por volta das nove e meia e outra vez depois das três, houvesse ou não doentes.

A chegada deles era anunciada por um sino, ali perto. O médico tocava quatro badaladas, o cirurgião três, para chamar o enfermeiro. Mas o mesmo sino tinha outro nome. Chamavam-lhe o sino da agonia, porque tocava também sempre que um dos irmãos estava a chegar ao fim. O som que de manhã trazia o médico era, a outras horas, o que avisava que alguém estava a morrer.
Já falámos, noutra história, do preço a que Mafra foi erguida: morreram na obra mais de mil homens, quase todos sem nome registado. O mesmo rei que gastou esse ouro e essas vidas mandou também preparar, ao pormenor, as camas, as dietas e os remédios dos que adoeciam no seu convento. E, no entanto, em todo o edifício, o único retrato de D. João V é uma moeda, gravada entre outras num saco que verte de uma cornucópia, na decoração do altar da enfermaria dos doentes graves. O homem que mandou erguer tudo aquilo aparece, uma só vez, como dinheiro, à cabeceira dos doentes.

A cama das abas ainda lá está. Quem hoje percorre as enfermarias passa por ela quase sem reparar. Levanta-se uma das abas e percebe-se, de repente, para que servia: para que um homem em delírio, no meio de toda aquela grandeza, não fosse cair ao chão.