Em Sevilha, no Alcázar, no calor pesado de março de 1526, uma jovem de vinte e dois anos esperava o homem com quem se casaria sem nunca o ter visto. Chamava-se Isabel. Era filha de Manuel I de Portugal, neta de reis pelos dois lados, e trazia consigo um dote de novecentos mil cruzados em ouro, suficiente para sustentar exércitos. O noivo, Carlos de Gante, Sacro Imperador Romano-Germânico e rei de Espanha, chegou cansado de uma guerra com a França. Casaram nessa mesma noite, depois da meia-noite, para que o dia litúrgico já não fosse o da Quaresma. Conta-se que ele, que esperava cumprir uma obrigação dinástica, ficou enfeitiçado. Adiaram tudo o resto e ficaram em Granada sete meses, no Alhambra. Foi a única lua-de-mel que o Imperador alguma vez se permitiu.
Isabel nascera em 1503, em Lisboa, no auge do reinado do pai. Manuel, o Venturoso, era então o homem mais rico da Europa. O caminho marítimo para a Índia, aberto por Vasco da Gama em 1498, e o Brasil, alcançado por Cabral em 1500, faziam entrar em Lisboa especiarias, marfim, ouro e o assombro do mundo. Em 1514, a embaixada de Tristão da Cunha levara ao papa Leão X presentes de pasmar, pedrarias, tecidos, um cavalo persa, um elefante chamado Hanno e, mais tarde, um rinoceronte que os pintores italianos não saberiam esquecer. Era nesta corte, entre o estilo manuelino dos Jerónimos e a Torre de Belém ainda em obra, que crescia a infanta. A mãe, Maria de Aragão, era filha dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os mesmos que tinham unificado a Espanha e dado o mundo a Colombo. Pelo lado materno, portanto, Isabel era prima direita do futuro marido. Pelo paterno, era a filha mais cobiçada da Cristandade.
Manuel I morreu em dezembro de 1521, vitimado por uma das pestilências que ciclicamente devastavam Lisboa. Sucedeu-lhe o irmão de Isabel, D. João III. Em quatro anos, o novo rei moveu a peça que faltava no tabuleiro europeu: ofereceu a irmã a Carlos V, com o tal dote astronómico, em troca de uma aliança que cosesse de novo as duas coroas ibéricas. Os Habsburgo precisavam de dinheiro. As guerras na Lombardia, contra Francisco I de França, tinham culminado em Pavia, em 1525, com o rei francês prisioneiro, mas com a Coroa imperial exangue. O ouro português pagaria os Lansquenetes alemães e os Terços espanhóis. Era uma transação de Estado. Tornou-se, segundo as crónicas, outra coisa.

Carlos V era, à data, o homem mais poderoso do Ocidente. Nascido em Gante em 1500, filho de Filipe, o Belo, e de Joana, a Louca, herdara quatro coroas por acidente de berço: a Borgonha e os Países Baixos do avô paterno, Castela e Aragão do materno, a Áustria de Maximiliano, e, em 1519, o trono imperial. Reinava sobre um império onde, como se dizia, o sol nunca se punha. Mas não tinha capital. Estima-se que tenha passado um quarto da vida na estrada, em quarenta viagens entre a Flandres, a Castela, a Itália e a Alemanha, perseguido pela Reforma Protestante, pelos turcos de Solimão e pelas dívidas aos banqueiros Fugger. Precisava de alguém que governasse Espanha enquanto ele cavalgava pela Europa fora.
Esse alguém foi Isabel.

A partir de 1529, e por períodos longos ao longo dos treze anos seguintes, foi ela quem ficou em Castela e Aragão como regente, com selo próprio, despachando com o Conselho Real, recebendo embaixadores, gerindo a Fazenda e a frota das Índias num momento em que Hernán Cortés acabava de submeter os Astecas e Francisco Pizarro avançava sobre o Peru. Era a Imperatriz quem assinava as ordens para Sevilha, quem arbitrava as disputas entre os grandes, quem mediava com as Cortes castelhanas que poucos anos antes se tinham levantado na Revolta dos Comuneiros. Falava português, castelhano e latim. Era, dizia-se, mais espanhola na contenção do que o próprio Imperador, formado em Bruxelas. Os embaixadores venezianos descreviam-na bela, séria, devota e capaz. Carlos, que fizera dela a sua substituta quase por necessidade, acabou por confiar-lhe matérias que não confiava a mais ninguém. As cartas entre ambos, quando ele estava na Alemanha ou em Tunes, eram de marido e de sócio em partes iguais.
Deram-se-lhe sete gravidezes em treze anos de casamento. Sobreviveram três filhos. O mais velho, nascido em Valladolid em maio de 1527, foi batizado Filipe, em honra do avô flamengo. Seria, um dia, Filipe II de Espanha, o mesmo que em 1580 entraria em Lisboa como Filipe I de Portugal, fechando o ciclo que o casamento dos pais começara. Mas a esse desfecho Isabel não chegaria.

Em abril de 1539, em Toledo, estando o Imperador outra vez ausente, a Imperatriz adoeceu durante a sétima gravidez. O parto correu mal. A criança não vingou. Isabel não se recompôs da febre. Morreu a 1 de maio, com trinta e cinco anos. Está documentado que Carlos V, ao receber a notícia, se retirou para o mosteiro de La Sisla, perto de Toledo, e ali ficou semanas sem receber ninguém. Vestiu luto rigoroso até ao fim da vida. Nunca mais voltou a casar, embora tivesse ainda dezanove anos de reinado pela frente, e podia, do ponto de vista dinástico, ter feito outras alianças vantajosas. Não fez. Mandou que, à hora da sua própria morte, o seu corpo fosse sepultado junto ao dela.
O cortejo fúnebre desceu de Toledo até Granada, ao Alhambra, onde tinham sido felizes. Acompanhou-o, durante todo o trajeto, um jovem fidalgo chamado Francisco de Borja, então marquês de Lombay. Quando, em Granada, abriram o caixão para a identificação ritual perante as autoridades, o rosto que Borja vira em vida estava irreconhecível. Conta-se, e a tradição franciscana repete-o sem variantes, que foi nesse momento que o marquês decidiu nunca mais servir senhor que pudesse apodrecer. Renunciou aos títulos, entrou na Companhia de Jesus, viria a ser o terceiro Geral da Ordem e, mais tarde ainda, santo. A morte de uma rainha portuguesa em Toledo deu à Igreja um dos seus jesuítas mais famosos.

A Carlos V deu outra coisa. Em 1548, quase dez anos depois da morte de Isabel, mandou vir de Veneza o pintor da corte, Ticiano, e encomendou-lhe um retrato póstumo da mulher. Como o pintor nunca a conhecera, trabalhou a partir de uma miniatura antiga. Saiu uma figura de vermelho e veludo, sentada à janela, com um livro de orações na mão e uma serenidade que nada tinha de cortesã. O Imperador levou esse quadro consigo nas viagens. Está documentado que, ao retirar-se em 1557 para o mosteiro de Yuste, na Extremadura, depois das abdicações que dividiram o seu império entre o filho Filipe e o irmão Fernando, levou três telas. Uma era a Glória, também de Ticiano. Outra era um Cristo. A terceira era o retrato de Isabel.
Morreu em Yuste a 21 de setembro de 1558, com cinquenta e oito anos. Os seus restos foram trasladados, como tinha pedido, para junto dos dela, mais tarde no Escorial que Filipe II mandaria erguer.

> Casaram-se por contrato e por dote, em catorze horas mal contadas. Ficaram juntos, depois, por outra coisa que os documentos do reino não souberam nomear.
Em Lisboa, do palácio onde Isabel crescera, pouco resta. O terramoto de 1755 levou a Ribeira, levou os Paços, levou os arquivos. Em Granada, o Alhambra continua de pé. Em Madrid, no Prado, o retrato de Ticiano espera, no mesmo vermelho de sempre, que alguém pergunte quem foi aquela mulher de olhos descidos. Era filha do Venturoso. Governou meia Europa em nome de um marido que andava sempre noutro sítio. Deu à Espanha o rei que viria a ser também rei de Portugal. E, em vida, ninguém em Castela lhe chamou outra coisa senão la Emperatriz.

(Texto e imagens recriados com recurso a inteligência artificial, a partir de registos históricos e relatos da época.)